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Vanderley de Brito: A morte agonizante do jornal impresso

Vanderley de Brito. Publicado em 14 de janeiro de 2022 às 0:00

Estou completando hoje meu artigo número 300 publicado em jornais, mas não creio que seja um motivo de comemoração. Comecei a escrever em jornais em julho de 2004, como articulista semanal do Diário da Borborema, onde estive ativo até quando, infelizmente, este jornal foi extinto, em 2012, juntamente com jornal o Norte, dos Diários Associados. Duas perdas irreparáveis para o registro tátil do cotidiano na Paraíba.

Com o fechamento do Diário, hibernei até 2014, quando passei a colaborar com os cadernos especiais do Jornal da Paraíba, mas foi breve, pois já há um tempo este jornal impresso demonstrava olheiras funéreas e, lamentavelmente, em abril de 2016 também fechou as portas.

Por mais dois anos fiquei com a palavra presa na garganta, só publicava esporadicamente em algumas revistas de incerta periodicidade e, neste meio tempo, o amigo e confrade Marcos Marinho me convidou para escrever no seu jornal online A Palavra, bem como o amigo Arimatéa Souza também me abriu as portas de seu portal Paraibaonline. Foram grandes oportunidades, tem gente que mataria um para poder assinar coluna nestes portais, escrevo neles até hoje, mas, devo dizer, não sinto satisfação em escrever em espaço virtual. 

Finalmente, no ano de 2018 o empresário e amigo Roberto Cavalcanti me deu a oportunidade de publicar em seu Jornal impresso, o Correio da Paraíba, e neste ano também, simultaneamente, passei a assinar artigos no jornal do Estado: A União. Porém, eram espaços intermitentes, pois com o fechamento da maioria dos jornais impressos, havia grande refluxo de cronistas em busca de espaços, a maioria com melhores relações na imprensa do que eu, de modo que fiquei incerto, nômade, pois nenhum destes dois jornais me garantia sedentarização. 

Foi em março de 2019, que, afinal, consegui um espaço fixo, quando o amigo jornalista Jorge Rezende me deu periodicidade para ficar escrevendo aos sábados neste Caderno Memorial d’A União. É um tema restrito, eu sei, requer muita criatividade para manter a chama semanal, mas gosto de desafios, já venho publicando desde então na temática da morte e hoje fecho um ciclo de três centenas de artigos publicados em jornais impressos, falando, exatamente, da gradativa morte deste tipo de veículo de comunicação.

No ínterim em que venho escrevendo neste caderno, vi o fechamento do Correio da Paraíba, ocorrido em abril de 2020, que foi o último jornal impresso particular paraibano a descer à sepultura. Agora só temos o A União, que é um jornal centenário e estatal, fundado em fevereiro de 1893, e torço para que ele dure por mais algumas centenas de anos.

É triste ver o processo de morte do jornal impresso. Com receitas caindo, muitos se viram obrigadas a pôr fim na circulação impressa ou fechar. Teoricamente, isso significa que neste início do século XXI o hábito de ler jornais está caindo em desuso, pois o que está acontecendo na Paraíba se reflete no mundo inteiro, só nos Estados Unidos fecharam cerca de 1.800 jornais impressos entre 2004 a 2018.

O definhamento e morte do impresso está ligado a competição por anúncios, que é mais favorável para os meios digitais, que já abduziram as massas, e a maior parte dos recursos que antes iam para jornais impressos agora estão abastecendo os gigantes digitais, como o Facebook, por exemplo.  

Os tempos estão mudando, eu sei, mas nem toda mudança é benigna. Com o fim gradativo dos jornais impressos estamos condenando nossa epopeia atual ao esquecimento, pois a informação virtual é imediatista e instável (literalmente), que pode sair do ar a qualquer momento ou desaparecer para sempre nos seus insondáveis labirintos. Eu mesmo já vi sumir dezenas de artigos que publiquei na internet, basta o site não manter a conta que todo seu conteúdo pura e simplesmente evapora.

Digo com propriedade que as hemerotecas são as mais ricas fontes de informações históricas. Os jornais impressos, com suas notícias, crônicas, matérias, poesias, charges, críticas literárias, recreações e diversidades, semantizam estéticas sociais e paisagísticas do tempo em andamento como nenhum outro meio de comunicação. Por isso, cabe à sociedade se insurgir contra à sua morte.

Vamos fazer anúncios e assinar os jornais que ainda estão resistindo. Se não gosta de ler jornais, pelo menos vai servir para limpar janelas ou embrulhar alguma coisa. O mais importante é legar à posteridade acesso às ressonâncias episódicas do nosso tempo. É uma opção de cada um de nós: sermos vistos no futuro como a geração que reagiu às seduções abstratas da cibermetria, ou, para dizer o mínimo, sermos no futuro pelo menos vistos. 

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Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

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Vanderley de Brito

Historiador, Arqueólogo, Presidente do Instituto Histórico de Campina Grande e membro fundador da Sociedade Paraibana de Arqueologia.

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