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Um São João na rua das Laranjeiras

Josemir Camilo. Publicado em 24 de junho de 2022 às 9:18

Nas Laranjeiras, quando chegava o São João, a meninada se empenhava toda no fazer a fogueira e terminava comendo tudo que era de milho, na véspera. Os ensaios de tudo o que era junino começava no dia de Santo Antônio. Ali, na rua, já se sabia, então, quem ia fazer uma fogueira de lascar, quem ia ter dinheiro pros filhos comprar fogos, quem ia comprar e mandar costurar roupa nova, quem estava ajuntando lenha ou ia comprar. Remediados e pobres, a festa era de todos, na rua. O aperreio das mães com as crianças, para afastá-las do fogo, era a advertência de que quem brinca com fogo, mija na cama.

O dia de São João mesmo era para reaproveitar as coisas, refazer as fogueiras, procurar fogos que falharam, assar batatas nas cinzas e algum milho se ainda houvesse brasa. Já era uma ressaca da saudade. Não tinha mais o gostinho do dia anterior.

Ficou para trás a Bandeira de São João que ouvira, pequeno, em Santo Amaro. O cortejo visitava as casas, cantando, com um estandarte de São João com o Carneirinho: “Dona Maria saia para fora/Entregue a Bandeira que já é Hora”. Ou então estes versos cantados; “Que Bandeira é essa que vamos levar? É a de São João para Festejar!”. Agora, nas Laranjeiras, eram só fogueiras..

Quando Seu Orlando brigou com o prefeito, prometeu fazer o melhor São João da cidade e agitou todos os moradores das Laranjeiras, prometendo palhas de buriti de Goaininha e até ‘giranda’, como dona Nelsina dizia.

Josa tratava de aproveitar a rua que não tinha calçamento, para fazer a fogueira. A lenha, a gente arranjava. Recolhia tudo que encontrava, entrava nos sítios dos outros, subia em mangueira para derrubar galhos secos. O lastro da fogueira eram dois rolos de bananeira ou de pé de mamão. A gente fazia um lastro de lenha mais resistente e em cima dele colocava um material que pegasse fogo logo. Botava até casca de laranja, que a gente sempre guardava nos caibros da casa, pendurados e ressecados. Sempre cruzando as lenhas, a gente tentava fazer uma fogueira que não fosse mangada pelos amigos.

Os postes da rua eram enfeitados com folhas de coqueiro ou de bananeira. Até olho de cana servia. Seu Orlando se transformava, participava. Tentava fazer o melhor São João da cidade e construiu uma fogueira de sete metros, com o resto das tábuas com que fazia caixão de defunto. O empregado da funerária, Lacerda, subia numa escada, apoiada na fogueira, e com uma lata d´água, aguava os pedaços de tábua. Diziam que era para melhor pegar fogo. Para enfeitar a rua, Seu Orlando mandou sua caminhoneta pé-duro pegar palha de buriti, em Goianinha. Josa foi, nesta viagem, e ajudou a enfeitar a rua, sem se descuidar da fogueirinha de sua casa. À noite, então, era o festival de fumaça e fogos. A disputa pelos fogos começava logo nas “barracas” de fogos que um ou outro improvisava, para ganhar algum trocado. Tão pequenas, às vezes, que cabiam numa cadeira. O gostinho da véspera era fazer a fogueira, com a família, ajudar a “patroa”, como diziam alguns maridos, a fazer uma canjiquinha, e participar de uma quadrilha.

Às vezes, alguém contratava um folguedo d’engenho, uma banda de pife, ou um coco de roda, um sanfoneiro com triângulo e zabumba pra uma noitada de quadrilha e casamento matuto, na frente, ou perto da casa de Seu Orlando, para aproveitar a profusão de decoração, as lâmpadas mais fortes e o fogueirão.

Os fogos eram o delírio da meninada. Soltava-se peido de véia, traque, cobrinha, bomba, mijão, rojão. Macho era o menino que segurava um traque na mão, na ponta dos dedos até o estouro. Os traques de sala eram jogados na cabeça, nas costas de um e de outro. Todos estes fogos eram de meninos. As meninas soltavam estrelinha, no máximo cobrinha, além das lágrimas, chuva de ouro, chuva de prata; isto, quem tinha dinheiro. Em geral, não eram fogos de explosão. Na fogueira, se assava milho, e já no braseiro a gente se tornava compadres “que São João mandou”. Os olhos vermelhos e irritados pela fumaça, a respiração difícil fazia com que a gente ficasse declamando: “Fumaça prá lá/carneiro prá cá”, várias vezes, para afastar a fumaça. No dia seguinte, era só contar aventuras.

 

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Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro da Academia de Letras de Campina Grande.

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