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Campina Grande - PB

Uma palavra depois de outra

02/02/2018 às 8:18

Fonte: Da Redação

Foto: Paraibaonline

Por José Mário da Silva (*)

Para Doctor Virgílio, in memoriam.

Na já longínqua quadra cronológica dos anos noventa: mais precisamente no ano de mil novecentos e noventa e seis, tive o privilégio de conhecer pessoalmente o mestre Josué Montello, que veio a Campina Grande para participar dos famosos, inesquecíveis e internacionais Congressos de Teoria e Crítica Literária, que, coordenados pela professora Elizabeth Marinheiro e operacionalizados por uma aguerrida equipe de trabalho, projetaram a nossa cidade para muito além das suas demarcadas fronteiras geográficas.

Na oportunidade, o admirável criador de Os Tambores de São Luís brindou a numerosa plateia, que lotou as dependências do Teatro Severino Cabral, com uma brilhante conferência sobre o ato/processo da criação literária, do qual o ilustre escritor maranhense era um consumado mestre, legando-nos obras imperecíveis, a exemplo de Cais da Sagração, Noite Sobre Alcântara, Os Degraus do Paraíso, Uma Varanda Sobre o Silêncio, dentre tantas outras que compuseram um sistema literário qualificado e sumamente coeso. Intelectual celebrado dentro e fora da espacialidade brasileira, um dos mais completos homens de letras do país, Josué Montello era a imagem mais irretocável da simplicidade comportamental, em nada se assemelhando a tantos outros que só sabem viver conectados à máscara ridícula e insuportável da empáfia e da soberba.

Além de ficcionista primoroso, cronista notável, Josué Montello também se consagrou como um excepcional ensaísta, tendo escrito alguns trabalhos na área dotados de grande argúcia interpretativa, profundos em sua dimensão conceitual e corporificados numa linguagem ática, corretíssima, claramente sinalizadora de um escritor maduro, completo, íntimo dos temas que abordou; e conhecedor profundo dos vãos e desvãos daquela que foi chamada por Olavo Bilac de “A inculta e bela flor Lácio”, a Língua Portuguesa, transformada pelo criador de A Décima Noite, mais do que o seu instrumento de trabalho, em sua fonte primeva de inspiração e ração diária de sobrevivência estética.

Uma palavra depois de outra – notas e estudos de literatura é um livro que dá bem a medida do talento ensaístico de Josué Montello, sobretudo porque nos põe em face de um escritor para quem, diria Machado de Assis, a literatura sempre se configurou numa espécie de “segundo alma”, jamais uma atividade supletiva ou acidental. Josué Montello cultivava a literatura como uma irreprimível paixão do espírito, companheira inseparável no duro e fascinante itinerário da existência, o que se pode perceber pelo quase incontornável volume de autores que são apreciados nos inúmeros capítulos de que se compõe o livro.

Josué Montello é o ensaísta portador da frase lapidar e do raciocínio incisivo, que de modo certeiro vai ao coração  da obra abordada, nele captando o pulsar mais significativo e o ritmo essencial das suas peculiaridades artísticas. Quando trata, por exemplo, da portentosa obra de João Guimarães Rosa, flagra, na criação do mestre de Corpo de Baile, a originalíssima invenção de um estilo distintíssimo no universo da ficção brasileira do século vinte, um verdadeiro construtor de prosoemas, prosa matizada de poemas por todos os lados, impregnada de poesia em sua nervura essencial, no indesviável cerne do seu ser, um grande- ser-tão-veredas.

Focando na emblemática figura de Sílvio Romero, pontua o que no mestre sergipano se constituía na congênita vocação para o confronto, para a polêmica renhida, para o enfrentamento desassombrado, como se somente em estado de permanente e aberto litígio contra o mundo, pudesse viver plenamente o criador de História da Literatura Brasileira.

Na ensaística montelliana, ganha indisfarçável recorrência a figura de Machado de Assis, a quem o criador de A indesejada aposentadoria dedica onze capítulos, numa indisfarçável demonstração do grande apreço que o mestre Montello sempre nutriu pelo genial Bruxo do Cosme Velho, seguramente o maior escritor brasileiro de todos os tempos.

Com sutileza e finura de espírito, Josué Montello incursiona por aspectos relacionados à vida e à obra do incomparável mestre criador de Dom Casmurro, pontuando as suas obsessões temáticas e, sobretudo, as soberbas filigranas do seu estilo, do seu singular modo de perceber e transfigurar a realidade na qual ele viveu; e que, como poucos, soube compreender, no âmago indesviável das suas mais insuspeitadas pulsações.

Em Uma palavra depois de outra – notas e estudos de literatura, Josué Montello revela-se um ensaísta lúcido e sensível, que consorcia bem razão e emoção, cartografando a ontológica natureza do ensaio, infenso ao dogma e êmulo das fórmulas conceituais exatizantes.

Josué Montello postula “o ensaio como ensaio”, no luminoso dizer de Eduardo Portella. Ensaio como aventura da inteligência, da sensibilidade e da imaginação, que valoriza mais o ponto de partida que de chegada ao dorso escorregadio do real; mas que, quando realizado com pertinência, deixa no leitor a chama que o aquece e a semente que faz florescer, nele, o anelo de prosseguir a viagem, de sequenciar o voo hermenêutico, sempre na procura de novos horizontes de sentido e de significação. Ensaio como “a liberdade do olhar e o olhar da liberdade”, ainda segundo a certeira assertiva do mestre Eduardo Portella, o incomparável “poeta do ensaio”, no acertado dizer de Marco Lucchesi.

Em suma, ler o ensaísmo de Josué Montello é ensino deleitoso e deleite pedagógico, naquela acepção semântica postulada por Horácio em sua Poética. Entre uma palavra de outra, eis-nos diante das notas de beleza oriundas da magia verbal do grande criador de Antes que pássaros acordem.

(*) Docente da UFCG, membro da Academia Paraibana de Letras

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