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Um São João injusto com o agricultor

Fábio Agra de Medeiros. Publicado em 1 de julho de 2019 às 12:03

O evento do Maior São João do Mundo em Campina Grande, sem dúvidas, incrementa emprego e renda no município e beneficia a maioria das atividades econômicas locais. No entanto, um setor que podia ser muito mais reconhecido e contemplado nesse período é o da Agricultura Familiar.

Cíntia Cristina da Silva cita em um dos seus artigos que as festas juninas homenageiam três santos católicos: Santo Antônio (no dia 13 de junho), São João Batista (dia 24) e São Pedro (dia 29). No entanto, a origem das comemorações nessa época do ano é anterior à era cristã. No hemisfério norte, várias celebrações aconteciam durante o solstício de verão – a data que marca o dia mais longo do ano. Lá na parte de cima do globo, o solstício de verão acontece nos dias 21 ou 22 de junho. Vários povos da Antiguidade aproveitavam a ocasião para organizar rituais em que pediam fartura nas colheitas – celtas, nórdicos, egípcios, hebreus. “Na Europa, os cultos à fertilidade em junho foram reproduzidos até por volta do século 10. Como a igreja não conseguia combatê-los decidiu cristianizá-los, instituindo dias de homenagens aos três santos no mesmo mês”, diz a antropóloga Lucia Helena Rangel, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

O historiador Daniel Neves registra que o começo da festa junina ao Brasil remonta ao século XVI. As festas juninas eram tradições bastante populares na Península Ibérica (Portugal e Espanha) e, por isso, foram trazidas para cá pelos portugueses durante a colonização, assim como muitas outras tradições. Quando introduzida no Brasil, a festa era conhecida como festa joanina, em referência a São João, mas, ao longo dos anos, teve o nome alterado para festa junina, em referência ao mês no qual ocorre, junho. Inicialmente, a festa possuía um forte tom religioso – conotação essa que se perdeu em parte, uma vez que é vista por muitos mais como uma festividade popular do que religiosa. Além disso, a evolução da festa junina no Brasil fez com que ela se associasse a símbolos típicos das zonas rurais.

A quadrilha (adaptada dos ingleses) e o forró originam-se da França e tem muita influência nas festividades das famílias agricultoras, que tradicionalmente são numerosas e que aproveitam o São João para realizar um ajuntamento dos entes queridos. As comidas típicas estão entre os maiores atrativos e se espalham por toda parte, nutrindo e energizando os animados turistas e a população local. Portanto, há uma ligação forte entre agricultura e festas juninas, mas não vejo uma valorização dos camponeses do tamanho que eles merecem.

Há anos que busco contextualizar o São João com a Agricultura através de diversos contatos, mas ainda não obtive êxito, no entanto, não tenho dúvidas que um dia a cidade despertará para isso. Podemos pensar em feira agroecológica na Vila do Artesão, no Parque do Povo ter um barracão de vendas e um dia especial de homenagens a esses guerreiros, o Salão do Artesanato também ser da Agricultura Familiar com espaços de vendas, enfim, são muitas as possibilidades de reconhecimento e de potencialização de vendas melhorando a renda e a qualidade de vida dos nossos irmãos que lutam incansavelmente enfrentando as intempéries climáticas da região. Uma cidade que tem sua história atrelada ao algodão e as festas juninas, não pode ser injusta com agricultores e agricultoras, afinal eles estão por todos os cantos, direta ou indiretamente, quer queiram ou não.

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Professor Doutor da Universidade Estadual da Paraíba.

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