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Campina Grande - PB

Três exigências para ser discípulo de Jesus

03/09/2016 às 12:02

Fonte: Da Redação

padre assis

Por Padre José Assis Pereira

“Naquele tempo: Grandes multidões acompanhavam Jesus”. Assim começa o Evangelho de hoje (cf. Lc 14,25-33). Jesus a caminho de Jerusalém, como em outras ocasiões encontra-se rodeado por multidões. No entanto, Ele não alimenta ilusões. Não se deixa enganar pelos entusiasmos fáceis das pessoas. Parecia fácil seguir este jovem e brilhante pregador de Nazaré; que falava com autoridade, amava as crianças e preferia a companhia dos pobres e humildes.

Também hoje somos muitos os que nos dizemos seguidores de Jesus, os cristãos, somos milhões no mundo. Nossa sociedade segue sendo considerada majoritariamente cristã. Mas, a questão hoje, como ontem, não pode perder-se na constatação estatística ou numérica, por exemplo, das multidões que assistem às missas dominicais ou seguem nossas manifestações de religiosidade popular, mas em se estamos dispostos ou não, a seguir Jesus.

Para dizer que nosso lar é um lar cristão é preciso ir além de possuir um vistoso quadro do Coração de Jesus pendurado esteticamente na parede da sala; ou ter batizado, feito a primeira eucaristia ou crismado os filhos. Significa viver as condições evangélicas que Jesus nos propõe, isto é, viver a radicalidade de seus ensinamentos em todas as circunstâncias, isso de forma normal, sem alienações, repressões ou beatices. Pois as condições que Jesus põe para seus seguidores podem parecer-nos muito radicais, mas não há outras. Portanto, a opção responsável e definitiva por Jesus e pelo seu Evangelho é o que caracteriza um cristão, não a mera pertença sócio-religiosa a uma determinada igreja.

Jesus não faz discursos abstratos, os seus raciocínios são sempre muito concretos. Hoje Ele escolhe três experiências muito concretas: a família, a cruz e a renúncia aos bens.

A família constitui o espaço natural em que nascemos e nos desenvolvemos e que nos ajuda a construir nossa identidade. Poucas instituições têm um valor tão alto. Não obstante, Jesus não a absolutiza nem a banaliza. As relações familiares, que são um magnífico impulso para o crescimento na liberdade, às vezes são também uma armadilha que acaba oprimindo seus membros. É importante ser lúcidos para libertar-se.

“Se alguém vem a mim, mas não se desapega de seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs e até da sua própria vida, não pode ser meu discípulo.” (Lc 14,26) Se não se deixa de lado os interesses familiares para colaborar com Jesus na promoção da família humana, não baseada em laços de sangue, mas construída a partir da justiça e da solidariedade fraterna não poderão ser seus discípulos.

Jesus não está penando em desfazer a família eliminando o afeto e a convivência familiar. Mas, se alguém colocar acima de tudo a honra de sua família, o patrimônio, a herança ou o bem-estar familiar, não poderá ser seu discípulo nem trabalhar com Ele no projeto de um mundo mais humano.

Mais ainda. Fechar-se dentro desses limites, significa confundir amor com egoísmo, o bem dos outros com meus próprios interesses. Se alguém só pensa em si mesmo e em suas coisas, se vive só para desfrutar egoisticamente de seu bem-estar, se se preocupa unicamente de seus interesses, que não se engane, não pode ser discípulo de Jesus. Falta-lhe a liberdade interior e coerência para tomá-lo a sério.

A segunda exigência no discipulado de Jesus aponta para a predisposição de aceitar todas as consequências decorrentes da opção pelo “Reino”. “Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo.” (Lc 14,26)

A cruz é o símbolo do sofrimento, tantas vezes inevitável. Mas a cruz de Jesus é algo mais: expressa o desrespeito a quem é diferente, a quem com seu modo de viver e de agir questionam tantos convencionalismos, inércias e comodidades. Viver como cristão incomoda frequentemente na sociedade, e inclusive na Igreja. Porque o discípulo de Jesus é aquele que busca, arrisca e sabe, com todas as consequências, que Deus está para além de nossas imagens, discurso e de nossas religiões.

Se alguém vive evitando os problemas e conflitos, se não sabe correr riscos, se não está disposto a suportar as incompreensões e o sofrimento pelo “Reino de Deus”, não pode ser discípulo de Jesus.

Carregar a cruz e segui-lo, supõe aceitar em nosso coração o peso do amor com todas suas exigências e consequências, isso certamente nos assusta. Não necessitamos buscar a cruz, ela inevitavelmente vem, se instala, faz sofrer. Essa cruz é a que devo levar atrás de meu Mestre enquanto caminho pela vida. Segui-lo carregando cada um sua cruz, é aceitar as cargas pequenas ou não, que a própria vida nos manda. É caminhar por onde Jesus caminhou, é seguir atrás dele, porque quando se caminha atrás de alguém, fica fácil ver o que o outro faz para, assim, poder imitá-lo. Por isso o discípulo não é chamado a caminhar ao lado do Mestre, mas sim atrás dele seguindo seus passos.

Quanto à terceira exigência é a renúncia aos bens, por que sabemos que estes podem nos levar a viver em função deles, sem deixar espaço para o Reino: “Qualquer um de vós, se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo.” (Lc 14,33) Renunciar aos bens não significa prescindir do mundo. Renunciar implica situar tudo em direção ao “Reino”: utilizar as coisas para bem dos outros.

Ser discípulo é estar disposto a renunciar aos bens para que não nos sufoquem, para que em sua ambiguidade, nos façam livres para estar junto a Ele e segui-lo fielmente. Temos de avaliar seriamente como é nosso seguimento de Jesus e se nele, pesam mais nossos interesses ou os do “Reino”.

Neste texto evangélico de hoje percebemos que o interlocutor de Jesus não é um “tu” individualizado, mas sim um “vós” comunitário. O seguimento não é um empenho individual, mas sim uma experiência compartilhada. Os cristãos chamamos Igreja ao conjunto dos que cremos em Jesus e lhe seguimos.

A Igreja é, com efeito, uma comunidade de seguidores e seguidoras. Tudo o que ela faz deve ter esse contexto, esse pano de fundo. Antes que compartilhar uma doutrina, obedecer a normas canônicas, realizar ritos litúrgicos, o que nos une é nossa adesão ao “Reino”, é ter descoberto e encontrado Jesus como caminho, verdade e vida. Alguém que nos leva aos outros, como irmãos, pois todos somos filhos e filhas de seu Pai.

A forma exigente como Jesus põe a questão da adesão ao “Reino” e à sua dinâmica faz-nos enfim pensar a evangelização e nossa pastoral e na tentação que sentem os agentes da pastoral no sentido de facilitar as coisas, de não serem tão exigentes… Às vezes, parece que interessa mais que as estatísticas da paróquia apresentem um grande número de batizados, de casamentos, de crismas, de comunhões, do que propor, com exigência, a radicalidade do Evangelho e dos valores de Jesus através de uma boa iniciação cristã, do discipulado… Parece que nos esquecemos de que o mandato de Jesus foi: “Ide, fazei discípulos… batizando-os… e ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado”. (cf. Mt 28, 19.20)

Então nos perguntemos: O caminho cristão é um caminho de facilidade, onde cabe tudo, ou é um caminho verdadeiramente exigente, onde só cabem aqueles que aceitam a radicalidade de Jesus?

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