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Um pouco de alegria

Padre José Assis Pereira. Publicado em 15 de dezembro de 2018 às 7:37

Um pouco de alegria, por favor. É o Domingo da alegria! Mas não se trata de uma alegria tola nem superficial. A alegria cristã ou a alegria do Advento não é feita da algazarra e gargalhadas das confraternizações natalinas ou do sorriso superficial das fotografias e das “selfs”, mas sim uma alegria espiritual, interior, que se deve refletir diariamente em nossa atitude exterior.

A alegria é um sintoma da conversão, da proximidade de Deus. Ninguém que fez a experiência do encontro pessoal com Jesus Cristo, que se deixa encontrar por Ele ou ao menos de tê-lo procurado, não pode estar triste. Porque da alegria trazida pelo Senhor ninguém é excluído.

Sabemos que, o Nascimento de Cristo, marcou um antes e um depois na história da humanidade e para aqueles que o estamos esperando neste Advento, é também uma injeção de otimismo, esperança: estamos contentes porque, o Senhor, segue nascendo na manjedoura da humanidade; ainda que alguns se empenhem em ignorá-lo totalmente.

Um canto de alegria que o Apóstolo Paulo dirigiu aos fieis da comunidade e Filipos se repete hoje na liturgia (cf. Fl 4,4-7). “Alegrai-vos sempre no Senhor, eu repito, alegrai-vos… O Senhor está próximo!” Aí está a razão principal que o apóstolo dá para a alegria, o Senhor está próximo. Deus vem sempre à nossa vida, o que importa é que nós queiramos acolhê-lo na mensagem do seu Evangelho em nosso coração. Neste sentido, toda nossa vida é um “advento” continuado, e sempre devemos viver com a esperança de estar já e para sempre com o Senhor.

“Alegra-te e exulta de todo o coração, cidade de Jerusalém!… O Senhor, teu Deus, está no meio de ti, o valente guerreiro que te salva; ele exultará de alegria por ti, movido por amor.” O profeta Sofonias (cf. Sf 3,14-18a) dá a estas palavras um sentido histórico: no meio de uma Jerusalém ameaçada pelos assírios, o profeta diz a seu povo que o Senhor lhes defenderá. Esta mensagem é, pois, uma mensagem de confiança em Deus, de esperança e de alegria.

“Naquele tempo, as multidões perguntavam a João: Que devemos fazer?… João declarou a todos: Eu vos batizo com água, mas virá aquele que é mais forte do que eu. Eu não sou digno de desamarrar a correia de suas sandálias.” Lendo este texto do evangelista são Lucas (cf. Lc 3,10-18) vemos que neste nosso tempo em que tanto abunda o egoísmo, a corrupção social e política, a falta de sobriedade e a pouca fidelidade ao compromisso social e pessoal, a figura de João é um modelo maravilhoso.

“Que devemos fazer?” É a mesma pergunta que nós nos fazemos com frequência. O profeta aponta para a prática da justiça, do direito e da solidariedade. O profeta convida a perder para ganhar, a fazer um desprendimento para alcançar: não enganeis, não exijais nada, não vos aproveiteis…

Também nós, especialmente neste tempo de Advento, devemos ser cristãos cheios de esperança no Messias que vem para libertar-nos, de confiança nele, de alegria espiritual. Também nós podemos ter dificuldades materiais, sociais, políticas, espirituais, mas nunca devemos desanimar, devemos pedir todos os dias do Advento a nosso Messias que o amor de Deus inunde também nossos corações. Precisamente nisto se baseia a alegria do Advento, na certeza de que nosso Senhor Jesus vem salvar-nos e libertar-nos. E sejamos também nós em todo possível, salvadores e libertadores dos outros, com nosso exemplo, nossa palavra e com todos os meios que tenhamos ao nosso alcance.

“O Evangelho, convida insistentemente à alegria. […] o próprio Jesus ‘estremeceu de alegria sob a ação do Espírito Santo’ (Lc 10,21). A sua mensagem é fonte de alegria: ‘Manifestei-vos estas coisas, para que esteja em vós a minha alegria, e a vossa alegria seja completa’ (Jo 15,11). A nossa alegria cristã brota da fonte do seu coração transbordante. Ele promete aos seus discípulos: ‘Vós haveis de estar tristes, mas a vossa tristeza há de converter-se em alegria.’ (Jo 20,20) E insiste: ‘Eu hei de ver-vos de novo! Então, o vosso coração há de alegrar-se e ninguém vos poderá tirar a vossa alegria.’ (Jo 16,20)” (Evangelii Gaudium n.5)

É verdade que a vida nos pode trazer fatos dolorosos e que ameaçam tirar a nossa alegria e dispor o ânimo à tristeza, à melancolia, mas acima deles, está a alegria que Deus comunica aos que o amam.

A alegria, ainda que não creiamos é como uma semente que se esconde em alguma dobra da nossa alma. Semente essa que Deus plantou no escondido, e que nos empurra a fazer a aventura interior de buscá-la. Com um pouco de silêncio, oração e solidão, de sinceridade e desprendimento, de simplicidade, bondade e inocência, a encontraremos. E nos levará a compartilhá-la com outros, porque é por si mesma, da sua natureza ser expansiva. E quando a tivermos a reconheceremos em cada rosto, em cada busca ou em cada tropeço. Em todo o humano: talvez a alegria seja o mais divino do humano.

Nestes dias que antecedem o Natal somos testemunhas do barulho nas grandes cidades e centros comerciais, a pressa de muitos por adquirir o último presente para as festas que se aproximam. Quantos ficam felizes com esse barulho! Mas, não basta um sorriso ensaiado para uma foto, ou o sorriso improvisado ou diplomático, para dizer que estamos alegres… Estamos alegres? Podemos ser alegres de verdade, sem parecer hipócritas? Não há centro comercial, nem cena de propaganda de TV que nos garanta a alegria para a qual está feito nosso coração.

O Papa Francisco na “Exortação Apostólica a alegria do Evangelho” nos diz: “O grande risco do mundo atual, com a sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada. Quando a vida interior se fecha nos próprios interesses, deixa de haver espaço para os outros, já não entram os pobres, já não se ouve a voz de Deus, já não se goza da doce alegria do seu amor, nem fervilha o entusiasmo de fazer o bem. Este é um risco, certo e permanente, que correm também os crentes. Muitos caem nele, transformando-se em pessoas ressentidas, queixosas, sem vida.” (Evangelii Gaudium n.2)

Um pouco de alegria, por favor, pois o Senhor vem! E este nosso mundo, campo minado por todos os lados; na sociedade donde brota a desconfiança na classe política (quando se acreditam salvadores do mundo), na família (que tem deixado, na sua grande maioria de ser transmissora da fé), ou mesmo na Igreja quando se torna ambiente de tensão, conflito ou incompreensão, um pouco de alegria cai bem.

A alegria não tem sido um ingrediente frequente em nossa época. Talvez, em tempo de crise a tristeza é o ingrediente mais presente. Muita gente vive sem graça. Os sentimentos parecem cada vez mais amortecidos em nossa sociedade e em troca deles só há “desejos”: de riqueza, de ter mais coisas, de poder, de até possuir sexualmente mais que amar.

Se o cristão não acender a alegre luz do Natal, não esperemos que sejam as prefeituras das cidades com seu natal iluminado (muitas vezes sem luz interior alguma) os que nos recordem o que celebramos nestes dias: a alegria de um Deus que das alturas celestes sai ao encontro da humanidade.

 

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