Vanderley de Brito: A odisseia de Pedro Jeremias

Vanderley de Brito. Publicado em 18 de maio de 2021 às 13:00

Depois de três anos ocupado na produção do livro “História de Campina Grande: de aldeia a metrópole”, obra que escrevi em parceria com a rígida Ida Steinmüller, que, em seu cabresto alemânico, me limitou estritamente às leituras dirigidas ao tema e mal me sobrava tempo para ler romances. Mas agora, finalmente, consegui ler um dos livros de meu “cumpade” Efigênio Moura. Que obra deliciosa!

Efigênio é uma figura, não temos relação de compadrio, mas como ele chama todo mundo de “cumpade”, já me sinto seu compadre. Embora romancista, Efigênio é discípulo de Zé da Luz. Escreve em nordestinez, e com muita competência.

Monteirense, dos confins sul do Cariri paraibano, conheço-o a pouco, talvez a uns seis ou dez anos. Nem lembro onde nos encontramos pela primeira vez, possivelmente em algum dos encontros do Instituto Histórico do Cariri. É uma amizade branda, regida por encontros casuais e nossa afinidade com as letras, pois também nunca conversamos demoradamente, foram sempre só alguns dois dedos de prosa nos bastidores de eventos. Ele já foi em minha casa uma vez e eu fui na casa dele também uma vez, mas nem entramos, foram conversas rápidas na frente do portão, como boi no pasto. Ele me tem por etnólogo e quando me procurou pela primeira vez veio buscar fontes etnográficas sobre os indígenas cariri para fundamentar um livro que estava escrevendo, e quando eu fui na casa dele foi para trocarmos livros, eu dei a ele o livro “A Passagem das Espinharas”, um romance histórico sobre os sertões paraibanos, que escrevi encangado com meu filho, Erik Brito, e ele me deu sua mais recente obra “Pedro Jeremias”. A obra é em três volumes, mas confesso que até aqui só tive tempo de ler um dos volumes; o primeiro.

Não sou crítico literário, mas como fiquei devendo meu parecer ao autor, vou traçar aqui alguns garranchos a respeito da obra. É, mas vou logo avisando que não sei usar aqueles enfeites semânticos eloquentes e esnobes, típicos dos críticos literários, e tampouco sou erudito em nordestinez, pois, embora eu tenha minha essência genética advinda do solo massapê caririzeiro, sou de nascimento e formação metropolitana. Mas, tudo se aprende um pouco e, como sempre fui fascinado por romances e pelo linguajar rural, já até me arrisquei na Literatura de Cordel para registrar em versos um pouco do que consegui interpretar deste extraordinário universo agrário, tão vivo e pitoresco em Ariano Suassuna.

Bom, mas deixemos de conversa mole e vamos ao que interessa: a obra efigeniana (êita! Já tô falando importante).

O romance “Pedro Jeremias” é o roteiro de viagem de um fictício ex-cangaceiro do bando de Lampião, e tem como cenário a monotonia incerta, ignorante e sangrenta do Nordeste de fins da década de 30 do século XX. O estilo é de Regionalismo Tradicionalista e segue contínuo como chuva fina, ou, como Efigênio mesmo diria, “que nem arenga de mulher, que num cresce, mas é insistente”. No decurso desta viagem, acompanhado de seus companheiros de cangaço: Às de Copa, Janela, Meia Morte, Pai Véio, Xerém e Breu, o pequeno bando de Pedro Jeremias é um grupo retirante do cangaço que, por sorte, escapara da chacina de Angicos, onde seu líder, Lampião, fora tocaiado e morto junto com a maioria do bando.

Fantasiados de gente comum, de lugarejo em lugarejo, os retirantes cangaceiros vivenciam aventuras inúmeras, algumas até de tirar o fôlego, tendo de se livrar da perseguição das volantes e enfrentando situações inúmeras por onde passavam, como os desmandos e arbitrariedades dos coronéis e os sertanejos metidos a brabo que tiveram a má sorte de não os identificam como cangaceiros. Cada membro da epopeia tem sua própria personalidade, mas, de modo geral, são rudes e cruéis. Em algumas situações, a impiedade de seus personagens lembra as obras “Cangaceiros” e “Pedra Bonita”, de José Lins do Rego, com cenas fortes de estupros, humilhações, torturas e mortes a sangue frio, porém, o enredo é tão rico em entrelinhas sociológicas que estas atitudes, embora bárbaras, não instigam repúdio ao leitor. Até porque, os atos de violência são forçados pelas circunstâncias, pois a morte de Lampião significou o fim do regime cangaceiro (acabou-se o divertimento do mundo) e o que todos do grupo sobrevivente buscam é levar uma vida normal, regressar à família e direcionar um rumo de vida honesta. Sem grandes anseios, todos almejam “almenos” um banho com cheiro de sabonete Gessy.

A essência literária da obra é homérica, segue a mesma receita romanesca da Odisseia, onde Pedro Jeremias e seus companheiros regressam da “guerra” com intuito de restaurar suas vidas anteriores. Entretanto, ao longo da jornada o grupo vai gradativamente se reduzindo, alguns encontram a morte nos embates da aventura e outros tomam o rumo de novas oportunidades. Um fato interessante é a biografia sofrida de cada um destes membros do bando, que Efigênio traça como rememorativo para selar o desfecho de cada um. Este artifício é muito valioso a título de compreender e relevar seus malfeitos, miraculosamente cura todos os seus males, como chá de erva cidreira.

Já o protagonista, Pedro Jeremias, diferente do Ulisses homérico, não configura o ideal do belo e bom guerreiro, não há atos de heroísmo exacerbado nem enfrenta seres fantásticos e mitológicos, a obra, em si, é uma ficção muito realista, nada é certo como queixo de bode. O personagem-mor tem suas incertezas, seus planejamentos são sem data exata, “talvez ano que entra, no mês de São João, já fungando a congote do mês de Santana” e sem hora exata, “quatro e pouca, já estourando quatro e meia”.

Entretanto, neste caminhar de calangos pelo Nordeste seco, entre risos e choros, encontros e desencontros, suor e sangue, e cheiros de enxofre e chumbo, a odisseia de Pedro Jeremias acalenta o sonho de reencontrar seu grande amor, a morena que deixou para trás, Maria de Jesus, sua Penélope do sertão pernambucano.

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Vanderley de Brito

Historiador, Arqueólogo, Presidente do Instituto Histórico de Campina Grande e membro fundador da Sociedade Paraibana de Arqueologia.

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