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Um Pentecostes permanente

Padre José Assis Pereira. Publicado em 19 de maio de 2018 às 12:06

Hoje os cristãos católicos celebram a solenidade do Pentecostes. Os judeus chamaram-lhe Festa das Semanas, sete semanas, cinquenta dias depois da Páscoa. Era uma festa originariamente em que se ofereciam a Deus os primeiros frutos das colheitas, num gesto de ação de graças. Mais tarde, os rabinos também lhe deram o sentido da comemoração da Aliança, da entrega da Lei ao povo de Deus no Sinai.

Santo Agostinho nos ajuda a compreender o significado para nós cristãos do Pentecostes: “Celebramos aquele dia em que Nosso Senhor Jesus Cristo, glorificado pela ascensão após sua ressurreição, enviou o Espírito Santo. Assim está realmente descrito no Evangelho: ‘Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crê em mim, de seu seio jorrarão rios de água viva’. O explica em seguida o evangelista, dizendo: ‘Ele falava do Espírito que, deviam receber os que nele cressem; pois não havia ainda Espírito, porque Jesus não fora ainda glorificado’ (Jo 7,37b-39). Restava, portanto, que uma vez glorificado Jesus após sua ressurreição dentre os mortos e sua ascensão ao céu, imediatamente se seguisse a doação do Espírito Santo enviado pelo mesmo que o tinha prometido. Como de fato aconteceu”.

Pentecostes marca o fim do Tempo Pascal, que é o tempo do Espírito, pois este é o dom da Páscoa, o dom do Ressuscitado à sua Igreja, que é o seu corpo. É o Espírito do próprio Jesus em nós e a nossa consciência eclesial. Agora vivemos o tempo do Espírito, o tempo da Igreja, até que Ele venha.

O evangelista João confirma este dom já na cena da morte de Jesus: “Esta consumado! E, inclinando a cabeça entregou o espírito” (Jo 19,30). Ali Ele “entrega” o seu Espírito ao Pai e aos apóstolos, à Igreja que nasce do seu lado traspassado e adormecido na cruz.

Hoje o crucificado-ressuscitado, no meio da comunidade nascente disse: “Como o Pai me enviou também eu vos envio… soprou sobre eles e lhes disse: Recebei o Espírito Santo.” (cf. Jo 20,19-21)

Como na criação do homem Deus soprou sobre ele, transmitindo-lhe o hálito de vida. No envio à missão, o Ressuscitado exala seu hálito sobre os discípulos e lhes transmite o Espírito Santo. É o Espírito de vida, que capacita aos discípulos para cumprir o encargo recebido. Jesus está cheio do Espírito Santo e leva a cabo sua própria missão: “Como o Pai me enviou, também eu vos envio” (v 21). O Espírito é o vinculo vivo de Jesus com Deus: enquanto Filho de Deus, Jesus está completamente orientado para o Pai e unido a Ele com o amor mais intimo e a mais profunda familiaridade; sua comunhão é sua vida, e esta comunhão a vivem no Espírito Santo. O Deus e

Pai de Jesus é também o Deus e Pai dos discípulos de Jesus. No Espírito Santo, Jesus lhes dá sua comunhão viva e vivida com o Pai, com Deus, e lhes habilita para cumprir sua missão. Jesus levou a cabo sua obra na continua e indissolúvel comunhão com o Pai. Nesta comunhão, também os discípulos podem realizar agora sua própria missão e serem participes da missão de Jesus, de sua mesma vida e de seu mesmo poder para perdoar os pecados: “A quem perdoardes os pecados eles serão perdoados” (v.23).

O mesmo que aconteceu com a obra de Jesus: perdoou os pecados, Ele transmite agora aos discípulos esta tarefa, também a Igreja tem por missão limpar o mundo do pecado, de tudo o que exclui Deus, tanto nas pessoas, na vida individual como nas estruturas da sociedade tudo isso, no poder do Espírito.

No mundo que lhes é hostil e inspira medo, os discípulos têm junto de si o vencedor do mundo (Jo 16,33) e se vêm cheios de sua paz e de sua alegria. Jesus lhes abre as portas e lhes capacita para entrar neste mundo e levar a ele seus dons. Os discípulos não devem fechar-se nem paralisarem-se no medo ente o mundo, devem pelo contrario, entrar nele cheios de confiança.

Se nos sentimos cheios do Espírito de Cristo, devemos sentir-nos enviados a pregar o Evangelho de Jesus, o Evangelho da paz, do perdão, da alegria em um mundo fragmentado e ferido pelo fundamentalismo que fecha a mente e o coração, e nos sentir-nos igualmente enviados a construir a unidade e a fraternidade.

A pós-modernidade é esse novo “areópago”, campo da missão da Igreja. Jesus nos convida a ser uma palavra de perdão, sinal de reconciliação e esperança a um mundo que lentamente vai apostando na mais sutil e nociva das violências: a indiferença. Indiferença frente à cultura da vida, do trabalho e da solidariedade. Indiferença frente às pessoas que diariamente morrem por seu compromisso com a dignidade humana. Indiferença frente ao compromisso com a criação e a deterioração da nossa “casa comum”, a terra.

Na convocação apostólica que o Ressuscitado faz, a diversidade é o dom do Espírito dado à Igreja como fundamento constitucional: “Há diversidade de dons, mas um mesmo é o Espírito… Todos nós, judeus ou gregos, escravos ou livres, fomos batizados num único Espírito, para formamos um único corpo e todos bebemos de um único Espírito” (cf. 1Cor 12, 3-7.12-13).

Jesus não quis nem apostou num grupo de “clones” que reproduzissem um único e mesmo modelo, nem que mantivessem rigidamente uma ordem estabelecida. Poderíamos perguntar-nos o que viu Jesus nos “Doze” para convocá-los ao seguimento e à pregação. Jesus não buscou pessoas perfeitas; Jesus convocou pessoas que, para além do seu questionável presente, poderiam fazer um processo de conversão e transformação do coração e da mentalidade.

Uma das constatações mais profundas que podemos contemplar na História da Igreja é que quando buscamos uniformizar pensamentos, teologias, liturgias e espiritualidades, perdemos autenticidade e transparência. Na medida em que se aposte na uniformidade se necessitará personalidades fundamentalistas e até autoritárias que controlem até á força de ameaças a ação do Espírito Santo.

Mas a diversidade, poderíamos reafirmar, é um dom constitucional da Igreja e que, portanto deve estar presente em nossas relações eclesiais hoje. Temos que assumir o desafio e o risco de deixar o Espírito “soprar” onde quer e como quiser. Pois ninguém pode monopolizar a verdade, o bem ou a beleza sem deixar fora o Espírito Santo. Os dons, carismas e ministérios que suscita o Espírito nos recordam que a vida da Igreja bate no coração de cada pessoa batizada. Também nos recordam que a Igreja se faz presente em muitas vidas, em muitos rostos e em diferentes experiências e vivências da fé. Isso é o Pentecostes hoje e permanente.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Padre José Assis Pereira

* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

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