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Campina Grande - PB

Uma estranha vida

22/08/2016 às 20:12

Fonte: Da Redação

Por Flávio Romero

A vida seguia seu curso, como de costume.

Era mais uma tarde, como tantas outras, em que após o almoço, tentava descansar a mente, tombado na rede, para depois seguir a tarefa, quase infindável, de escrever uma nova Tese.

Infelizmente, o som nascido do rangido do punho da rede no puxador que lhe dá sustento, e que, de certa forma, fazia o compasso do meu breve sono no início das tardes, teve que ser silenciado, com óleo de cozinha, por força dos protestos seguidos de uma vizinha, constantemente incomodada pela toada sincopada da minha velha rede.

A vida é assim. Tem certos “quês” de mistério. Para uns, o som da rede é um compasso que equilibra e relaxa. Para outros, é ritmo que causa impaciência, bem mais que o choro de um menino “mal criado” e “cheio de gosto”, de certa vizinha.

Mesmo sem o rangido da rede, o meu breve cochilo era pressionado pelo desafio de seguir escrevendo.

O tempo corria célere, cobrando decisões e atitudes.

Cobrando, neste caso, a conclusão da tal redação.

Mesmo assim, eu seguia quase inerte na rede. Aliás, só mudava de posição para empurrar com um dos pés a rede, com a ajuda do sofá, outro companheiro de divagações, ilusões e breves sacanagens, de um passado que não volta mais.

Vez por outra, era atraído pelo som do relógio cuco, pendurado na parede.

Relógio que comprei numa certa cidadezinha da Áustria, de nome tão difícil que nunca decorei (e poderia ser diferente?) e que me deu um trabalho incomensurável para trazer ao Brasil, com o necessário cuidado de não rompê-lo, missão que foi assumida por uma das faxineiras, que, disfarçadamente, colou o ponteiro dos segundos rompido, com grude de goma, estratégia por mim descoberta, numa primeira mirada.

Após o devido processo cirúrgico, de primorosa habilidade artística, o ponteiro persegue seu desiderato, colado com cianoacrilato.

Juntos, os três ponteiros, seguem a marcha inexorável ao futuro, marcando o tempo, sincronizando-o com um som especial, ritmado e monótono.

Aliás, nem sei dizer quantas vezes esse som foi minha única companhia nas noites insones. O som do “tictac” que vinha da sala invadia todos os espaços vazios do pequeno apartamento e alcançava, igualmente, as lacunas da minha alma, como para trazer uma mensagem, simples e profunda, dizendo: “apesar de tudo, o tempo não para”.

Levantei o pescoço e olhei, de longe, a hora. Depois da recente cirurgia, estava vendo cada vez melhor, inclusive de longe. De perto, ainda tenho a visão turba, talvez por influência do próprio cérebro, que insiste em enxergar no presente na mesma forma que enxergou nos últimos cinquenta anos.

A TV ligada anunciava a Sessão da Tarde. Certamente, como ocorre rotineiramente, a rede hegemônica iria exibir um daqueles filmes “inéditos”, reprisados desde que Noé inventou a Arca.

Sem entender a razão, não desliguei o aparelho de TV para voltar a escrever a Tese – razão das minhas prioridades mais recentes.

Diante dos meus olhos, se descortinava a “Estranha vida de Timothy Green”, uma película inédita de 2012. Isso mesmo, apesar de ter sido lançada há quatro anos, para mim era inédita. Não sei a razão de seguir tombado na rede vendo o filme, quando o dever acadêmico me pressionava a seguir à redação da tal Tese.

Quem é Timothy?

Por que seu sobrenome era Green?

Pois bem, Timothy era uma criança especialmente verde.

Depois de ser informado que não poderiam ter filhos, um jovem casal enterra no quintal de casa, uma pequena caixa de madeira, contendo todos os sonhos e desejos.

Dessa caixa de sonhos enterrada, numa noite de chuva torrencial, nasce (ou brota?), Timothy Green, trazendo com ele, além de muitas folhas verdes encravadas no tornozelo, bem próximo aos pés, a magia por meio da qual muitos passariam a sentir o amor, diferentemente.

Uma pergunta:

Você já enterrou seus sonhos, certo dia?

Timothy Green, desde o nascimento, era especial. Nasceu das entranhas da terra molhada, como semente germinada de sonhos e de desejos.

Mas, o que há de especial neste fato?

Também não nascem quase todas as crianças de certa entranha, germinadas que foram por sonhos e desejos?

“Ele veio para o que era seu, mas os seus não o receberam”. Por ser diferente, sofreu toda sorte de discriminação, de preconceito e de exclusão.

Qual a razão para tudo isso?

Timothy Green era, apenas, uma criança com folhas verdes encrustadas no tornozelo.

O ponteiro do relógio cuco da parede na minha sala acusava a minha insensatez.

O “tictac” sincronizado anunciava que eu havia “perdido” um tempo precioso.

Ao invés de escrever a Tese, eu estava tombado na rede, assistindo a vida de Timothy Green, tão estranha quanto a minha, ou a de você que lê esse artigo ou de tantos que passam por nossas vidas, indiferentes aos ponteiros do relógio cuco ou ao rangido da rede.

Mas, na vida nada é eterno.

Nem os ponteiros do relógio cuco, nem o rangido da rede e nem as folhas verdes, nascidas no tornozelo de Timothy Green.

Fez-se outono em sua vida.

As folhas, uma a uma, iam despencando do tornozelo, transmudando-se em atos espontâneos de amor ou em retribuições bondosas às maldades alheias.

Timothy guardava um segredo: com a última folha caída, ele voltaria ao seio da terra, molhada e turva, que lhe deu origem.

A última folha era o ocaso outonal da sua existência.

Ainda assim, ele não tentou parar a marcha incomplacente do tempo.

Não tentou romper os ponteiros do tempo.

Nem mesmo o ponteiro dos segundos, colado no passado com cianoacrilato.

Ele tinha a consciência da sua missão.

Da brevidade dos seus dias.

Cada folha que caía era o prenúncio do outono que se firmava, majestoso, sobre os cheiros e cores da primavera.

Ainda assim, Timothy Green fez da causa paulatina de sua derradeira passagem, razões para seguir vivo, por meio de um legado de bondade.

Paradoxalmente, cada folha que caia do seu tornozelo, prenunciava o fim e o recomeço.

Com gestos de amor e de bondade, ele transformava cada folha caída e seguidamente doada, numa força propulsora capaz de despertar em quem a recebia, uma releitura do mundo e dos afetos humanos.

Timothy fez nascer folha verde em caules secos e envelhecidos.

Com a alma renovada e cheia de verdes esperanças, levanto da rede.

A sessão da tarde findou.

A estranha vida seguiu seu rumo.

E eu (pouco ou mais estranho que Timothy Green) vou seguir a vida, tentando transformar cada folha caída, nos outonos de minha alma, em gestos de bondade e de amor ao próximo.

Talvez assim, ao voltar ao seio da terra, eu possa deixar um legado bem mais significativo, do que uma segunda Tese de Doutorado.

Os ponteiros do relógio cuco anunciam a hora da Ave Maria.

Amém.

 

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