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Unidos a Cristo a videira verdadeira

Padre José Assis Pereira. Publicado em 28 de abril de 2018.

“Eu sou a videira verdadeira e meu Pai é o agricultor” (Jo 15,1). Jesus pronunciou estas palavras no seu discurso de “adeus”, de despedida, no contexto da última Ceia. São palavras cheias de emoção e afeto, pronunciadas nos últimos momentos que Ele vive com seus discípulos antes de sua paixão e morte; por isso Jesus se concentra no essencial do seu projeto de vida, manter-se vivo e o seu evangelho, nos seus discípulos: “Permanecei em mim e eu permanecerei em vós” (Jo 15,4). Jesus abre seu coração, após ter lavado os pés dos seus discípulos.

Quem lê o inicio do capítulo 13 do Quarto Evangelho se surpreende ao conhecer o segredo de toda a vida do Senhor. O evangelista deixa dito que “sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo ao Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1).

Estas palavras deveriam gravar-se em nossa mente e em nosso coração: saber que toda a vida de Jesus tem uma única chave de leitura: “amou-os até o fim”. Na mesma linha temos de colocar o mandamento “novo”: “Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros. Como eu vos amei amai-vos também uns aos outros” (Jo 13,14), a novidade deste mandamento está precisamente neste ponto de referência que propõe o Senhor: “como eu vos amei”. E fica dito que Jesus “nos amou até o fim”.

A relação entre o amor e o cumprimento do mandamento “novo” é uma relação que implica a totalidade da pessoa, não por simples imitação exterior, mas por uma relação vital entre Jesus e seus discípulos, que somos nós. Tal relação e tensão vital positiva entre interioridade e exterioridade, é o que sugere a alegoria da “videira e os ramos”, que o texto do evangelho deste domingo nos apresenta (cf. Jo 15,1-8).

A imagem bíblica da “videira” designava o povo de Israel. A primeira referência à “vinha do Senhor” se encontra num texto do profeta Oséias (10,1) e em outro do profeta Isaías (5,1-7), ambos do século VIII a.C. Depois aparece sucessivamente em Jeremias (2,21; 5,10; 6,9; 12,10) e Ezequiel (15,1-8; 17,3-10; 19,10,14). A vinha e a plantação de uvas eram imagem bíblica para dizer o povo eleito (cf. Os 10,1; Is 5,1-7; Jr 2,21; Ez 15,1-8; 19,10-14). Ponto alto da simbologia da vinha temos na parábola de Jesus da vinha. Os evangelhos sinóticos contam esta parábola (Mc 12,1-12; Mt 21,33-46; Lc 20,9-19).

“Eu sou a verdadeira vinha e meu Pai é o agricultor” (v. 1). Este modo de falar de Jesus indica que Ele se identifica com a vinha, Ele mesmo é a verdadeira vinha, que não é uma simples criatura de Deus,

senão que em “Jesus-vinha verdadeira”, Deus mesmo se faz vinha e é Ele mesmo quem vive na vinha.

Enquanto Israel é uma videira transplantada do Egito e plantada na terra prometida para produzir bons frutos e não o faz, só produzindo uvas ácidas. Jesus produziu o fruto bom e doce do Amor. Deus espera de nós também, desta nova vinha unida a Cristo, o fruto do amor, manifestado já em Jesus Cristo até o ponto de na cruz entregar-se à morte por nós, a quem chama “amigos” (Jo 15,15). Jesus, nosso amigo, garantiu sua presença em nosso meio, mais ainda, “em nós”. “Permanecei em mim e eu permanecerei em vós. Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós não podereis dar fruto, se não permanecerdes em mim.” (v.4).

A relação de proximidade, de amizade e de unidade que o Senhor estabelece conosco implica por nossa parte “permanecer nele”. Esta realidade se expressa de diferentes maneiras, insistindo no mesmo fato: “Aquele que permaneceu em mim e eu nele, esse produz muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer.” (v. 5); “quem não permanecer em mim, será lançado fora…” (v. 6); “se permanecerdes em mim e minhas palavras permanecerem em vós, pedi o que quiserdes, e vos será dado” (v. 7).

Não nos esqueçamos da insistência do verbo “permanecer” que, ao longo do relato, se repete oito vezes, indicando a perseverança para viver em comunhão de vida e unidade, ligados a Jesus, às suas Palavras, ao seu Espírito mediante a fé, a esperança e o amor, afrontando todas as dificuldades que encontramos ao longo do caminho de nossa vida.

“Permanecer” não indica somente o estar presente, mas também inclui a união recíproca, o “conhecimento” mútuo e o amor como a relação que há entre o Pai e o Filho. Jesus também disse que “assim como o Pai me conhece eu conheço o Pai.” (v. 15) ou o Pai permanece nele e Ele permanece no amor do Pai. Nossa vida espiritual, nossa vida cristã ou nossa vida de discípulos e discípulas, não se pode compreender sem esta união com a pessoa de Jesus. Como a videira, dele recebemos toda força, toda vitalidade e todo o amor para ser fecundos.

Este mesmo tema abunda a primeira carta do apóstolo João (cf. 1Jo 3,18-24): “Quem guarda os seus mandamentos permanece com Deus, e Deus permanece com ele; que ele permanece conosco, sabemo-lo pelo Espírito que ele nos deu”. (v.24). Guardar os mandamentos de Deus, quer dizer não amar só de palavra e de boca, mas com ações e de verdade, é produzir os frutos do Espírito.

Este é o desafio que o Senhor nos apresenta hoje: ser testemunhas credíveis de sua ressurreição, não em teoria, mas sim com o testemunho de nossa vida, uma vida que fica totalmente transformada na medida em que vivamos nossa união com Jesus Cristo, que nos repete: “Sem mim nada podereis fazer”.

Senhor, somos a tua vinha, a tua Igreja que tanto amas. Purifica-nos, com a poda do teu Espírito para que possamos permanecer unidos ao teu amor e produzir frutos abundantes de Amor e solidariedade.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Padre José Assis Pereira

* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

falecom@fhc.com.br

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