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Teia de renda

Benedito Antonio Luciano. Publicado em 3 de setembro de 2018 às 15:09

Foto: Leonardo Silva/ Paraibaonline

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Benedito Antonio Luciano(*)

Cada um de nós é depositário de sua própria história e cada um de nós escreve a sua própria história. História e memória que começam no âmbito familiar e se propagam na medida em que, entre elos e anelos, o fio da vida é cruzado com outros fios, formando a teia de renda que é a nossa vida: esse conjunto de fios que se entrecruzam para transformar o eu em nós.

Essas reflexões surgiram na minha mente quando me lembrei de uma cena familiar remota: a minha avó, mãe de meu pai, fazendo rendas, sentada diante de uma almofada, com as pernas cruzadas e lidando com extrema habilidade com os bilros.

A almofada, de formato cilíndrico, era feita de pano, sendo preenchida com raspas de madeira. Sobre a almofada era posto um papelão sobre o qual o desenho da renda era feito com pequenos furos.

Os bilros, ou birros, como ela pronunciava, eram feitos de pequenas hastes de madeira introduzidas no orifício de caroços de macaíba ou no orifício de pequenas peças de madeira torneadas.

A renda era feita a partir de novelos de linha. A linha era enrolada em torno das extremidades dos bilros e, orientando-se pelos alfinetes dispostos nos furos de papelão, a trama da renda ia tomando forma nas mãos da minha avó.

Curiosamente, quando faltava alfinete, ela os substituía por espinhos de mandacaru ou xique-xique, obtendo o mesmo resultado.

Quanta ciência tinha a minha avó! Além de saber fazer renda, ela conhecia rezas para curar certas doenças e, junto com as rezas, os segredos de ervas medicinais transmitidos pela ancestralidade afro-brasileira.

Pena não ter convivido muito tempo com a minha avó, pois ela morreu muito jovem, quando eu era adolescente. Mas, quando menino, gostava de acariciar a carapinha dela e de ouvir as histórias que ela me contava, enquanto pitava um cachimbo preto, do formato daquele de Sherlock Holmes.

Hoje, adulto, ao lembrar-me de minha avó fazendo renda, comecei a imaginar a vida como sendo esse tecido raro, urdido pela mão invisível do destino. A vida como a trama de uma renda que pode ser interrompida a qualquer momento por falta de linha no novelo.

O autor é Professor Titular do Departamento de Engenharia Elétrica da UFCG.

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Benedito Antonio Luciano

Professor doutor, titular do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).

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