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Uma cronista campinense no Recife

Josemir Camilo. Publicado em 18 de janeiro de 2019 às 9:58

Tanto tempo radicada na capital pernambucana, fazendo o percurso inverso do que fizeram os intelectuais e patronos da ALCG, como Zeferino Agra, Clementino Procópio, Dra. Selma Vasconcelos mostra aos meus coestaduanos a capacidade e a tenacidade do paraibano e, mais exatamente, do campinense (campino-grandense seria o gentílico adequado!). Formada em medicina, pela UFPE, não só conquistou seu espaço entre a corporação, como tem mostrado sua inteligência e sensibilidade, sendo agraciada em sua produção literária com o prêmio ensaio da Academia Pernambucana de Letras (2010) com o seu “João Cabral de Melo Neto. Retrato falado do Poeta”.

Membro da Sociedade Brasileira de Escritores Médico, da União Brasileira de Escritores e da Academia de Artes e Letras do Nordeste, Selma Vasconcelos é, atualmente, Sócia Correspondente da Academia de Letras de Campina Grande, com muita honra. Recebi, recentemente, seus dois livros e quero registrar, aqui, o júbilo da Academia em receber duas preciosas obras de nossa confreira a quem agradecemos, pelo enriquecimento, não só de nossa biblioteca, como de nosso saber.

Dedico-me, aqui, ao seu livro de crônicas, sob o sugestivo título “No Curso da História: crônicas” (2014). Trata-se de excelente momento de conhecermos nossa escritora em crônicas e pensamentos sobre a realidade do mundo (e não só do Brasil) presente e a saúde, também. A campinense Selma Vasconcelos deve ter aprendido a ver o mundo, os desfiles humanos, a partir, talvez, de um lugar social amplo, a padaria Nossa Senhora das Neves, de sua família, ali, na Marquês do Herval, empresa que, por décadas, acompanhou o vai e vem de fregueses e consumidores do comércio campinense, bem como de colegiais do Alfredo Dantas. Tal cenário também deve ter preenchido o imaginário de seu irmão, o poeta Paulo Vasconcelos, escritor e professor, que mora em São Paulo, muito dedicado à literatura. Parabéns aos irmãos, campinenses, escritores!

Decido ler, com o mais apurado gosto, seu livro de crônicas, exercício com que me identifico. Dividido em tópicos como Cultura e Educação, De Poesia e de Poetas, Sociedade e política e, por fim, Saúde, sua crítica não se reduz a um exercício ideológico mas, sim, humanista, na vertente tradicional que lhe serviu de solo cultural, como a História e, a partir destes conceitos, analisa a Globalização e diversas manifestações culturais, quase como um exercício didático. Suas crônicas sobre cultura, sempre trazem uma base histórica e suas múltiplas facetas culturais, mas sempre consciente das deturpações ou mudanças nestes traços de vivência social.

Fala, criticamente, da educação brasileira e elogia as bibliotecas como centro vivo de difusão cultural e não um local onde se ‘guarda livros’. Para tanto, toma, como mote, a (re)inauguração da Biblioteca Félix Araújo, da Prefeitura de Campina, mostrando que está atrelada a suas raízes. Quanto aos poetas, revisita rapidamente César Leal (a quem tive o prazer de, no início de minha vida universitária, ter como professor de Teoria Literária), corresponde-se com Bráulio Travares, saúda o centenário de Pablo Neruda e noticia os 50 anos do grande Carlos (Savoy) Pena Filho. Visita, em duas crônicas, o seu modelo, João Cabral de Melo Neto, sobre quem produziu o excelente passeio em busca do humano, em seu premiado livro, acima citado. Dele, a autora reproduz o ‘aforisma’ sobre os poetas: “só tem importância aquele autor que consegue escrever de maneira original, com linguagem própria, acrescentando algum dado novo ao universo da literatura. Para repetir o que já foi feito, é melhor que fique lendo!”.

Em Sociedade e Política, alerta para problemas ecológicos e política internacional, critica os Estados Unidos pela guerra no Iraque e a destruição da cultura arqueológica, bem como saúda o nosso embaixador Sérgio vieira de Mello, vitimado por atentado, em consequência àquela intervenção. Este corpo de crônicas é bem militante pela paz e crítica aos problemas sociais do país, mostrando uma cientista de fina sensibilidade e vasta cultura, sem se descurar de sua área, agitando a bandeira da bioética. Uma cientista, em defesa da vida e da poesia, admiradora de Fernando Pessoa. Já disse tudo!

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Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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