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Vanderley de Brito: A primeira descoberta do dia

Vanderley de Brito. Publicado em 20 de outubro de 2020 às 20:22

Quando a gente abraça um idealismo a vida passa a ter mais sentido. A convicção de estarmos fazendo algo que excede o acúmulo individual dá nova perspectiva à assistência enquanto seres pensantes. Porém, este tipo de dedicação foge à compreensão da maioria das pessoas, o que nos faz pensar, às vezes, se há resultados em dispensar tanta energia, custos e dedicação a um projeto memorialista.

Especialmente quando nos deparamos com obstáculos mesquinhos que, por vezes, de um só golpe atroz, desmoronam dias de trabalho árduo e dedicação a uma etapa em andamento. Ontem foi um dia desses. Nossos esforços de semanas caíram por terra diante de negativas e empecilhos inesperados.

Amanheci cansado e desiludido, mas, mesmo assim, depois de um desjejum mecânico, sentei diante do computador para delinear as alternativas de contorno aos danos do dia anterior e reedificar o otimismo. A primeira tarefa do dia seria redigir um ofício, mas logo descobri que qualquer frase que quisesse usar era propensa a ser vaga, a menos que cada palavra fosse cuidadosamente estudada.

A frase mais simples exigia medir palavras e, definitivamente, não me encontrava com espírito para compor um texto apreciável. Pensei em me reprogramar para resolver outra demanda, o rascunho de anotações sobre a mesa elencava pelo menos cinco urgências a serem feitas. Reli uma a uma, mas nenhuma delas me ocorreu por onde começar. Então percebi que não era dia para isso, meu ânimo estava para baixo e minha capacidade de discernir com clareza embicava a mesma direção.

Olhei para a janela por cima do monitor e vi que o dia estava bonito, como um dia de domingo. O céu azul, com poucas nuvens, e resolvi convidar a velha motocicleta de guerra para um passeio incerto no rumo meridional. É revigorante sentir na pele o calor do sol e o frescor do vento. Saímos então, eu e a moto, e, vencido o labirinto urbano, tomamos a estrada rumo do Cariri.

Depois de meia hora de paisagens passantes e áridas, trinta quilômetros de asfalto ficaram para trás. Um vento ribeiro e familiar anunciava a ponte do riacho Bodocongó pouco adiante, ali é a demarca que, no sentido norte-sul, separa o resto do mundo da terra de meus ancestrais. Gosto do sabor incerto destas plagas de antigos judeus desterrados, inalar o cheiro de curral, de terra ferruginosa, com sua flora odorante, e me aprofundar no silêncio deste pedaço de mundo proscrito.

Não fui rever ninguém, fui por ir. Parei num lugar insólito, num meio do nada, encostei a moto à sombra de uma algarobeira e desci a pé a encosta da pista. Atravessei uma cerca de arame farpado, como um fugitivo de Auschwitz, e segui andando a esmo pelo prado, a deriva, como um judeu errante.

Adiante, parei um instante para apreciar um facheiro, que com mãos erguidas para o céu me fazia lembrar um menorá, o chamado candelabro de sete braços, símbolo exclusivo do povo judeu, usado pelo menos desde o tempo do Êxodo. Fiquei absorto, maquinalmente meu corpo se deslocava para frente e para trás, murmurando uma espécie de orquestração iídiche de memórias antigas, como se tivesse em oração comigo mesmo, no meu próprio muro das lamentações. Já dizia um texto talmúdico que cada homem é sua própria sinagoga.

Continuei andando, as folhas de marmeleiro, de cor verde-cinza, agitavam-se nos mais diversos padrões, virando-se para o sol e faiscando como pedras preciosas. Enquanto vagueava, cabisbaixo, eu ia cavoucando a parte superficial do solo com o pé, quando notei um objeto se projetando da terra.

Não parecia um seixo, abaixei para examinar, era um pequeno fragmento de cerâmica, ligeiramente quebrado num lado, uma peça comum naquelas bandas. Pensei em ignorá-la, mas reconsiderei: era minha primeira descoberta do dia.

Cuspindo nos dedos, limpei o caco até deixá-lo livre de terra, leve e opaco em minha mão. Segurando-o entre o polegar e o indicador perguntei a mim mesmo – Nível? Idade? Proveniência? Sentei-me na ruína de uma velha cocheira de alvenaria, tirei meu caderninho de anotações e preenchi com cuidado meticuloso os dados sobre a peça, sua estratigrafia, vitrificação, cozimento, os elementos que forma a argila, se havia sido alisado a mão, um chumaço de palha ou uma cuia… Seria anterior a era cristã?

Com traços precisos da caneta desenhei a peça e indiquei a escala 2:1, o que significava que o desenho era duas vezes maior do que o original. Ao por o ponto final levantei o rosto e pensei comigo: – Que segredos perdidos ainda têm por aqui? A resposta foi o silêncio daquele lugar ermo. Percebi, então, que aquele achado deflagrou meu instinto metodológico e eu não estava mais com aquela sensação turva e indistinta que me trouxera ali.

Tão feliz quanto um homem pode ser, acomodei o fragmento cerâmico no molde de terra do qual o tirei e retornei pra casa, ansioso para voltar a trabalhar e contornar os obstáculos, apenas pelo simples prazer de fazer novas descobertas que venham contribuir com os ideais memorialistas.

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Vanderley de Brito

Historiador, Arqueólogo, Presidente do Instituto Histórico de Campina Grande e membro fundador da Sociedade Paraibana de Arqueologia.

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