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Tessituras

Elizabeth Marinheiro. Publicado em 15 de abril de 2018 às 11:41

Ignoram-se os próximos 50 ANOS DA FUNDAÇÃO ARTÍSTICO-CULTURAL MANUEL BANDEIRA/Casa LÚCIO CUNHA LIMA. Inclusive, já se tem o cronograma festivo que irá, se DEUS quiser, de janeiro até dezembro do ANO em tela.

Como não se soube de nenhuma Assembléia Geral Extraordinária espera-se que ela seja oficiada, urgentemente.

Resolvemos, então, homenagear o Patrono MANUEL BANDEIRA convocando alguns trechos dos seus poemas.

O Imortal brasileiro soube ajustar o coloquial e o erudito, num processo tão popular quanto preciosamente estético. Adotou retórica modernista. Criador de neologismos metapoéticos. Deu ao Concretismo uma estrutura lúdica. Não minimizou a Literatura nordestina, como se constata em “Cantadores do Nordeste”. É eximio cultor das intertextualidades, a exemplo das paráfrases camonianas, pois me dizia “sou apaixonado por Camões e Mallarmé”.

Contudo, a intertextualidade não lhe furtou o sentimento da terra; embora paraibano, é Recife a recorrência de sua obra.

Pregões, brincadeirinhas, ruas, rios conduzem sua percepção sensorial explícita em “Evocação do Recife”: sem caráter autobiográfico porque a infância é lema da Poética.

Não esqueço. Terno escuro, óculos de grau, curvado buscando o chão da Avenida Beira Mar (onde residiu) e atravessar a Avenida Antônio Carlos para chegar à Faculdade de Filosofia, onde lecionava ou à Academia Brasileira de Letras, onde era consagrado.

Na sequência, o visitei várias vezes em seu apartamento de Copacabana.

Se “A Cinza das Horas” e “Carnaval” revelam um poeta contrário ao “modernismo de 22”, por outra via, o irreverente “Os Sapos” (já contido em “Carnaval” e o “Ritmo Dissoluto”), povoando sua comunhão com o tradicional e com a modernidade. E o inimitável Lirismo, uma constante em sua vasta obra.

Lírica da simplicidade. Até mesmo nos poemas voltados para o ubi sunt, Bandeira o faz com a dicção da lúdica, da dor, do sofrimento.

Em “Epígrafe”: “Veio o mau gênio da vida,

Rompeu em meu coração,

Levou tudo de vencida,

Rugia como um furacão,”

Em “Desencanto”: “… Fecha meu livro, se por agora

Não tens motivo algum de pranto.

O querido Poeta encarou a doença grave com naturalidade como leio em “A Dama Branca”: “E a Dama Branca sorriu também/ A cada júbilo interior”.

As hemoptises se repetiam na “vida inteira que podia ter sido e que não foi,/Tosse, tosse, tosse.”

Desenganado por um médico, tem-se o clima lúdico de “Pneumotórax”:

“Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
– Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.”

Isento da inveja, admirava seus amigos com humildade transparente. A partir do seu próprio nome, emerge a poética do ser comum:

– Manuel Bandeira,

Quanta besteira!

Olha uma coisa:

Porque não ousa

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Manuel de Sousa”

Banida a inveja, ele homenageava grandes Poetas: “Murilo Mendes”, “Saudação a Vinicius de Moraes”, “Carlos D. de Andrade”:

O sentimento do mundo

É amargo, ó meu poeta irmão.

Se eu me chamasse Raimundo!…

Não, não era solução.

Para dizer a verdade,

O nome que vejo a fundo

É Carlos Drummond de Andrade”.

De acordo com estas breves tessituras, aludimos também aos metros e ritmos diversos; à visualidade; o tom alegórico; os trocadilhos(cf. “Neologismo”); o discurso erótico(cf. “Poemeto erótico”); a experiência concretista(cf. “A ONDA”); a popularidade das onomatopéias(cf. “Os Sinos”), “Trem de ferro”, “Berimbau” etc.

Enfim, a profundidade e a originalidade do Imortal Manuel Bandeira exige ensaios de longo fôlego. Há muito o que desvelar. Aguardemos o CINQUENTENÁRIO. Seus especialistas estarão aqui.

MENSAGEM.

“A vida com uma porção de coisas que eu não entendia bem”. (cf. “Evocação do Recife”)

Eis a Lírica remetendo para atitudes atuais

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Elizabeth Marinheiro

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