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“Uma voz grita no deserto”

Padre José Assis Pereira. Publicado em 8 de dezembro de 2018 às 12:30

Este II Domingo do Advento já nos vai introduzindo na dinâmica da alegria que a vinda do Senhor trará ao mundo. A liturgia do Advento é um convite constante da Igreja e para a Igreja a preparar o coração, a vida, os lugares onde se desenvolve a vida e por onde passa e voltará a passar o Deus da Esperança.

Três personagens são convocados na Liturgia da Palavra para recordar-nos o momento que se avizinha: O Profeta Baruc, o Apóstolo Paulo e João Batista o precursor.

O Profeta Baruc (cf. Br 5,1-9) em um contexto de exílio e tudo o que isso implica para o povo de Israel, ergue sua voz: “Despe, ó Jerusalém, a veste de luto e de aflição, e reveste, para sempre, os adornos da glória vinda de Deus.” Trata-se de uma mensagem claramente esperançosa em meio do luto e da dor por causa da desgraça sofrida. Por um momento tratemos de imaginar ao menos o que havia sido o exilio: violência, enfermidades, mortes, perda de entes queridos, bens, posses, privilégios, terra, tempo, culto etc.

Baruc não somente convida a despojar-se de todo luto e tristeza, mas também ordena a por as roupas de festa e alegria e mais, anuncia que Deus mesmo guiará Israel à luz de sua glória, com sua justiça e sua misericórdia. É que a justiça de Deus se manifesta não quando condena ou julga, mas sim quando Ele salva, resgata e devolve todo o esplendor a seu povo graças a sua misericórdia.

“Deus ordenou que se abaixassem todos os altos montes e as colinas eternas, e se enchessem os vales, para aplainar a terra, a fim de que Israel caminhe com segurança, sob a glória de Deus.” (v. 7) À luz destas palavras de esperança e carregadas de alegria podemos perguntar-nos também a nós como podemos atualizá-la na nossa realidade atual.

O Apóstolo Paulo (cf. Fl 1,4-6.8-11) exorta os cristãos de Filipos com uma carta que transparece alegria e confiança, para que cresçam no Amor: “E isto eu peço a Deus: que vosso amor cresça sempre mais, em todo o conhecimento e experiência, para discernirdes o que é o melhor.” (vv. 9-10a) O desejo feito oração do apóstolo é que o amor siga crescendo mais e mais e os levem a uma sabedoria experiencial e de vida.

Finalmente, João Batista, o último dos profetas nos encoraja: “Preparai os caminhos do Senhor” (cf. Lc 3,1-6) utilizando imagens que nos querem ajudar a compreender melhor como deve ser esta preparação: aplainar, aterrar, rebaixar, endireitar para que aconteça algo simplesmente maravilhoso: todo o mundo veja a salvação de Deus.

Lucas nos situa numas coordenadas históricas concretas, em um tempo e lugar determinados (império romano, procurador romano na Judeia, poder religioso em Jerusalém, rio Jordão, deserto da Judeia). Assim fazendo nos leva a pensar que Deus se fez história, sua Palavra se encarnou e se manifesta em pessoas concretas: João, “a voz que grita no deserto.”  A profecia de Isaías se concretiza na pessoa de João Batista que convida à conversão e ao batismo para o perdão dos pecados.

Fixemo-nos nas imagens que utiliza a voz que clama no deserto: veredas, vales, montanhas, colinas, caminhos acidentados ou tortuosos. Resulta mais fácil compreendê-lo no local: no deserto da Judeia e nas regiões circunvizinhas. Os verbos são muito interessantes porque indicam diferentes ações que desembocam em um mesmo objetivo: preparar uma estrada, o caminho, o terreno, o território por onde o Senhor tem de passar. Estes verbos são: rebaixar, nivelar ou aplainar. Recorda-nos o que dizia o profeta Baruc: O Senhor ordenou que se preparassem caminhos…

Hoje essa mesma voz segue gritando no deserto… paradoxalmente em um lugar que não habita as pessoas e donde ninguém escuta. Simbolicamente o deserto dá muito o que pensar. O deserto de nossos dias pode ter múltiplos sentidos: com qual nos identificamos?

A voz de João Batista nos convida à conversão. Advento, embora não seja tempo de penitência, nas mesmas cores e tons da Quaresma, se torna um tempo oportuno para uma revisão de vida, para descobrir quais são os caminhos, os atalhos, as curvas, as montanhas ou vales, enfim, que teremos de endireitar para que o Senhor possa habitar em nossos corações.

O Senhor não anda em todos os nossos caminhos. Quando a humanidade caminha pela injustiça, pela exploração desenfreada dos recursos naturais, pelos caminhos da violência, das guerras ou pelos caminhos da falta de misericórdia e perdão, por estes caminhos não chegamos até Ele, não chegamos a Belém! Não encontramos o Salvador.

Temos muitos obstáculos a remover, em parte eles estão em nós mesmos e, em parte, nas estruturas da sociedade. Obstáculos em nosso próprio coração: egoísmo, ambiguidades, rancores, desamor; Obstáculos no coração de nossa sociedade: estruturas injustas, desigualdades sociais, preconceitos, corrupção. Importa escutar esta voz que clama no deserto de nossas vidas, é necessária a coragem para realizar a mudança, endireitar a vida, trabalhando com alegria, com amor. Como para uma pessoa loucamente apaixonada não existe obstáculo que não se supere no caminho que a conduz ao encontro da pessoa amada. Não há montanha tão alta e nem vale tão profundo que possa impedi-la de realizar o seu sonho de amor.

Tenhamos também nós a coragem de questionar a nós mesmos: será que nas nossas comunidades ou grupos cristãos não existem posturas ambíguas ou “caminhos tortuosos” que precisam ser endireitados? Não haverá, por acaso, “montanhas” que impedem, de caminhar ao encontro do outro ou de Jesus? Não haverá também “vales” que separam pessoas numa mesma família? Quais os caminhos que devem ser endireitados, “montanhas” que devem ser aplainadas ou “vales” que devem ser aterrados na nossa vida?

A conversão que nos convida o Advento é a encher os vales de nossos vazios existenciais, afetivos, de fé, de confiança e esperança. Uma conversão que convida a nivelar e aplainar todo aquele que é sinuoso ou áspero em nossas vidas, comunidades, em nossa Igreja e por que não, em nossa sociedade. Estamos convidados a refletir sobre o convite que nos faz João Batista hoje: Na verdade somos pessoas com esperança e com uma fé que nos capacita para mudar o mundo? Somos boa notícia para as pessoas que vivem em situações de exilio, tristeza, dor, sofrimento, marginalizações etc. Fazemos algo para que o amor entre nós cresça cada dia?

Enfim este domingo transpira esperança e alegria, nos convida a ser pessoas que dão o melhor de si para fazer realidade a justiça e a misericórdia de Deus para que todo o mundo veja a salvação de Deus. Cantemos com o salmista: “Maravilhas fez conosco o Senhor, exultemos de alegria!” (Sl 125)

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* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

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