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Testemunho: colunista e professor relata o pânico de hoje no campus da UEPB

Jurani Clementino. Publicado em 1 de abril de 2019 às 15:00

Já passei por muitos momentos difíceis na minha vida. Encarei quase todos com coragem. Hoje experimentei uma sensação coletiva de pânico. Pensei que ia morrer.

Se tivessem me matado naquela hora eu não teria sentido o que sinto agora. Embora assustado, reagi com certa naturalidade aquele evento terrível que aconteceu no Campus da Universidade Estadual da Paraíba, em Campina Grande.

Faltavam poucos minutos para as dez horas da manhã. E centenas de alunos do curso de jornalismo lotavam um dos auditórios da Central de Aulas.

Rajadas de tiros que, inicialmente pareciam fogos de artifício, logo nos fizeram entender que algo de estranho estava ocorrendo ali.

Não tínhamos dúvidas: tratava-se de um atentado. Todos se jogaram ao chão. Depois correram para detrás da mesa onde estava o palestrante.

Os tiros não cessavam. Alunos se desesperavam. Passavam mal. Choravam. Eram consolados por outros visivelmente abalados. Apagamos as luzes. Mas imaginávamos a qualquer momento um pouco adentrando por aquela porta e fuzilando aquele amontoado de gente.

Tratava-se de uma cena de terror que até então só víamos pela TV e ou pela internet. Do lado de fora, correria, gritos, desespero. Dentro da sala alguns alunos pediam socorro pelo telefone.

Com muita dificuldade conseguiram a chave e trancaram a porta de acesso ao auditório. As pessoas estavam desesperadas.

Uns dez, quinze minutos depois chegou um cidadão que se identificou como policial pelo lado de fora do auditório. Estava à paisana e pediu que abríssemos o local. O pânico tomou conta de todo mundo. Ninguém tirava da cabeça que aquele homem que se dizia policial, era um maluco que ia matar a gente. Não abrimos.

Foto: Prof Solange Norjosa - Dept Filosofia

Foto: Prof Solange Norjosa – Dept Filosofia

Já havia policiais no prédio. Seguranças particulares também circulavam por ali. Chegou a informação que seria uma tentativa de assalto ao correspondente bancário. Diziam que os bandidos fugiram. Mas ninguém acreditava.

Exigiram então que um policial fardado viesse contar o ocorrido. A porta só seria aberta se ele garantisse que, do lado de fora, estava seguro. Muita gente estava desolada. Precisando de ajuda.

Quase meia hora depois chegou um segurança e tranquilizou a todos. Disse que podíamos ficar tranquilos que tudo estava sob controle. Era tarde demais.

Ambulâncias, carros de bombeiros e policiais prestavam socorro, encaminhavam os feridos para os hospitais e faziam os primeiros atendimentos ali mesmo.

A notícia já havia chegado aos ouvidos dos pais de alunos que, a toda hora, chegavam desesperados atrás dos filhos. Vi e vivi tudo isso com certa calma. Mas depois percebi que a ficha caiu. Minhas pernas tremiam e passei a chorar descontroladamente.

Vivi com aqueles meninos e meninas cheios de sonhos, um lamentável momento de terror. Nós que tanto noticiamos esses fatos grotescos, estávamos certos de que seríamos a notícia triste desse dia.

O auditório era um lugar potencialmente ideal para qualquer maluco que gostaria de matar. Sabíamos que ali eles realizariam o desejo geralmente traduzido em números.

Há um clima horroroso de insegurança no ar. E isso é muito triste. Graças a Deus foi um susto. Sei que cada um viveu essa experiência de forma particular.

Se eu tivesse morrido, se de fato fosse um atentado, eu teria encarado a morte com certa naturalidade. Mas agora sei que, psicologicamente, isso que vivemos foi uma tortura coletiva. Estamos fragilizados.

Cerca de cinco mil pessoas estavam na universidade naquele momento. Que cada um possa se recuperar o mais rápido possível. E que essa coletivização do horror jamais volte a se repetir.

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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