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Coluna de Josemir Camilo: Tavares Cavalcanti, Afonso Campos e Chateaubriand

Josemir Camilo. Publicado em 30 de maio de 2019 às 23:43

Por Josemir Camilo

No discurso de abertura da solenidade de posse do jornalista José de Arimatéa de Souza, na Cadeira de número 17, da Academia de Letras de Campina Grande, cujo Patrono é Manuel Tavares Cavalcanti, pretendi aproveitar o momento e mostrar como esse personagem foi importante em certo momento da história intelectual de Campina Grande, ao aglutinar em torno de si, dois outros patronos deste Academia. Não que, naquele momento, eu afrontasse o empossante ou o seu saudador, mestre Aílton Elisiário. Tentei dar um mergulho nas informações sobre o passado do Patrono da referida cadeira, porque, para mim e para alguns denodados professores da História da Paraíba, nosso Patrono, volto a reivindicar, é um marco na Historiografia paraibana, com seu livro Epítome da História da Parahyba, terreno de caça ao passado, em que perambulo, já há algumas décadas.

Refletindo a posse de Arimatéa, encontrei-me no passado e no presente, frente a dois gigantes do direito e da política paraibana do começo do século XX e, mais importante, intra muros, aqui em nossa Casa de Academus, dois eminentes paraibanos, que exercem seus patronatos nesta Academia: Manuel Tavares Cavalcanti e Afonso Rodrigues de Souza Campos. Esta reminiscência que, aqui, pretendo levantar, mostra dois amigos, dois adversários políticos, que marcharam, até certo ponto, juntos, até que a morte ceifou aquele que se tornaria o maior jurista paraibano, da primeira metade do século XX, segundo meu entendimento e de muitos que já peroraram sobre sua memória, como Erverardo Luna e Joacil de Brito: o memorável Afonso Campos. (Por sinceridade, devo dizer que este artigo é um spoiler do meu livro, Perfil de Afonso R S Campos, a ser lançado, brevemente). Mais, ainda, se acrescentarmos que, além destes dois Patronos, um terceiro está envolvido, nessa amizade: trata-se de Assis Chateaubriand que, também, conviveu com os últimos dias de Afonso Campos: os três moraram juntos, no Recife, na virada do século XIX.

Quando o deputado estadual, Afonso Campos, precocemente, faleceu em 1916, na capital, aos 35 anos, lecionava no Lyceu, coube ao, também, brilhante professor, Manuel Tavares Cavalcanti, por sugestão do Lyceu Paraibano, proceder uma homenagem ao pranteado colega. Os dois já o eram, desde antes de os dois entrarem na Faculdade de Direito do Recife). Seu elogio fúnebre, intitulado In Memoriam, foi publicado pela Imprensa Oficial da Paraíba, em 1917.

Ninguém melhor, então, do que Manuel Tavares Cavalcanti para falar desse Afonso Campos, que chegara à capital paraibana, por volta dos 13, 14 anos, em 1895, trazido por seu pai Tenente-coronel, Silvino Campos. E lembrar que ambos tiveram de viajar de Campina Grande, com tropa, até a estação de Guarabira, então recém-inaugurada (1895) e tomado o trem para a capital. Tavares Cavalcanti os recebera no hotel de Vicente Montenegro. Começava para Afonso Campos, um traço de vida cosmopolita: um adolescente morando em um hotel e frequentando um externato. E, já, aí, diria Tavares Cavalcanti, em sua Memória: “Ah! Quando nos encontrávamos na peregrinação da vida, aos 13 anos de idade, éramos já políticos e já adversários (…) Eu, nascido de família conservadora (…) Affonso, oriundo de antigos liberais…”.

Tavares Cavalcanti, foi para o Recife, morar com a família do médico Dr. Francisco Chateaubriand Bandeira de Melo (pai de Assis Chateaubriand) e fazer a Faculdade de Direito. Em 1898, chega Afonso Campos, aos 17 anos, para entrar na Faculdade de Direito, ficando os dois hóspedes daquele bacharel paraibano do Cariri, junto com o jovem Assis Chateaubriand.

Voltando à Memória, Tavares Cavalcanti, diz que: “Em breve, o grande estudante paraibano, (Afonso Campos) patenteou o vigor assombroso de sua mentalidade. Alguns traços definem a característica desse tirocínio incomparável. Affonso prestava exame de segundo ano e como os lentes achassem que a arguição em Direito Internacional ia já muito prolongada de profunda, respondeu o provecto mestre Dr. José Vicente: ‘Deixe-me gozar mais uns momentos deste oásis, no meio desses desertos’”. Tanto que por sua erudição, recebeu dos colegas o apelido de Barão de Garófalo. Não só pela erudição do nobre e jurista italiano, mas por sua, também, precocidade em se formar em Direito.

Afonso Campos, formado, em 1902, laureado da turma e, com apenas 22 anos, foi nomeado promotor de Campina Grande. Dele, disse Tavares Cavalcanti: “Lógico, sem extremo, sabendo armar, com raro vigor, os dilemas e os silogismos, enfileirar as premissas e desentranhar as conclusões, tornou-se em breve o terror dos seus antagonistas do foro (…). Não tinha o verbo inflamado que arrebata multidões, mas a eloquência inflexível dos espíritos sólidos, com a frase espontânea, elegante e sóbria. Era um discutidor invencível.

Como deputado, mesmo combatendo o epitacismo, em 1913, o Presidente Castro Pinto o nomeou para a cadeira de Português, onde passaria dois anos e poucos meses, em cuja cadeira se impôs como profundo conhecedor da língua. Foi quando apresentou sua conferência A Moeda.

Segundo esta Memória, Afonso Campos ironizou sua própria morte, chamando Tavares Cavalcanti para perto de si, disse: ‘Veja em que estado se acha o Barão de Garófalo!’. Últimas palavras que me dirigiu o idolatrado companheiro”. Desaparecia, assim, do cenário político, depois do último discurso longo, na Assembleia estadual, que o estafou, bem como o anterior atentado de 1914, e da dura luta pelo Habeas Corpus, a favor da Câmara e Município de Campina Grande, contra o Governo do Estado. Grande Afonso Campos. Grande Manuel Tavares Cavalcanti. Por esta amizade, Assis Chateaubriand não esqueceria Campina, vindo a ser benemérito da cidade, com o Museu de Artes, da Furne. Um alagoa-novense, um campinense e um caririzeiro, de Umbuzeiro. Grande trinca!

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Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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