...

Campina Grande - PB

Tempos líquidos, amores nômades, sujeitos voláteis

19/07/2016 às 22:04

Fonte: Da Redação

myrna22Por Myrna Agra Maracajá

Tenho visto, ultimamente, nas redes sociais, circular um texto que diz mais ou menos assim: “chegar em casa ao fim do dia e não ter com quem trocar uma palavra, para alguns é solidão, para mim é liberdade”. Penso que essa frase traduz muito bem a era do individualismo de massa, reflexo de nossa sociedade hipercapitalista, em que os sujeitos têm sido substituídos por objetos produzidos pelo mercado. Estamos vivendo uma perda da dimensão do amor. Ao invés de amar, a nossa sociedade consome.

Por que devo me aventurar em um relacionamento sério, cheio de riscos e incertezas, se posso chegar em casa, ao final do expediente de trabalho e estar rodeado pelos meus gadgets, essas maravilhas que a ciência e a tecnologia me ofertam? Por que dedicar meu tempo e meu afeto a alguém que pode partir a qualquer instante, se posso comprar objetos que podem me preencher e me completar, sem riscos de abandono?

Nesse sentido, a virtualidade tem sido um excelente espaço para essa defesa, quase fóbica, diante do estado amoroso. Existe uma multiplicidade de aplicativos que favorecem esse empobrecimento das relações interpessoais. Nesses aplicativos, a palavra é quase que completamente curto-circuitada, característica mais comum da pobreza simbólica de nosso tempo. Pouco ou nada se fala. Prevalece a imagem. Prevalece o ato. Se, antes, havia a exigência de todo um comprometimento afetivo para que se chegasse ao outro, hoje, é a via do sexo, banal, vazio e instantâneo que garante as atuais parcerias. O usuário do aplicativo, nada diz de si, apenas se apresenta, sucintamente como: “disponível para transa rápida”.

No tempo dos amores líquidos, a descartabilidade precisa ser uma garantia. Os sujeitos não entram sem a certeza de uma porta de emergência. Usou, descarta. Deu defeito, passa adiante. Alguns até se aventuram em um relacionamento, que caminha muito bem enquanto o outro nada lhe pede. Acaso houver demandas, queixas e cobranças, o parceiro já não lhe serve mais. Afinal, o admirável homem líquido, não quer ser admoestado. Que nada lhe aborreça, que nada lhe faça desprender energia psíquica. A palavra de ordem parece ser: cale-se. Que o outro seja mudo.

O sujeito contemporâneo, cheio de si, comporta-se de forma autística. Ele não precisa do outro. Esse outro funciona apenas como um meio de gozo. Algo que lhe é útil, mas não imprescindível. Para a Psicanálise, a condição para o amor é a falta. Para amar e sustentar uma posição desejante, é necessário que falte algo ao sujeito. Mas, o que, hoje, pode faltar ao sujeito? O mercado e a ciência tudo lhe dá. Em seu Seminário 8, o psicanalista francês Jacques Lacan diz: “dar o que se tem é a festa, não é amor”.

O que se dá, hoje? Um corpo malhado, gostoso, cirurgiado. Peito, bunda, cabelo falso. Um corpo encoberto pelo império do luxo, ostentando roupas e acessórios caríssimos. Um carro do ano, o iphone mais caro. Tudo isso vindo no lugar daquilo – daquilo que não se tem e nunca se terá, porque somos sujeitos de falta. Se pudermos falar em essência, ela é a de que somos faltosos. Para Lacan, “amar é dar o que não se tem”.

Quem suporta dar ao outro o que lhe falta? E quem aguenta receber? Quem quer receber as falhas, defeitos, angústias e limitações do outro? Tristes e pobres sujeitos somos nós, cada vez mais incapazes de amar. E ainda chamamos isso de liberdade.

Veja também

Comentários

Simple Share Buttons