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Teologia da dizimação

Ailton Elisiário. Publicado em 4 de outubro de 2016 às 9:18

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Por Ailton Elisiário (*)

Confesso que fico triste quando me deparo com pessoas que se revestem de um manto de pureza para a pregação da Palavra de Deus e agem de má fé para com seus ouvintes. Conscientes de uma vida de sofrimento a que todas as pessoas estão submetidas, a Palavra de Deus chega para o alívio das dores e para a preparação de volta ao seio do Criador. Para isto, aqueles que apregoam essa Palavra devem fazer com honestidade de propósitos, estando eles em geral ligados a igrejas que se comportam com responsabilidade no exercício de suas missões.

Infelizmente, há os que criam seus negócios dando-lhes a aparência de igrejas cristãs avançadas, utilizando-se de uma doutrina chamada teologia da prosperidade, pela qual os fiéis se beneficiam na medida em que se obrigam a dar às suas igrejas o que possuem para receber em troca algo de Deus. Eles mandam que Deus os atenda, porque para isto estão pagando dízimos, como se Deus fosse um produto à disposição no mercado, além das ofertas de campanhas que nunca param de ser geradas e geridas por esses “pastores”.

Por dízimo se entende a fração de um décimo que deve ser reservada da renda auferida para destinação à igreja, com o objetivo de mantê-la e a seus ministros. No Antigo Testamento, o Livro do Levítico fala que “a décima parte de tudo o que passa sob o cajado do pastor é coisa consagrada a Iahweh” (Lv 27, 32). Desse modo, o dízimo pertence a Deus e ninguém tem direito a ele. Todavia, parece que para certa igreja no Brasil o Céu está sofrendo uma crise inflacionária braba e, como aqui na Terra os governos para equilibrarem seus orçamentos aumentam os impostos, Deus está agora fazendo o mesmo.

Conclama o “apóstolo”, como assim se proclama seu dirigente máximo, para no mês de dezembro os fiéis contribuírem com 30% de sua renda para o “grande projeto” e dizendo que isso é justo porque foi uma inspiração de Deus. Esse dízimo, que deixará de ser 10% e passará a 30%, representará a Santíssima Trindade, sendo 10% para o Pai, 10% para o Filho e 10% para o Espírito Santo. Segundo ele, o fiel estará sendo chamado para uma prova e todo o Brasil deverá participar. Os vídeos que circulam nas redes sociais transmitem exatamente isto na fala do apóstolo.

Eis aí uma doutrina teológica que surge, a que nomeio de “teologia da dizimação”. A teologia em que o dízimo é triplicado e repartido entre as pessoas da Santíssima Trindade, que necessitam de mais dinheiro para a “sua obra conduzida por seu apóstolo” aqui no Brasil. Dizimar era o reconhecimento da parte de Israel de que tudo vinha do Senhor ou Lhe pertencia. Só que dizimar aqui não significa isto nem cobrar o dízimo, mas acabar com os que pagam o dízimo. Dizimar aqui não tem o sentido de lançar imposto de dízima, mas o sentido de arrasar, de aniquilar, de provocar a morte de grande número de pessoas. Assim, o dizimista ou aquele que é alcançado por essa dízima, é um potencial contribuinte aniquilado financeiramente, arrasado patrimonialmente.

No Livro de Malaquias, Iahweh reclama do seu povo que não cumpria com o dízimo. “Pode um homem enganar a Deus? Pois vós me enganais. – E dizeis: Em que te enganamos? Em relação ao dízimo e à contribuição. Trazei o dízimo integral para o Tesouro, a fim de que haja alimento em minha casa. Provai-me com isto, disse Iahweh dos Exércitos, para ver se eu não abrirei as janelas do céu e não derramarei sobre vós benção em abundância” (Ml 3, 8 e 10). Estes versículos mostram que Deus jamais exigiu além do dízimo, não mais do que os 10%. E por que agora ele “inspira” o apóstolo para exigir dízimo de 30%? E quanto às ofertas que o apóstolo não dispensa?

No Novo Testamento, Deus se apieda mais uma vez do povo sofrido e flexibiliza a oferta. São Paulo disse: “Cada um dê como dispôs em seu coração, sem pena nem constrangimento, pois Deus ama a quem dá com alegria” (2Cor 9, 7). E Jesus Cristo, “sentado frente ao Tesouro do Templo, observava como a multidão lançava pequenas moedas no Tesouro, e muitos ricos lançavam muitas moedas. Vindo uma pobre viúva, lançou duas moedinhas, isso é, um quadrante. E chamando a si os discípulos, disse-lhes: Em verdade eu vos digo que esta viúva que é pobre lançou mais do que todos os que ofereceram moedas ao Tesouro. Pois todos os outros deram do que lhes sobrava. Ela, porém, na sua penúria, ofereceu tudo o que tinha, tudo o que possuía para viver” (Mc 12, 41-44).

Portanto, é conveniente observar o que manda a Sagrada Escritura na correta interpretação de seus textos. Deus não quer nada de ninguém, não exige 10% da renda de ninguém. Deus quer que cada um dê segundo suas posses, conforme o que tem e não o que não tem. “Quando existe a boa vontade, somos bem aceitos com os recursos que temos; pouco importa o que não temos” (2Cor 8, 12). Não importa a Deus quanto damos, mas a nossa atitude e a motivação com que fazemos. Cristo ensinou que um homem deveria vender tudo que tinha e dar aos pobres (Mc 10, 21), mas ficou satisfeito quando Zaqueu prometeu que daria aos pobres a metade dos seus bens (Lc 19, 1-10), o que mostra claramente que quantias específicas não são importantes para Deus.

(*) Professor, membro da ALCG

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Ailton Elisiário

O autor é economista, advogado, professor da Universidade Estadual da Paraíba e membro da Academia de Letras de Campina Grande.

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