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Surubim das recordações

Ailton Elisiário. Publicado em 1 de novembro de 2016 às 10:27

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Por Ailton Elisiário (*)

A chegada a Surubim foi bem diferente. Para nela entrar tive que quase contornar a cidade trafegando na rodagem – era assim que chamávamos as BRs de hoje – até encontrarmos o giradouro que nos deu acesso à Chã de São Sebastião. A partir daí já as recordações começaram a pulular e a cidade a me tornar conhecida. Mas, não tal qual daquele tempo. Muita gente, muito tráfego, muitas construções novas, muitas lojas, enfim, um cenário bem diferente. As lembranças vinham como “flashes” na mente, ao ver um ponto, um prédio, um detalhe antigo.

O Grupo Escolar Ana Faustina onde estudei, hoje é escola estadual, com a frente totalmente modificada. Seu interior passando por reformas, um “ginasium” esportivo que não existia e a construção de mais salas de aula. Ao seu lado o Colégio Nossa Senhora do Amparo onde minha irmã estudou, com algumas modificações em sua frente, mas internamente, quase que totalmente alterado. Também um ginásio de esportes que não tinha, a pequena capela e a bondade da Irmã Auxiliadora que se desmanchou em atenções, fazendo minha irmã ir às lágrimas nas suas reminiscências daqueles bancos da escola.

No pátio da usina algodoeira de Seu José Leal a ausência do enorme pé de gameleira que dava uma gostosa sombra, o prédio dos Correios o mesmo, a casa que era dos meus avós Sossô e Sassá, o Hospital São Luís com a mesma entrada e o muro de cobogós intacto, o prédio antigo da loja de meu pai resistindo em frente à Praça Dídimo Carneiro, o prédio do Sport Clube com a mesma entrada, a casa no Largo da Paz onde vivi e fui umacriança feliz descaracterizada e desaparecidos o Cine-Teatro Capitólio de Seu Luiz Fonseca na esquina da minha rua e o Cine São José de Severino Guerra e José Nóbrega, a mercearia de meu cunhado Abelardo Medeiros, as alfaiatarias de Seu Miro e Seu Tiago, a padaria do meu tio Santo, o prédio do motor da luz e o açude São José de muitas histórias aterrado.

A antiga Igreja de São José onde fui batizado, feito coroinha e membro da Cruzada Eucarística sofreu um incêndio e no seu lugar foi erigida nova igreja, bem mais ampla e moderna. A anterior era voltada para a Praça de São José e esta é agora voltada para a rua Marechal Deodoro. A Praça São José foi diminuída e contém enorme estátua deste santo. A casa paroquial ao lado permanece a mesma, inclusive com o alpendre onde o Monsenhor Ferreira Lima conversava com os fieis sentado numa cadeira de balanço, cuja réplica tenho em minha casa.

Lembrei-me muito das minhas mestras Dolores e Celeste. Afora as lições da minha mãe, foram elas que me encaminharam ao mundo das letras, da história, da geografia. Elas não eram como o professor Nicolau que ensinava com uma vara ao lado, que caía na cabeça do meu irmão Hamilton e de seus colegas quando eles ficavam inquietos na sala de aula. Foi com elas que aprendi que um boi valente chamado Surubim, porque era pintado como o peixe e que teria sido morto por uma onça, deu nome ao povoado no Século XVIII e que hoje é esta cidade tão diferente e atraente. A prefeitura da cidade reconstruiu a estátua que representa uma onça devorando o boi Surubim, localizada no trevo rodoviário.

O poeta Silvio Romero em seu “”Romance do Boi Surubim” diz: “Nasceu um bezerro macho/ no curral da Independência/ filho de uma vaca mansa/ por nome de Paciência/ Quando o Surubim nasceu/ Daí a um mês se ferrou/ na porteira do curral/ cinco touros enxotou”. Daí a cantiga folclórica: “Meu boi nasceu de manhã, ô maninha/ Ao meio dia se assinou/ Às quatro horas da tarde, ô maninha/ Com quatro touros brigou”.

Lembrei-me de pessoas queridas, como do amigo Maurício, que juntos formamos uma dupla para cantar numa festa de rua a canção “Farinhada” de Luiz Gonzaga; do maestro Evaristo que regia a Filarmônica Cônego Benigno Lyra, na qual eu tocava trompa e os colegas ficavam mangando de mim porque eu não solava, já que o instrumento era de acompanhamento; do sacristão José Alexandre, que me deixava tocar o sino da igreja para anunciar o falecimento dos paroquianos e chamar os fieis para a missa; de Dona Severina de Toné, que fez meu parto e de tantos quantos lá nasciam, pois que era a parteira da cidade; de mestre Amaro, barbeiro que cortava os meus cabelos; dos médicos Apúlio Cavalcannti e Gentil Miranda; enfim, de tantas outras pessoas que já não estão entre nós, mas que continuam vivas em minha memória.

Surubim de ontem, Surubim de hoje. Velhas lembranças, novas emoções. Como é bom recordar, desde que as lembranças nos tragam saudades, nos transportem ao passado que nos fez viver com muitos sonhos dourados. Surubim, capital da vaquejada. Assim canta o Quinteto Violado em Vaquejada: “Doutor, venha ver Surubim/ A rua principal toda embandeirada/ É festa em Surubim, é dia de vaquejada”. Surubim para mim sempre foi festa. Jamais dela me esqueci. Mesmo longe dela, tanto no tempo quanto no espaço, Surubim está em minhas entranhas, em minha mente, em meu coração.

(*) Professor, membro da ALCG

 

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Ailton Elisiário

O autor é economista, advogado, professor da Universidade Estadual da Paraíba e membro da Academia de Letras de Campina Grande.

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