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Um Girassol que se fecha

Josemir Camilo. Publicado em 1 de fevereiro de 2018 às 7:43

Por Josemir Camilo de Melo (*)

Neste dia 31 de janeiro, uma tristeza invadiu o coração de uma modesta comunidade, pequena, mas fiel: o fechamento do Restaurante Natural Girassol, na Irineu Joffily. Semana passada, o golpe fora maior; falecera, quase que de repente, uma de suas fundadores, a afável Maria da Penha Ricardo de Souza. Choque para toda a comunidade de comensais e demais amigos, já que era muito querida. Naquele momento, entre surpreso e dolorido, tentei esboçar a reação de nossa comunidade, com estes versos: “Imagino Penha, toda sorriso/Indo atrás de um bloco Hare Khrisna/ Dobrando a esquina./ Ainda vejo sua blusa cenoura, motivos indianos,/ Cortejada por amigos, Entrando no Paraíso./ Namastê! Namastê!/ Penha, cadê você?/Ainda temos Perfídia e outros sucessos/ Para acompanhar, à (sobre)mesa,/ A Confraria do Girassol./ Temos fome de quê?/ De Amor, Penha, de Amor/ a você!”

Conheço as meninas e seu restaurante natural, há, exatamente, três décadas; desde que começou, na mesma rua, mais acima, onde passou oito anos. Meu apego vem de uma certa cultura macrobiótica, que iniciei nos anos 70, ainda no Recife, para curar uma gastrite e me livrar de remédios que tomava por causa de perseguições, que sofrera no começo da década. Aqui, em Campina, encontrei do Dr. Aureliano Ramalho e sua esposa, com os filhos, que seguiam, estritamente, o regime macrobiótico. Em sua casa, comíamos juntos com Telmo Araújo e esposa, e uma estudante do Mestrado de Economia da UFPB (UFCG), minha amiga e sua filha. Foi, lá, que um dia almoçou, conosco, Palmeira Guimarães, o poeta e letrista de Meu Último Pau de Arara. Mas eu já não seguia estritamente a macrobiótica.

Com o nome de Restaurante Natural, o Girassol, surgiu, oferecendo a base da macrobiótica, mas com acompanhamento de proteína animal: frango ou peixe. A grande credibilidade ficava por conta de sua nutricionista, Telma Suely de França Bandeira, elogiada por outras nutricionistas, como pioneira, no ramo da alimentação natural e vegetariana, e que, também, oferecia seus serviços a orientar as pessoas que procuravam algum regime alimentar. Embora selecionada a comida, não havia rigidez, podendo, alguns, desfrutar de sobremesas comuns, mas sempre com açúcar mascavo ou rapadura. A dinâmica da organização ficava com Penha e, creio, algumas cozinheiras tiveram preparo com o qual poderiam até cozinhar, em particular, tal o aprendizado na prática. Mas, nada na cidade se iguala(va) ao seu arroz integral cateto e seu ponto, salpicado, por cima, um pouco de gersal e de linhaça. Lá, não entravam frituras, nem carne vermelha; sequer açúcar branco. O frango, delicioso, era ao forno e o peixe, às vezes, em espécie e sob novas formas, o que fazia até crianças gostarem. E ficaram célebres, além do seu excelente pão integral, seus calzones, tanto os de franco, como os vegetarianos; strüdel vegetariano e a soja nunca faltou um só dia. Esfirras, pizzas vegetarianas, quibes, polentas, lasanha vegetariana, berinjela ao forno, foccacia, quiches, tabules, feijão azuki, bifum e … rapadura. Cosmopolita e regional. Verduras de primeira linha, não tanto de sentido gourmet, mas de necessidade para regimes, ou, simplesmente, para uma boa alimentação, regrada: brócolis, agrião, couve de Bruxelas, manjericão, hortelã, broto de grãos diversos bertalha, nabo, salsa. A nutricionista fazia seu plantão em todos os dias destas três décadas, pois almoçava conosco, estava sempre nos orientando para uma alimentação saudável, com respeito aos pratos nossos de cada dia.

Pessoenses amigos, que nos visitavam, levávamos para lá e eles diziam que aquilo era um paraíso e que em João Pessoa não havia nada igual. Principalmente pela simplicidade, e descontração. Marcava meus encontros, lá, como recebi, ultimamente, a escritora campinense, radicada em São Paulo, Ieda Lima, com sua irmã, que adoraram o ambiente. Boa música, local tranquilo, comunidade quase toda acadêmica, comia-se e aprendia-se a tomar chá após as refeições, tornando-se clássico seu bancha Uma pequena galeria de motivos artísticos e de cultura popular nos recebia a cada almoço e o tratamento era sorriso.

Um Girassol se fecha; ficam as sementes.

(*) Professor, historiador, presidente da ALCG

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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