Fechar

logo

Fechar

Tu procrastinas, ele procrastina. Eu..?

Jobson de Paiva Sales. Publicado em 18 de fevereiro de 2019 às 10:38

Do latim procrastinatus, a significar “adiar, deixar algo para depois”, pro (a frente), crastinus (de amanhã), procrastinar.

Quem foram seus bisavós? Qual o nome deles e o que fizeram?

O dolce far niente, ócio criativo (do sociólogo Domenico de Masi) deve verter-nos melhores no trabalho, na vida. Acaba por ser tributário de uma finalidade: sermos “a melhor versão de nós mesmos”. Nem sempre ávidos e prolíficos o quanto de nosso potencial desenvolveremos? As barreiras preponderantes à plenitude pessoal e profissional serão externas ou internas?

“Isso não é pra mim”, “nunca chegarei lá”, “jamais serei o que esperam, nem mesmo quero isso!” reverberamos inconscientemente fortificando muros que podem tornar-se intransponíveis. As expectativas daqueles que respeitamos podem mais atrapalhar que auxiliar se não estamos prontos. Assim condicionaremos o início de atividades, projetos ou decisões a pressupostos que julgamos ainda não termos e que podem representar para além de prudência, fuga e procrastinação.

A auto sabotagem resultante de patologias psíquicas não é nosso alvo, interessa-nos aqui um espécime tênue, ao qual a psicóloga Amy Cuddy (da Harvard Business School) chama de “síndrome do impostor” em sua obra “O poder da Presença”. A síndrome afetaria aqueles meticulosos, não raro tímidos, pessoas como eu e você, que em importantes circunstâncias não obterão domínio pleno da situação o que as impedirá de “entrarem nela sem embaraços e saírem dela sem ressentimentos”, ou seja, impedirá de serem o melhor de si.

Rememore-se também a “síndrome do estudante”: protela-se o dever até o último momento e se se ganha mais prazo para a entrega não se descarta mais uma vez deixa-lo para última hora preenchendo o tempo extra obtido com mais divertimento. O dever, a tarefa, o trabalho, o novo curso, o novo negócio, o fim do velho relacionamento, etc., são difíceis de confrontar e fáceis de fugir. Acreditar-se-ia impostor em tentar? Melhor resignar-se, viver com o consolo do tépido, do morno. Nada mais acalentador que a apatia do que já conhecemos e sabemos fazer.

Federico Fellini em seu filme 8 ½ , de 1963, utiliza da metalinguagem para falar da crise criativo/produtiva do personagem Guido (um alter ego). Guido, um diretor de cinema, procrastina e foge da obrigação que contratualmente assumiu para entrega de um novo filme, e por fim acaba num balneário recreativo como escusa para recobrar sua inventividade. Ao invés de dedicar-se ao dever inunda-se em recreação mesclada com culpa. “Para eles a minha criação é apenas um fenômeno econômico, enquanto que para mim…” queixa-se o impotente, mas romântico, personagem pretendendo tonar intangível os milhões tangíveis que a ele confiaram. Fellini legou, na opinião deste articulista, sua obra magna ali, ao tecer sobre a procrastinação, que a todos ocorre em algum momento, um ensaio sobre os seus porquês. Ao espectador a película ora transmite o que necessitava ser feito, ora identifica-nos humanamente nas escusas do protagonista.

Em contraste o epíteto de pensador e executor Albert Einstein revolucionou o mundo em 1905 com a teoria da relatividade, tinha apenas 26 anos! Seguro e inabalável o prodígio prometia a esposa um bom acordo de divórcio com o aquinhoado que viria do prêmio Nobel (sim, ele tinha certeza de que a medalha repousaria em seu peito em breve). Sua mente inquieta quase nunca procrastinava (condicionar o divórcio ao prêmio Nobel foi exceção que prova a regra).

Já a maravilhosa Cora Coralina, poetisa goiana de ascendência paraibana, publicou seu primeiro livro com quase 76 anos de idade! Embora escrevesse desde a adolescência (descrevia-se como uma doceira de profissão) apenas oportunizou a si própria sua criação mais doce na madura idade. Deslocou a tênue linha entre procrastinar e ter o seu próprio tempo.

Cora Coralina porta uma lição profunda: podemos nos tornar mais sábios e mesmo inteligentes com o tempo. A aridez que a vida lhe impôs não a liberou de realizar quem era, ao contrário, exigiu.

O preço da apatia, o menor deles, será o de escrevermos nossos nomes sobre turva lama para termos nossa existência esquecida e assim como pouco sabemos sobre nossos bisavós sermos pouco ou nada sabidos pelos nossos bisnetos.

O ser humano é o que pensa (Aristóteles) mas acima de tudo o que disso faz.

“Cada qual é filho de suas obras”

Miguel de Cervantes.

Share this page to Telegram

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Mais colunas de Jobson de Paiva Sales
Jobson de Paiva Sales

Mestre em Gestão de Sistemas de Seguridade Social, Madri, Espanha. Gerente Executivo do INSS em Campina Grande. Articulista. Consultor e Palestrante.

[email protected]

Arquivo da Coluna

Arquivo 2018 Arquivo 2017 Arquivo 2016 Arquivo 2015

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube