Fechar

Fechar

Tessituras

Elizabeth Marinheiro. Publicado em 26 de novembro de 2016.

Realmente, há muito escritores pouco estudados na própria terra… Um deles é o Poeta, Advogado e Pensador, FIGUEIREDO AGRA. Por tal razão resolvi transcrever este ensaio, a fim de que a juventude campinense possa tomar conhecimento de que ele existiu.

E vejam só: o Ensaio vem das Minas Gerais.É da autoria do historiador, Francisco Iglesias, Professor da UFMG e Membro do Conselho Nacional de Política Cultural. Eis o texto:

“UM CIENTISTA PARAIBANO”

Sabe-se que no Brasil as diferentes unidades pouco se comunicam: acontecimentos e obras artísticas ou científicas não ecoam além das fronteiras de seus Estados. A exceção é o Rio de Janeiro, um pouco menos São Paulo: a principal é o Rio, de modo a dizer-se com justiça – o que não repercute no Rio não tem importância nacional.

Verdade para a política e para a vida intelectual, seja na literatura ou em qualquer outra arte, seja no pensamento ou na ciência. Brasília é capital política, tão só: a capital ainda é o Rio de Janeiro. Decerto São Paulo é o maior centro econômico, tem peso financeiro, mas não conta com a mesma intensidade. Dos outros Estado nem se fala.

De fato, o Brasil tem ainda características do tempo Imperial, com suas Províncias; ou do Colonial, com suas Capitanias. Decerto com os meios modernos de comunicação- imprensa, rádio, televisão – as notícias chegam logo a todos os pontos, as unidades se informam do político na expressão epidérmica, mas tão somente.

A “aldeia global” de McLuhan ainda não é realidade entre nós, pois a norma é a aldeia isolada, no tido antigo. A comunicação de massas aqui funciona só no pior, levando a uma uniformidade em tudo – na indumentária e modas, na dança e no canto, até nos costumes. – desfigurando o caráter local pelo mimetismo condutor a um empobrecimento criativo e a uma desvitalização de todas as áreas.

Essas considerações melancólicas surgem da observação sobretudo da realidade intelectual, Escritor ou artista só é conhecido publica no Rio ou se ecoa na imprensa do Rio. A toda hora se é surpreendido pela revelação de um poeta, romancista, crítico, jurista, filósofo, ou pintor, escultor, compositor.

Surpresa ocasional, resultante de uma viagem ou do encontro com alguém de outra unidade que nos põe a par de obra da qual não tínhamos notícia, ‘osso dar um exemplo com a eventual leitura de uma folha dedicada à memória do escritor paraibano Figueiredo Agra, autor de obra literária, sociológica e jurídica, além de jornalista atuante e professor eficiente.

Nesse jornal, há notícia de três textos que me despertaram a atenção. A revolução de Polichinelo (Considerações em torno de uma plataforma de governo), escrito em 1960, O duplo caráter da Revolução Brasileira e a posição dos comunistas (Por uma nova politica para o Partido), publicado na Paraíba em 63: Aposição do Direito no desenvolvimento social, editado no Recife em 65. Atraído pelos títulos, pedi à sua irmã Elizabeth Marinheiro – que me dera a folha da Paraíba – os textos, hoje raros, pois as edições foram pequenas.

Fiz a leitura com prazer e proveito. Não vou anunciar a descoberta de um sociólogo, cientista político ou jurista a revolucionar esses campos do conhecimento, mas o encontro de quem se preparou com critério para a vida pública e científica, sobretudo para o magistério, lendo intensamente e com alto sentido crítico.

Demais, um ágil debatedor de ideias, mais que simples consumidor de livros. Dos três textos, afasto o primeiro – A revolução de Polichinelo – por ser o estudo participante de um político – um cientista político – em problema sucessório local, cujas coordenadas escapam a quem não tem familiaridade com o quadro. Destaque-se no escrito o tom combative, o jornalismo inteligente e polêmico. Não posso entrar no mérito, eis tudo.

Já os outros dois despertam a atenção do leitor empenhado na política nativa. O duplo caráter da Revolução Brasileira é reflexão sobre quanto havia no país quando escreveu – em 63 – com a tentativa de explicar o processo nos últimos anos é marcadamente ideológico, pela posição pragmática assumida. o autor adota o pensamento marxista, de modo ortodoxo. Ora, há muitos marxismos. Sendo o pensamento mais vivo e atuante, é o que mais despertou debates e crítica.

Deixando de lado os inimigos por simples reacionarismo, que nada escreveram de lúcido, revelando só falta de entendimento, ou os seguidores fanáticos, na linha oficializada da União Soviética até o recente processo de abertura – denunciadora da chamada Vulgata estalinista de Marx, que o empobrece no esquematismo e na insuficiência de apreensão de obra rica e feunda -, fixem-se os estudiosos ou intérpretes deste século, como Gramcsi, Lukacks e, principalmente, a Escola de Frankfurt, que o adota criticamente não fazendo dele catecismo ou receita para tudo.

Figueiredo Agra não teve conhecimento ou não absorveu essa corrente mais moderna – já de algumas décadas – pelas limitações naturais do marxismo no Partido Comunista do Brasil, prejudicando seus seguidores. Repete assim em grande parte a versão ortodoxa, às vezes demasiado limitada.

Sobretudo pelo fato de não escrever um texto académico, mas, como diz no subtítulo, tentar “uma nova política para o Partido”. Apesar dessa limitação, produz texto inteligente e instigante, como não é comum entre os chamados marxistas nativos, principalmente entre os militantes.

De quanto vi de Figueiredo Agra, prefiro A posição do Direito no desenvolvimento social, tese apresentada à Universidade Federal de Pernambuco. É estudo jurídico, com embasamento na filosofia e na sociologia, revelando universalidade de leitura. Aí, o marxismo é poderoso instrumento de análise.

Destaque-se o enfoque da propriedade, com as análises de Locke, Hobbes, da Declaração dos Direitos do Homem, resultante da Revolução Francesa, ou do Código Civil de Napoleão. Sobretudo a crítica a este é aguda, apontando como em 2.000 artigos; apenas 7 tratam do trabalho, o Código detendo-se mais – e não do melhor modo – na propriedade e nas obrigações dela derivadas. Tem-se aí a sistematização do interesse burguês.

Afinal, a Revolução, se teve pregadores radicais, foi eminentemente burguesa e essa orientação é que predominou. Ainda assim foi uma conquista, pois se acabava com o Ancien Regime e com os privilégios da nobreza, de modo a caracterizar o movimento de 1789 – agora comemorando o bi-centenário – como verdadeira Revolução, ou seja, com a mudança de uma classe no poder por outra, como se faria depois, em 1917, na revolução comunista desdobramento daquela. A tese de 65 é sólida e brilhante.

A obra de ciência social de Figueiredo Agra, na parte que lhe conhecemos, recomenda-se pela abrangência do estudo, riqueza de leitura e poder de reflexão, além de bem escrita (o autor tinha cultivo da matéria literária).

Morrendo ainda jovem, poderia dar muito mais, pois não deixaria de acompanhar o marxismo deste século – inquieto e inquietante, vivo, na incorporação de quanto se faz em matéria de ciência social. Lembre-se pois o seu nome entre os dedicados à reflexão sobre a realidade brasileira no campo da sociologia, da política e do Direito.”

Ao meu leitor, minha admiração.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Elizabeth Marinheiro

falecom@fhc.com.br

Simple Share Buttons

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube