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Tardes, calçadas e crochês

Jurani Clementino. Publicado em 15 de setembro de 2018 às 10:47

Elas sentavam-se na calçada após os afazeres domésticos (especialmente ao terminar o almoço e arrumar a casa) e passavam a tarde conversando e trabalhando. Novelo de linha, agulha na mão direita e segurando a linha com a mão esquerda repetiam movimentos hábeis e iam tecendo as chamadas varandas de rede. Esse movimento, pouco a pouco, ia formando desenhos de animais, cachos de flores e frutos. Cada varanda concluída tinha dois metros e meio de comprimento e necessitava, para tal, de quatro novelos de linha. Para cada rede, um jogo de varanda, o que correspondia a um par. Era um trabalho delicado que exigia muita atenção porque quando se descobria um erro na formação do desenho da varanda se desfazia metade do trabalho e recomeçava novamente.

Concluído todo esse trabalho passava-se a colocar as chamadas “belotas” umas pontas de fio que serviam de babados e enfeitavam aquelas varandas coloridas. Só depois de todo esse esforço era que estava pronta para levar a encomenda a sua proprietária. Ganhava pouco com aquilo. Muitas vezes o suficiente para comprar o café e o açúcar que seriam adicionados a feira do mês. Cilene Augusto e Socorro de Néu foram as melhores crocheteiras que conheci. Elas eram vizinhas e aproveitavam para trabalhar juntas. As duas eram também, quem mais inovavam nos modelos das varandas. Recebiam as encomendas de uma senhora vendedora de rede que morava perto do mercado público de Várzea Alegre. Chamava-se dona Chica de seu Raimundo Leandro. Muitas vezes, Socorro e Cilene pegavam as encomendas e repassavam para as vizinhas e conhecidas da comunidade. Elas atendiam a prazos determinados por dona Chica, mas foram ficando tão especialistas nessa arte manual que concluíam o trabalho em questão de dias.

Aos poucos muitas mulheres ganharam gosto por aquela atividade, mas na verdade todas entraram nesse oficio das artes manuais por necessidade mesmo. Em busca de uma renda, por menor que fosse as filhas iam seguindo o mesmo caminho das mães. Fazer crochê passou a ser um trabalho familiar e, portanto, hereditário. Sempre foi também uma atividade feminina. Homem que se garantia não se envolvia com o crochê. Acredito que eles muito dificilmente teriam paciência com aquilo.

No final dos anos de 1990 quando, para concluir o Ensino Fundamental, tive que ir morar na cidade (Várzea Alegre – CE), e precisei residir na casa de uma tia, irmã de minha avó paterna, a arte das crocheteiras me perseguia. Tia Edite passava as tardes sentada na frente de casa, ali na rua Zé Felipe, fazendo crochê. Hoje entendo que foi uma maneira que ela encontrou para superar o tédio que devia ser, dividir aquela casa pequena com três netos e um sobrinho, todos adolescentes. Só de observa-la trabalhando, um dia peguei uma agulha e um novelo de linha e fiz as primeiras tranças. Meio sem jeito, mas fiz certo. Aos poucos construí também os primeiros buracos e depois desisti. Não tive paciência. Mas como andar de bicicleta, ainda hoje não esqueci e, quando encontro uma mulher fazendo crochê para varanda de rede, lembro nitidamente daquelas imagens sertanejas. Estão claras como o céu do sertão em período de seca e compõem um belíssimo quadro pintado a óleo por um artista que tentou representar aquelas tardes quentes, aquelas calçadas ocupadas e aqueles crochês coloridos.

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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