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Uma página de saudade

José Mário. Publicado em 12 de maio de 2018 às 8:21

“A vida é uma neblina que sobe por um instante e logo se dissipa”. A certeira sentença procede da inspirada palavra de Tiago, escritor sagrado, autor de curta, prática e instrutiva epístola do Novo Testamento. Claríssima em sua formulação conceitual, a metáfora cartografa a incontestável fugacidade da vida, na medida em que aponta para o fato de que a impermanência é o traço mais indelével do nosso precário existir.

Como uma flor que no alvorecer da manhã se ergue viçosa e, depois, no descer crepuscular do dia desfolha-se e se aniquila completamente, também em nossas vidas, mesmo no “caule mais vigoroso da existência”, conforme pontua um admirável verso de Carlos Drummond de Andrade, floresce a morte; a Indesejada das gentes, no poético dizer de Manuel Bandeira.

Somos sim, quer queiramos ou não, “sujeitos à injúria de nos tornarmos pó”, de acordo com o exato verso de “Vã Feitiçaria”, belo poema do mestre Lêdo Ivo. A neblinosa realidade das nossas vidas não cessa de produzir os seus cotidianos e dolorosos frutos.

Ainda ontem, Doctor Virgílio era presença certa nos vãos e desvãos da Universidade Federal de Campina Grande, personagem recorrente em sua paisagem humana e afetiva, um renovado convite para o diálogo que, desfronteirizadamente, fazia da realidade, a mais plural, o mapa-múndi de todas as suas alargadas cogitações. Hoje, Doctor Virgílio é a ausência sentida, a saudade pranteada, a cadeira vazia, a viva lembrança de que a nossa vida, verdadeiramente, é uma neblina.

Ainda ontem, Jaílson Bedor era presença constante nas exitosas reuniões promovidas pela Primeira Seccional PEN da Paraíba. Discreto, mas influente, seu estar conosco era fonte de estímulo, signo de encorajamento, e crença infrangível no poder humanizador da arte, por cuja instrumentalidade o homem rivaliza com a passagem inflexível do tempo; e, de igual modo, emula com a inevitabilidade da morte.

Solidário, confessava-se leitor assíduo dos textos de nossa autoria, com os quais dizia, generosamente, aprender muito, notadamente com os que ancoravam no luminoso porto da literatura. Hoje, Jaílson Bedor, a exemplo de Doctor Virgílio, também é saudade, ausência, lembrança, cadeira vazia nas reuniões da nossa Primeira Seccional PEN da Paraíba, que, daqui por diante, ficará privada do seu fraternalismo leal, e serena e inspiradora conduta. Jaílson Bedor é o lembrete vivo de que a nossa vida é, de fato, uma neblina.

Ainda ontem, mestra Josefa Dorziat era a antecipada certeza de que um simples telefonema se metamorfosearia em imperdível momento para aprendermos com a sua sabedoria incomum, cultura inabordável e, sobretudo, inspiradora retidão de caráter. Era a constatação insofismável de que “a inteireza do espírito principiava pelo escrúpulo para com a linguagem”, conforme preceito aduzido pelo paradigmático Rui Barbosa.

Era, em tom maior, o cultivo da humildade verdadeira, a que sabe que por mais que saibamos, há ainda muito por saber, muito esse que bem poderíamos chamar de o inalcançável. Hoje, mestra Dorziat é ausência, saudade doída, lembrança inarrefecível, aviso solene de que a nossa vida, de fato, não passa de uma neblina.

Ainda ontem, Marcos Valério era personagem protagonista da Rua Afonso Campos, de cujo jardim de sua aprazível casa ele flertava com a cidade que se descortinava diante dos seus olhos ávidos por captar o que há por detrás da enganosa aparência das coisas. Era o cronista vigilante, quem sabe “um solitário à espreita” da vida, para me valer da bela imagem com a qual o escritor Milton Hatoum figurativiza a realidade da crônica e o ofício do cronista.

Era o poeta pródigo em transformar em versos rigorosamente metrificados a vida como ela é ou como poderia ser. Agora, Marcos Valério é saudade pungente, lembrança tatuada na pele e na alma de quem, como eu, privei da sua edificante e consoladora amizade. A morte de Marcos Valério é uma solene proclamação de que a nossa vida é, de fato, uma fragílima neblina.

Tal constatação, imperiosa, confirmada, sobejamente, pelo irrefreável escorrer dos numerosos e multiplicados exemplos cotidianos, deve impelir-nos a algumas urgentes considerações, sendo a mais emblemática delas a que encontra nas Sagradas Escrituras, o seu mais indesviável norte: “ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio” (salmo 90.12).

A exortação bíblica, traduzida pela oração de Moisés, é sumamente preciosa. Não reside em nós mesmos a sabedoria para vivermos de modo adequado, voltados para a teleologia suprema do universo: a glória de Deus. É de Deus que procede tal sabedoria, sendo Ele não somente a fonte, mas a essência de tão grandiosa bênção.

Vê-se aqui que tal sabedoria, transcendendo as desembocaduras das dimensões pragmáticas da vida, reveste-se de finalidade mais sublime, a que tem na comunhão íntima com o Criador, o ponto de partida e de chegada da plenificação espiritual mais superlativa. Outro ponto importante é o que, em meio à neblinosa fugacidade da vida, Deus, misericórdia e bondosamente, dispõe-se a ser o nosso professor supremo, requerendo de nós que sejamos, tão somente, humildes, ensináveis, e inteiramente dependentes dEle.

A vida é uma neblina, tão bela e tão frágil. O que hoje é ou parece ser, num átimo de tempo será o não-ser, signo do inapreensível, morada da finitude. Adquirir um coração sábio, dentre outras possibilidades manifestativas, é aprender a conviver com a perecibilidade que o  tempo impõe a todas as coisas, sem, contudo, perder de vista a eternidade. Eternidade que Deus pôs dentro de cada um de nós; e pela qual não cessamos de anelar.

A vida é uma neblina, mas a morte não tem a última palavra da história. O corpo, frio, e agasalhado pelas flores do adeus não é a imagem mais compatível com os altos destinos da vida, dom magistral com que Deus dotou o ser humano. A vida é uma neblina, mas a vida eterna radica em Cristo Jesus, Salvador e Senhor nosso.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

José Mário

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