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Campina Grande - PB

Uma biografia para Retumba

Comerciante mata quatro bandidos, após reagir a assalto em Cacimba de Dentro - image data on https://paraibaonline.com.br17/05/2017 às 9:28

Fonte: Da Redação

Comerciante mata quatro bandidos, após reagir a assalto em Cacimba de Dentro - image  on https://paraibaonline.com.br

Por Josemir Camilo de Melo (*)

 “Morto Retumba (Filho) no fim do mesmo ano (1890), em súbitas circunstâncias não explicadas, fez-lhe a Gazeta do Sertão, fraterno necrológio de página inteira para nunca mais tocar no nome dele – embora Joffily ainda continuasse escrevendo ocasionalmente na imprensa durante mais de 10 anos.

Na linha desse horizonte é estranho que um paraibano de tanto mérito como Retumba tenha o nome inteiramente esquecido a ponto de não se encontrar uma única lembrança pessoal. Nem parentes, nem retratos, nem autógrafos” (José Joffily, 1982, p. 121).

Desde que comecei a pesquisar sobre qual teria sido a primeira empresa ferroviária na Paraíba, que apareceu o nome do engenheiro Francisco Soares da Silva Retumba. Mas já se sabia de um Retumba, como jornalista (à maneira da época), quando este se juntou com o advogado e deputado, Irenêo Joffily e fundaram, em Campina Grande, a Gazeta do Sertão, em 1888.

Tem-se divulgado que o Retumba famoso da segunda metade do século XIX foi o Retumba Filho (Francisco Soares da Silva), que teria nascido na capital paraibana em 08.08.1856, e falecido, no Recife, em 03.12.1890. Segundo o site do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, era filho do engenheiro português Francisco Soares da Silva Retumba, construtor da ponte do Sanhauá. O Retumba Filho, no entanto, teria ido morar e estudar na Europa, formando-se, na França, ou na Bélgica, em Engenharia de Minas.

José Joffily, no livro Entre a Monarquia e a República, diz que ele teria se formado em Liège (Bélgica), mas que o autor recebera uma carta de lá, desmentindo esta informação. Existe, portanto, uma dúvida se Retumba Filho era diplomado, ou não.

Voltando à Paraíba, Retumba Filho, como engenheiro de minas, fora convidado pelo Presidente da Província a preparar um estudo sobre os recursos econômicos da Província. Viajou pelo interior e concluiu que a falta de meios de comunicação e transporte entre as cidades do interior era o que dificultava enormemente a exportação dos produtos agrícolas. Fez publicar estas informações em sua “Memória sobre os Melhoramentos de que Precisa a Província da Paraíba”, só publicada no século XX, pela revista do IHGP, em 1914.

O pai fora contratado pela Província para construir uma ponte no Sanhauá, que redundou em retumbante fracasso, com o contrato suspenso e ações na justiça, de ambos os lados, chegando até 1867, como reclamava, em Relatório oficial, o Presidente da Província, Dr. Américo Brasiliense. Retumba, pai, morreu (e não sabemos a data), sem ver a indenização do capital aplicado naquele empreendimento frustrado. José Joffily revela que foi o filho que viria a receber esses direitos, com o qual contava para manter a Gazeta do Sertão, às vésperas do seu lançamento.

Além das três ‘letras’ de indenização, Retumba Filho herdou “parte considerável do engenho Graça (…) conhecida como Ilha do Bispo” (José Joffily, p.120). Outra fonte de renda com que contaria, enquanto não saísse o pagamento das outras letras, seria trabalhar para a ferrovia inglesa The Conde D´Eu Railway, o que seria difícil, pois lá em sua Memória, dizia que esta estrada e nada era a mesma coisa. Ao contrário, foi admitido, no começo da República, como engenheiro fiscal interino, mas demitido há apenas 12 dias de função. Sobre isto deixaria carta publicada na Gazeta da Paraíba de 6 de dezembro de 1889 (reproduzida por José Joffily, p.120, n. 3): “Meu Caro Eugênio. Acabo de saber que fui demitido a bem do serviço público do cargo de da estrada de ferro Conde D´Eu. Demitiu-me o Sr. Dr. Oliveira Cruz: isso importa para uma perfeita classificação de caracteres: estou satisfeito. Não reconheço como republicano o governo que atualmente dirige os destinos da Parahyba; porquanto você bem sabe que o partido conservador traiçoeiramente o assaltou, iludindo as vistas do governo geral. Nessas condições, não querendo tocar em dinheiro proveniente de governos mascarados, rogo que, por seu intermédio, seja direito pelo cargo de engenheiro fiscal, que exerci durante 12 dias, creio eu, e a faça recolher ao cofre da Santa Casa de Misericórdia, a cujos doentes ofereço. F. Retumba”.

Além desta incompatibilidade política com os velhos conservadores se passando a republicanos, José Joffily cita que, pelas páginas da Gazeta do Sertão (13/09/1889), Retumba Filho criticava a ferrovia inglesa: “Será possível que o porto de uma província fique entregue a estrangeiros, sem a mínima intervenção do governo do país?”

A resposta mais imediata de Retumba Filho foi inscrever sua candidatura a deputado federal: “Cidadão eleitor: Apresento-me candidato a uma cadeira no seio do Congresso Constituinte (…) Como medida preliminar para a solução da questão social a que algum dia havemos de chegar, quero a obrigatoriedade do trabalho e sua organização segundo as forças do indivíduo (…). Campina Grande 10-01-1890. F. Retumba” (Joffily, Op. cit., p. 140, n. 2). Mas desistiu, em seguida. Talvez para não se confrontar com o irmão mais novo, oficial naval, João da Silva Retumba, que se elegeria para a legislatura de 1891/93.

Se Retumba Filho se uniu a Irineu Joffily na criação do jornal A Gazeta do Sertão, em 1888, a partir de 1890, se afastaria do jornal. Neste mesmo ano morreu, misteriosamente, no Recife, aos 34 anos. José Joffily suspeita que ele se suicidou, mas que, por justificativas de funeral eclesiástico, a família teria mantido reservas e silêncio.

Parecia terminar no esquecimento esta família, cujo tronco remontava a Francisco Soares da Silva Retumba (casado com Alzira Soares Retumba), que aparece na lista de descendentes do Capitão-mor Bartolomeu da Costa Pereira, primeiro capitão-mor da Vila Real do Brejo de Areia.

(*) Professor, historiador

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