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Um ‘cometa’ paraibano

Josemir Camilo. Publicado em 5 de abril de 2017 às 8:28

Por Josemir Camilo (*)

No dia 5 de abril de 1916, faleceu um dos maiores campinenses, o advogado, deputado e jurista (por que não? – seu habeas corpus em favor da Câmara de Campina, teve apoio até de Rui Barbosa), ele, Afonso Rodrigues de Souza Campos. Morreu na capital, na rua da Bica, nº 21, em Tambiá, como registrou o Annuario de Campina Grande, de 1925, cujo passamento teria ocorrido às 21 horas, onde morava, enquanto representante dos campinenses na Assembleia estadual. Seu corpo, trazido pelo trem da gretueste, ensejou um dos maiores funerais que a cidade já registrou. O mestre (como se diz em francês, para com advogados, Le maitre) deixou uma enorme lacuna na oposição a Luaritzen e a Epitácio Pessoa, tal era seu ímpeto e solidez nas ideias democráticas.

Estou terminando sua biografia e, para comemorar, o 101º anos do seu falecimento, transcrevo seus últimos momentos. Quem os descreveu 64 anos depois, foi seu irmão, Augusto Campos, em carta à sua prima, Esmeraldina Agra, (saudosa Dona Passinha), enviada de Piaçabuçu- AL, datada de 2 de janeiro de 1980. Relembrando o passamento, Dr. Augusto expõe parte da vida do irmão: “Muito longo o seu último discurso. Deixou-o extremado de tal forma, que se agravou a doença que lhe causara a morte”. Uma folha adiante, registrou seus últimos momentos:

“Cândida, impecável a sua vida conjugal. Apenas uma divergência, em matéria de religião; Yayá, a esposa, católica fervorosa, Afonso ateu irredutível (negrito nosso – JCM, por que nenhum dos seus exaltadores tocou nesse assunto). Quase moribundo, recusou a confissão, isto quando o desembargador Heráclito Cavalcante, seu extremoso amigo, lhe perguntou baixinho: Afonso, você quer se confessar? Resposta: “Não, o que desejo é um médico”. Minutos depois sofre uma síncope e voltando a si, disse: “venci a morte desta vez!”. Logo depois repete-se a crise, não voltando mais, lá se foi para o além.

“Morreu, numa cadeira de balanço, suavemente, sem um gesto sequer

De índole altruísta, Afonso muito advogou em favor dos amigos e dos indigentes, sem honorários. Os detentos da cadeia de Campina prantearam a sua morte”.

O corpo foi conduzido para Campina, no outro dia, como registrou o jornal A Notícia (Parahyba do Norte, de 07/04/1916):

“Foi transportado hontem para Campina Grande o cadáver do Dr. Affonso Campos que naquela cidade teve o seu berço natal e uma grande parte das suas lutas e dos seus triumphos. O corpo do saudoso patrício foi requisitado com insistência por sua família e amigos daquele município, onde Affonso Campos tinha, além do famoso e real prestígio eleitoral, o acatamento do povo sem distincção, pois da grande entidade collectiva naquela terra era elle incontestavelmente uma synthese bem legítima e característica”.

O mundo tinha visto, nos céus, naquele 1916, um cometa. A Paraíba assistiu ao eclipsar de seu cometa em apenas 14 anos de carreira, dos seus 36 de vida: Afonso Rodrigues de Souza Campos.

(*) Professor, historiador

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

falecom@fhc.com.br

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