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Tessituras

Elizabeth Marinheiro. Publicado em 28 de julho de 2018 às 11:13

Escuro o tempo atual. Chacinas; desastres aéreos; desespero dos Refugiados; filhos separados dos seus pais; ROUBOS e mais ROUBOS; traições; guerras pessoais e mundiais; incêndios; raios, enfirm, a fatalidade da insegurança em todos os lugares. Sim, tempo escuro.

E quando alegria e humor estão por baixo, a gente se lembra do “Endemoniado” descrito por Quevedo, em primeira pessoa. O narrador entra numa igreja à procura de um “Calabrês”, hipócrita e “autêntico sepulcro famoso”.

O Calabrês faz um discurso, para outros personagens (um Clérigo, o diabo etc), de severo humor. O diabo ataca os Poetas e os condena aos infernos; rebaixa os juízes(“não há justiça na terra”) e, referindo-se aos pobres, acrescenta que “até diabos lhes faltam aos pobres”.

– “Mentes! – berrou Calabrês. Muitos virtuosos existem hoje. E agora descubro que mentiste em tudo que falaste; em castigo, sairás hoje deste homem! Apremiou-o a que calasse; e se um diabo, de per si é mau, mudo é pior que diabo”.

“Vª Exa. com curiosa atenção escute o discurso sem olhar quem o fala; que pela boca da serpente de pedra esguicha um refluxo d’água cristalina”.

(Claro, o alto nível deste humor só será melhor assimilado, se o DISCURSO de Quevedo contar com uma leitura integral…)

Já em “Histórias de Alexandre” (Graciliano Ramos) descreve-se uma zoadeira medonha entre Alexandre, Libório, Firmino, mestre Gaudêncio, Das Dores, Cesária etc. Todos em busca de uma “égua preta”, metida nas brenhas.

Obedecendo ao pai e mesmo com o olho torto, Alexandre meteu-se na escuridão, enfrentando bacuraus, formigas, o próprio inferno.

E o pai, em casa, enloquecido com a ausência de Xandu, mergulhado na mata negra. De repente, Xandu chega e diz: “acho que peguei a égua pampa porque tem malhas”.

Amanhecido o dia, a família e Xandu espantaram-se: “o que estava narrado no mourão era uma onça pintada, da altura de um cavalo”.

Pura doidiçe, mestre Graça!

Em “Humour”(Afrânio Peixto, 1936, p. 39) cita: “Bergson conseguiu, talvez, a ironia e o humour descrevê-los a contento. Dos que se contestam facilmente. Enuncia-se o que deveria ser fingindo crer que o é, precisamente o que é, afetando as coisas que assim deveriam ser: é o humour”.

Outros entendem o cômico como superficial e externa noção dos contrários; já o humanismo seria um profundo e íntimo sentimento do contrário.

Ficaremos com Renard: “Só se tem o direito de rir das lágrimas dos outros depois que já se chorou”.

Melhor ainda: “A ironia é o espirito à custa dos outros; o humor é o espírito à custa própria”.

Que sobreviva o HUMOR!

FALTA LUZ AO TEATRO BRASILEIRO!

Estive com ele algumas vezes. Momentos raros e preciosos. Estava diante de um mestre e preferia ouvi-lo.

Falava-me da literatura epistolar, dos Atos da Criação, do Tropicalismo, de Bandeira(paixão recíproca!) e do cotidiano, com simplicidade incomum.

Este amigo, tendo vivído nos Estados Unidos, em Cuba, em Praga, deu-me inúmeras orientações em poucos, porém, riquíssimos encontros. Um deles foi na PUC/RJ, ao lado de Clarice Lispector. Parece até mentira…

Com “Antígona”, “Salomé”, “A noite dos assassinos”, “O Balcão” etc elevou os teatros “Oficina” e “Opinião” aos patamares do apogeu.

Realmente, não acompanhei todos os seus trabalhos. Uma tristeza para mim…

Entretanto, tive o previlégio de dialogar com ele sobre “O Rei da Vela”, do modernista Oswald de Andrade. Texto atualíssimo não só pelo compromisso social, mas também por temas tão vigentes nesta pós-modernidade: “Abelardo” e “Heloisa” semantizam os agiotas, o homossexualismo, o facismo, os suicidas e até um casamento na presença de um defunto. E a Baía da Guanabara transformada em paraíso tropical (Coitadinha, hoje…)

Apesar de Profa. Dra. em Teoria Literária, foi com o gênio Hélio Eickbauer que compreendi, pertinentemente, as questões da efemeridade teatral, a força da emoção e, sobretudo, os excelentes conceitos da Catarse. Como fiquei feliz! E ainda recebi ótimas explicações em torno do Realismo Crítico.

Pessoalmente, o que achei mais belo na montagem do Martinez foi a CENOGRAFIA DO AMIGO/Mestre Hélio.

Dos céus, Hélio, mandarás Luzes para este Brasil!

AO MEU LEITOR.

Já estão abertas as inscrições para reabertura pública da I Seccional PEN da Paraíba, que ocorrerá no próximo dia vinte-e-sete de agosto, na FIEP/Gestão Buega Gadelha. Fonar para 9 9968-1789 e 9 8619-7190 e 9 8914-1412. Antecipadamente agradecemos.

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