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Campina Grande - PB

Uma pêra com gosto de sol

28/10/2017 às 20:34

Fonte: Da Redação

Foto: Leonardo Silva/ Paraibaonline

Benedito Antonio Luciano

Na apreciação de uma obra de arte há possibilidades de diferentes leituras. Dependendo do contexto, uma tela pode nos remeter a um poema e um poema pode nos fazer lembrar uma música. Foi isto que aconteceu comigo ao apreciar um quadro do gênero natureza-morta na parede da sala de minha casa e me ater à presença de uma pêra entre bananas, maçãs, manga, mamão e melancia.

Vendo a pêra me veio à mente o soneto homônimo de Vinicius de Moraes, composto em Los Angeles, em 1947: “Como de cera/e por acaso/ fria no vaso/ a entardecer/ a pêra é um pomo/ em holocausto/ à vida, como/um seio exausto/ entre bananas/ supervenientes/ e maçãs lhanas/ rubras, contentes/a pobre pêra:/quem manda ser a?”

Rememorando o soneto, fiz a correlação com a belíssima letra da música “Um gosto de sol”, composição de Milton Nascimento e Lô Borges, gravada no antológico álbum Clube da Esquina, lançado em 1972: “Alguém que vi de passagem/ Numa cidade estrangeira/ Lembrou os sonhos que eu tinha/ E esqueci sobre a mesa/ Como uma pêra se esquece/ Dormindo numa fruteira/ Como adormece o rio/ Sonhando na carne da pêra/ O sol na sombra se esquece/ Dormindo numa cadeira/ Alguém sorriu de passagem/ Numa cidade estrangeira/ Lembrou o riso que eu tinha/ E esqueci entre os dentes/ Como uma pêra se esquece/ Sonhando numa fruteira.”

No soneto de Vinicius de Moraes e na letra de “Um gosto de sol”, a pêra é o elemento central da composição. No soneto, a pêra é retratada como um pomo em holocausto à vida e comparada a um seio exausto.

Na composição de Milton Nascimento e Lô Borges, a pêra está associada à dualidade lembrança-esquecimento, sem perder o seu caráter de elemento associado à natureza-morta: “dormindo numa fruteira” e “sonhando numa fruteira”.

Um soneto, diferentemente de uma tela, não precisa de moldura. A moldura do poema são as palavras e elas falam por si. A escolha inadequada da moldura pode comprometer a harmonia da composição de uma obra de arte. A moldura, ao estabelecer o limite físico entre a obra de arte e o ambiente precisa ser bem escolhida, assim como foi concebido o arranjo para a letra da música “Um gosto de sol”.

Na primeira parte da música temos a voz e o piano executado por Milton Nascimento. A melodia é muito bonita e técnica vocal de Milton Nascimento, particularmente nos falsetes, é perfeita. Na segunda parte, emoldurando a obra de arte, entra o belíssimo arranjo de cordas, concebido por Eumir Deodato, sendo mantido o acompanhamento do piano.

Curiosamente, é na letra da música “Nada será como antes”, composta por Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, incluída no álbum Clube da Esquina, que a expressão “Um gosto de sol” é usada em dos versos: “Resistindo na boca da noite um gosto de sol”.

Então, não resistindo ao apelo surrealista, decidi mudar o título deste texto, que inicialmente seria “Natureza-morta”, substituindo-o por: “Uma pêra com gosto de sol”.

 

Artigo publicado na página 58 do livro Entre o Açude e Serra.

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