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Um olhar no retrovisor e outro na estrada

Josemir Camilo. Publicado em 16 de agosto de 2017 às 7:56

Por Josemir Camilo de Melo (*)

É o livro da campinense Iêda Lima, que nos narra a ‘história de uma resiliência’. A história de uma geração estudantil, de esquerda ou que se esquerdizou após ser reprimida sem causa (meu ‘causo’). Algumas convivências de memória com a autora: entramos no mesmo curso universitário na mesma data: História, na Universidade Católica de Pernambuco. Tínhamos quase a mesma idade, um ano de diferença. Caço na memória sua imagem ou seu nome. Mas parece que não prosseguiu o curso, militante que já era, perseguições que já vinham. Eu, ao contrário, ex-seminarista, tomando pé nos acontecimentos políticos, mas já com uma carga de esquerdismo católico (ela também começou por aí), frequentava grupos ligados a Dom Helder, comunidade, em Olinda.

Mas a minha iniciação à conscientização política veio por uma injustiça. Naqueles idos de 69, fora assassinado o Padre Henrique, um dos assessores de dom Helder, padre a quem conheci pessoalmente, ouvindo dele preleções dadas a um grupo de ex-seminaristas da Várzea, à noite, em conversas frescas, na praia de Casa Caiada, Olinda. Eu era bancário e, na parte da manhã (pegava às 12 horas) fui ao seu velório e enterro, do qual só participei pouco tempo, voltando da ponte da Torre, para o banco. Pouco mais de um mês fui botado pra fora do banco. Meses depois, meu colega de setor, o poeta José Targino, me contou que eu fora demitido como comunista, por te chegado emocionado, no banco, e com um luto no peito, que fora entendido como protesto pela morte do padre.

O livro de Iêda Lima é um relato em dois tempos, um discurso quase árido, uma tentativa de ‘resgatar’ a memória de uma vida agitada, perseguida, não só a dela, mas do casal e da filha, uma vida atribulada. Na descrição, a autora, que estudou no Colégio da Prata e foi abraçada pela direção da JEC e os frades de Ipuarana, relata sua mudança para o Recife, onde foi presa no DOPS. Aí, outro ponto de identificação, quando ela narra que ficou na prisão, ouvindo os agentes a interrogar outros políticos. Mas o que mais me tocou foi a cama que lhe deram, em 69; foi a mesma que me deram em 72, ensebada, já que não me puseram junto com os velhos amigos de Goiana, secundaristas (eu já era universitário). Tempos de chumbo, de suspeitas e prisões e, no meu caso, de apenas uma detenção de 36 horas, incomunicável, desaparecido para minha família e para meu grupo católico de Olinda. E, aqui, outra identificação com a autora: foi o mesmo Abade de São Bento, que às vezes aparecia na comunidade que eu, sem compromissos, frequentava, que fora acionado por este grupo para intervir e me localizar, Dom Penido.

Outra identificação com a autora é que vivíamos em bairros vizinhos, eu em Casa Amarela e o casal, em Nova Descoberta, que à época era parte de Casa Amarela. Subúrbio que eu frequentava, também naquele clima de comunidades eclesiais de base, embora fosse arredio à parte religiosa; era mais pelo social e político, paqueras à parte. A gente sabia que havia pessoas do bem trabalhando nesses bairros, mas não se tinha notícia de radicalismos. Pelo contrário, era uma pastoral operária, creio. Eu, por minha parte, embora não tenha participado de JEC ou JUC, frequentava Ação Católica Operária (ACO), ajudando, a partir de 1970, a Livraria Diálogo, deste grupo político e religioso..

O livro, em sua segunda, parte tem um ritmo um pouco diferente, como se a autora tivesse, na primeira parte, dificuldades de uma narrativa mais densa, mais reflexiva, talvez fruto de seu sofrimento. Seria seu olhar na estrada. Daí, resiliência. No seu exílio, saindo do Chile, em que estava exilada do Brasil, por causa da ditadura, lá, com a queda e morte de Allende, passou a ser perseguida, fugindo para o Panamá e, dalí, para a Alemanha Oriental. Foi, então, que o casal passou a ter um equilíbrio, aumentando a prole e concluindo seus estudos, graças ao socialismo. O olhar no retrovisor. Depois, com a queda do muro de Berlim, ela veria outra realidade que o regime, como um todo, teria escondido. Não é à toa, que a autora, faz sua dedicatória ao Papa Francisco. Predominou o espírito católico.

Com a anistia, de volta do exílio, onde fez a graduação em Engenharia de Transportes, foi Secretária de Transportes de Fortaleza, por um curto tempo. Depois, veio fazer Mestrado em Engenharia de Transportes, em Campina Grande, na UFPB e, após os créditos e defesa, mudou-se para Brasília, a convite para trabalhar em órgão federal. Em seguida, fez doutorado em São Carlos (SP).

O leitor político se frustra um pouco porque não vê um retorno da Iêda Lima militante. O livro tenta contextualizar o ambiente político dos anos 80, recheando, aqui e ali, com memórias de sua família. A autora tinha desacelerado sua atividade política. Agora, não mais estrada, nem retrovisor. Chega de fugas. Manobras para o estacionamento.

(*) Professor, historiador, presidente da ALCG

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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