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Campina Grande - PB

Um Gaudêncio na República Velha

22/09/2017 às 8:28

Fonte: Da Redação

Por Josemir Camilo de Melo (*)

Já que, no artigo anterior, passeei pelo passado colonial e imperial do Cariri, hoje volto à região, mas dentro do contexto da República Velha, através da biografia do político José Gaudêncio Correia de Queiroz. Antes de mais nada, o autor parece provocar o leitor ao não pôr, na capa, o nome do político sobre quem escreveu. Penso o contrário. Assim, achei de percorrer as veredas das 500 páginas de “Um Político da República Velha” (Ideia, 2017), de Flávio Ramalho de Brito, lançado em Serra Branca, em 09/09/17.

Uma coisa que chama logo a atenção é o excesso de citações e até de ilustrações, tal o cuidado e a tentativa de atuar como um verdadeiro historiador, ou o que ele pensa disto. Na contextualização, páginas de transcrição e de ilustrações em excesso, parecem demonstrar que o autor estivesse se escudando nos documentos.

Começa destacando o papel da Faculdade de Direito de Olinda/Recife para ir situando os paraibanos e, entre eles, o seu biografado. O que não deixa de ser uma boa contextualização. Senti a ausência do mais brilhante paraibano naquela casa, Afonso Rodrigues de Souza Campos e até mesmo de Aluízio Campos, parcialmente, mas sou suspeito desta crítica por ter feito o perfil biográfico dos Campos.

Creio que, quando se escreve, se atende a um pré-requisito básico e inconsciente, informar a si próprio da descoberta. Escrevemos para apre(e)nder aquilo que não sabíamos, ou para sustentar uma verdade. Em qualquer dos casos, vejo o autor como um intelectual que emigra muito bem, uma pessoa que largou régua e compasso para escavar documentos e monumentos em busca de um passado que lhe coça e roça o nome, ascendência confirmada. Daí, seu novo ofício de escrevinhador, tomando como baliza os clássicos historicistas, mas, indo mais longe, munindo-se de uma bibliografia que nenhum historicista ousaria lançar sob o peso de ter que quebrar a narrativa e justificar a posição teórica. Flávio, não. Parece que se imunizou com esse aparato teórico (mas não o metodológico), a ponto de não se contaminar com uma ‘oligarquite’ aguda que ainda povoa nossos salões sociais e culturais, quando não mais parecem competir com a industrialização e o capitalismo financeiro. É assim que, bom cavaleiro, pode se dar o luxo de se referir ao biografado como parente distante, sem nenhum compromisso sanguíneo ou paparicador. Uma neutralidade positivista bem calculada.

Para justificar que seu trabalho é acadêmico e não apologético ou familiar, se arma de uma bibliografia teórica sobre o político e o social, digna de uma dissertação de mestrado. Usou o que há de mais clássico na literatura historiográfica e política para embasar conceitos, (como quem diz: olha não é o engenheiro Flávio Ramalho de Brito que está falando não; é…). Assim, vai de Gilberto Freyre a Nelson Werneck Sodré, de Paulo Prado a Raimundo Faoro e Victor Nunes Leal, tudo isto para contextualizar ‘Escola do Recife’, oligarquias, coronelismo etc. Cita Inês Caminha, Carlos Guilherme Mota, Antônio Cândido, Leôncio Basbaum, sem perceber suas linhas teórico-ideológicas. Citou até brasilianistas, como Linda Lewin (Política e Parentela na Paraíba) e Jean Blondel. Não só o excesso de notas avoluma seu livro, como resolve não seguir as normas da ABNT quanto às citações, não recorrendo às oficiais formas; prefere as notas de fim de capítulos. Faz isto consciente.

A contextualização longa pode fazer o leitor esquecer o biografado e pensar que estamos lendo a História política da Paraíba, na República Velha. Tanto que, seu personagem só passa a ser percebido entrando em cena, cem páginas adentro, embora tenha sido sempre notificado que deveria subir ao palco historiográfico, aqui e acolá, quando o contexto pede uma ligação e vice-versa. Acresce-se a isto, o fato da informalidade de, às vezes, se auto referenciar com o personagem biografado, como ‘meu bisavô’ etc. (em vez de ‘bisavô do autor’). Só, perto do fim, é que começa mais a se identificar com o biografado, relatando seu parentesco.

Polemiza pouco com autores. Alterna capítulo descritivo com analítico, ou partes de cada um, como se criasse diálogos entre os testemunhos empíricos e as fontes teóricas, no entanto, sem se posicionar, teórica ou ideologicamente. Que os fatos falem por si, parece dizer.

O autor segue o estilo de uma história episódica, uma narrativa quase em forma de trama, mas trama político, bem construída, mas que pode cansar o leitor ingênuo, com tanta transcrição; mas, não ao leitor historiador, apesar de deixar escapar sua opinião, deixando que as fontes falem por si (princípio historicista). Quem pular a leitura das citações transcritas perderá um pouco da intenção do autor, ou de seu posicionamento.

Ao leitor historiador fica a leve sensação de que seu biografado não teria tido tanto peso político, tanto que o autor escreve mais sobre o contexto do que do texto, o personagem. Parece que o autor (d)escreve esta contextualização para si próprio, como a adquirir fundo, cenário, para a biografia, fazendo quase sem querer uma meta-biografia, ou meta-história (embora convencional). A contextualização é tão intensa que o biografado quase não aparece como protagonista ou, até mesmo, como personagem; está mais para figurante. Não o sentimos sujeito da História. Receio de aprofundar, de contradizer a tradição política da família? Trata-se, no entanto, de uma boa releitura da República Velha, no contexto nacional e na paraibana.

(*) Professor, historiador, presidente da ALCG

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