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Um pergunta chave

Padre José Assis Pereira. Publicado em 26 de agosto de 2017.

Por Padre José Assis Pereira

Cada Domingo a Palavra de Deus nos interpela, e convida-nos a perguntar a Deus, permitindo-nos também compartilhar inquietações de fé com os outros. Assim começa sempre uma relação de fé. A experiência da fé cristã se inicia normalmente com uma relação que implica a pergunta pessoal e comunitária sobre Jesus Cristo.

No centro do evangelho de São Mateus apresenta-se um episódio, único e singular que hoje a liturgia nos apresenta. Jesus faz duas perguntas a seus discípulos (cf. Mt 16,13-20). Uma geral: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” Outra, totalmente pessoal e comunitária, que implica a intimidade e a relação com Ele, e que leva à confissão da fé: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Ele pergunta aos discípulos, mas a resposta se dá em comunidade.

Por essas perguntas e o modo de respondê-las, começa o processo e abertura à relação de fé com Jesus Cristo. Ele não pede aos discípulos sua opinião sobre qualquer aspecto de sua atividade ou de seu anúncio; Ele lhes pergunta sobre o que pensam acerca de sua Pessoa.

Jesus quer levar seus discípulos a um claro conhecimento e uma confissão inconfundível. Todo o significado da atuação de Cristo depende do que Ele é; no centro, do fato, não está tanto o seu anúncio, mas sim a sua Pessoa.

Deixar-se interpelar hoje pela Pessoa de Jesus, é um desafio constante para o cristão e a comunidade cristã. Jesus segue vivo e nos interpela na leitura orante de sua Palavra. E assim, a Jesus o vamos conhecendo. Só há um caminho para nos aprofundar em seu mistério: a relação e o seguimento. Cada um temos de pôr-nos diante de Jesus, e escutar: Quem sou eu para ti? Que diz tua vida de mim? Uma pergunta que não só nos questiona sobre a pessoa de Jesus, mas também nos questiona sobre nós mesmos: Quem sou eu? Em quem acredito? Para onde oriento minha existência? A que se reduz minha fé?

Para responder a estas perguntas temos de examinar nossa vida e contemplar: que lugar Cristo ocupa no meu projeto pessoal, em minha vida, em nossos projetos, em nossos atos? Ele não está nos perguntando quanto sabemos dele, senão que importância Ele tem em nossa vida.

Quem dizeis que eu sou?” (v.15) Ao escutarmos esta pergunta podemos pensar em fórmulas doutrinais: Jesus é o Filho de Deus feito homem, o Salvador do mundo, o Redentor da humanidade. Mas, basta pronunciar estas palavras para converter-nos em seus seguidores? Podemos responder por costume, por piedade ou por disciplina, mas parece que não é esse o sentido da pergunta, pois ela nos convida a

examinar melhor a nossa relação com Jesus. Por isso, hoje necessitamos responder-lhe com a vida mais que com palavras, porque a fé não consiste em “crer em algo” ou em aderir a um corpo doutrinário, senão “crer em Alguém”. O decisivo na fé é fazer a experiência do encontro pessoal e comunitário com Jesus.

A figura do apóstolo Pedro é modelo para nós do crente, com um papel fundamental na formação da Igreja. A imagem do cristão, ao mesmo tempo crente e hesitante; discípulo de Jesus, mas também seu tentador; aquele que o confessa e, no entanto o nega. Tudo isso nos leva a repensar o tipo de relação que estabelecemos com Jesus.

À primeira pergunta de Jesus todos os discípulos respondem. À segunda só Pedro responde: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (v. 16). Aqui não se manifesta tanto o conhecimento de Pedro, senão a fé da comunidade. Uma verdadeira confissão de fé. “Jesus sente no seu coração uma profunda alegria, porque reconhece em Simão a mão do Pai, a obra do Espírito Santo. Reconhece que Deus Pai conferiu a Simão uma fé ‘confiável’, sobre a qual Ele, Jesus, poderá construir a ‘sua’ Igreja, ou seja, a sua comunidade, isto é, todos nós. Jesus tem a intenção de dar vida à sua Igreja, um povo firme não já na descendência, mas na fé, ou seja, na relação com Ele mesmo, uma relação de amor e confiança. A nossa relação com Jesus constrói a Igreja. E, por conseguinte, para dar inicio à sua Igreja Jesus tem necessidade de encontrar nos discípulos uma fé sólida, uma fé ‘confiável’.” (Papa Francisco)

Tu és Pedro, sobre esta pedra construirei a minha Igreja”. (v. 18) Com esta confissão de fé, Pedro expressa seu ser e sua missão, convertendo-se em protótipo de todos os crentes. Os seguidores de Jesus que aceitamos o evangelho têm como rocha de salvação esta confissão, que não é a confissão de um homem solitário e carregado de responsabilidade pessoal para atar e desatar, porque tem as chaves do reino dos céus. (v. 19) É a confissão de uma Igreja à qual ele representa. Porque a salvação de cada um, não depende de Pedro senão da graça e da misericórdia de Deus, revelada em Jesus Cristo e a quem Pedro confessa.

O Evangelho hoje nos situa diante da fé cristã, “deixando-nos interpelar” por Jesus Cristo, e recebendo a “revelação de Deus”, como fonte de bem-aventurança. Na Bíblia Deus sempre faz perguntas ao homem; o homem pergunta a Deus; e o próprio homem se pergunta: Quem sou eu? Que sentido tem minha vida? As perguntas são ainda mais necessárias que as respostas. As perguntas nos movem, nos despertam, mas, sobretudo nos comprometem, porque criam uma relação pessoal. Por isso, as perguntas de Deus e a Deus, nos ajudam a entrar em diálogo com Ele e a dar à escuta de sua Palavra o valor de sentido para a vida.

Como seres humanos, como cristãos, como pobres e buscadores, necessitamos perguntar-nos e deixar-nos perguntar, porque o que ignoramos é sempre mais do que o que sabemos. Perguntar é o melhor caminho para o encontro com a verdade. A pergunta do outro sobre mim, e minha relação com ele, é necessária para a maturidade humana e espiritual. Assim ocorre com a pergunta de Jesus, centra hoje nossa oração e nossa reflexão, encontrando na relação que supõe essa pergunta, uma infinidade de respostas a toda nossa vida.

Aquilo que aconteceu de modo singular em São Pedro acontece em cada cristão que amadurece uma fé sincera em Jesus Cristo, Filho do Deus vivo. Questione-se seriamente: como está a minha fé? Quem é Jesus para mim? Como encontra o Senhor meu coração? Um coração sólido como a pedra, ou um coração arenoso, ou seja, cheio de duvidas, incrédulo? Se o Senhor encontrar no nosso coração uma fé, não digo perfeita, pobre, mas sincera e genuína, então Ele verá em nós pedras vivas as quais possa continuar a construção da sua Igreja hoje. O que responderemos? Pensemos nisto.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Padre José Assis Pereira

* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

falecom@fhc.com.br

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