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Campina Grande - PB

Três perdas irreparáveis

14/01/2018 às 10:07

Fonte: Da Redação

Por José Mário da Silva (*)

De novembro de dois mil e dezessete a janeiro de dois mil e dezoito, três meses coreografando a irreprimível dança do tempo. Três perdas irreparáveis. Três impreenchíveis lacunas na cultura brasileira. Três ausências na república das letras nacionais. Três vazios na casa da palavra e no mágico território da literatura: Nelly Novaes Coelho, José Louzeiro e Carlos Heitor Cony, código onomástico qualificado, que dignificou sobremaneira a literatura produzida no Brasil nos variados gêneros literários que cultivaram, a cada um deles emprestando tanto a força da paixão criadora quanto o brilho da competência criativa.

Nelly Novaes Coelho é signo pluridimensional, exigindo do olhar hermenêutico que pretende apreciá-la, um enfoque múltiplo, capaz de captar, por todos os ângulos possíveis, a singularidade de sua marcante atuação profissional, uma das impressionantemente criadoras de quantas vicejaram no solo da universidade brasileira.

Parafraseando as palavras que Raymond Aron proferiu sobre o imenso ensaísta brasileiro José Guilherme Merquior, podemos também dizer que Nelly Novaes Coelho leu tudo e tudo compreendeu, basta ver a sua admirável ensaística, espraiada, pródiga em acompanhar a quase incontornável produção literária contemporânea.

Poetas, ficcionistas, dramaturgos, cronistas, memorialistas, nada ficou de fora do alargado raio de interesse da eminente mestra paulistana. E, tudo isso, acentue-se, não apenas no âmbito da literatura brasileira, o que já seria um prodígio, mas na que se gestou em outras geografias, a exemplo da literatura portuguesa, da qual mestra Nelly Novaes Coelho tornou-se doutora e professora titular na Universidade de São Paulo, com alentada tese sobre o ficcionista Aquilino Ribeiro.

Pesquisadora incansável, a frágil compleição física da criadora de Literatura & Linguagem mal fazia supor a intelectual dotada de imensa capacidade de trabalho, que o digam os inúmeros projetos a que ela se vinculou ao longo da sua fecunda carreira acadêmica, tanto os individuais quanto os coletivos; e que foram por ela conduzidos com invulgar pertinácia e largo alcance epistemológico.

Por esse patamar, ganha indisfarçável relevo o Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras, que, mentoreado pela mestra Nelly Novaes Coelho e contando com a participação efetiva de uma qualificada equipe de pesquisadoras, inclusive da professora campinense Elizabeth Marinheiro, praticamente mapeou a produção literária emanada de um sem número de escritoras brasileiras das mais diversas regiões do país, as quais foram alvos de apreciações sumamente pertinentes, verdadeiros pontos de partida para investigações dotadas de maior verticalidade crítica.

Outro monumental painel emergido da incomum capacidade criadora de Nelly Novaes Coelho foi o livro: Escritores Brasileiros do Século XX, conjunto abrangente de ensaios sobre uma diversificada gama de escritores de nossa literatura. Demais disso, coube à eminente professora Nelly Novaes Coelho, não sem a resistência de alguns dos seus pares de vida acadêmica, ser a responsável pelo projeto que introduziu a literatura infantil no currículo de letras da Universidade de São Paulo.

Na época, estávamos na quadra cronológica dos anos oitenta, os hierarquizadores do fenômeno literário nas duvidosas categorias do gênero maior vs. gênero menor insistiam em colocar em clave menor a literatura infantil. O gesto utópico da professora Nelly Novaes Coelho mostrou-se acertado, tanto assim que a literatura infantil constitui-se, hoje, num dos filões mais ricos de nossa produção literária atual, quer da parte dos criadores, quer da recepção crítica cada vez mais consolidada.

Enfim, a morte da escritora Nelly Novaes Coelho, que formou inúmeras gerações de professores em nosso país, representa uma enorme perda para a cultura brasileira, com especialidade a que encontrou na literatura, diria o insuperável Machado de Assis, a sua “segunda alma”.

José Louzeiro também é código onomástico tão numero quanto multiplicado em seu ser/fazer cotidiano. Jornalista vigoroso, repórter intrépido, roteirista de cinema, autor de novelas para a televisão brasileira, contista e romancista consagrado, José Louzeiro notabilizou-se, sobretudo na criação de uma textualidade híbrida que, consorciando realidade e ficção, intentou rastrear as tensões mais agudas sempre prestes a explodir nos grandes centros urbanos do país, nos quais o progresso predatório anda de mãos de dadas com a violência generalizada e quase sem controle, retrato bem típico do Brasil do aqui e do agora, mas já antevista pelas poderosas lentes do notável criador de A infância dos mortos.

José Louzeiro, transitando do real da prosa para a prosa do real, desidealizou a literatura, despojou-a do pedestal do beletrismo alienante; e, em direção diametralmente oposta, foi à procura da vida como ela é, sem abrir mão, contudo, dos estatutos de literariedade, garantidores, no final das contas, da eficácia dos processos de construção textual.

Portador de estilo bem peculiar, José Louzeiro soube com rara mestria consorciar realismo áspero com tocante lirismo, que o diga um clássico como A infância dos mortos, cartografia exata de uma infância abandonada, com presente rasurado e futuro inexistente.

A literatura praticada por José Louzeiro pautou-se todo o tempo por acentuado compromisso humanístico e inegociável resistência ética a tudo quanto amesquinha o homem e conspira contra o exercício de sua plena cidadania. Resistência ética e construção estética intercambiaram-se, dialeticamente, na escrita exponenciada por José Louzeiro, um dos mais importantes nomes da literatura brasileira contemporânea.

Por último, a Indesejada das gentes pousou sobre Carlos Heitor Cony, emblemático nome do jornalismo e da literatura brasileira. “Dissidente pela insubmissão frente ao estabelecido”, na certeira aferição feita por Eduardo Portella, Carlos Heitor Cony moveu-se sempre no encalço de uma literatura emulante dos padrões genológicos convencionalizados, daí ter, em dado momento do seu projeto literário, roçado as fronteiras de uma Quase Memória, refinada escritura protagonizada pela figura do seu pai.

Cronista fabuloso, Carlos Heitor Cony ratificou o acertado conceito exponenciado por Affonso Romano de Sant’Anna, segundo o qual “não há gêneros maiores, nem menores, o que há são pessoas maiores ou menores diante dos gêneros”. Ainda com Eduardo Portella aprendemos que o que decide a sorte ou o fracasso da obra de arte literária é o trabalho que se opera no corpo da linguagem. Aqui, por esse viés, Carlos Heitor Cony foi mestre singular, tendo o seu cronicário se tingido com as cores do lirismo meditativo; do humor não raro marcado por fina ironia ou deboche explícito; dos questionamentos à ordem vigente do mundo, tudo com a leveza tonal caracterizadora do gênero tão bem aclimatado na cultura nacional.

Em O ato e o fato, a crônica de Carlos Heitor Cony radiografou, contestatoriamente, as arritmias do tempo em que o Brasil se viu vergado pelo peso autoritário do poder blindado, que se tornou hegemônico no país por mais de duas décadas. Em Eu, aos pedaços, o real é reconfigurado em sua ontológica fragmentação, tudo filtrado por uma subjetividade assumidamente infensa aos relatos totalizadores. A morte de Carlos Heitor Cony também instaura sentida ausência nos quadros da literatura brasileira, que fica desfalcada de um dos seus mais combativos representantes.

(*) Docente da UFCG, membro da Academia Paraibana de Letras

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