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Suplementação de iodo. Quem precisa?

Alberto Ramos. Publicado em 29 de janeiro de 2017 às 10:09

Por Alberto Ramos

Em medicina, nunca 2+2= 5

(Morgan Freeman – Dr. Norman) in Lucy.

Uma das coisas mais instigantes na ciência/arte da medicina é a sua imprevisibilidade. Quando o senso comum aponta para um lado e o que se observa é o oposto. No entanto, ao aprofundarmos o conhecimento, vemos que o fenômeno observado é perfeitamente explicado.

O entendimento melhora com um exemplo:

  1. O iodo é essencial para o funcionamento da tireóide. Sendo assim, quanto mais iodo a pessoa ingere, melhor a tireoide funcionará. Certo?

A afirmativa acima está parcialmente certa. Realmente o iodo é essencial.

O teor de iodo na alimentação de acordo com Organização Mundial de Saúde (OMS) e a American Thyroid Association (ATA) deve ser de 150 μg/dia para pessoas não grávidas. Na grávida e nas que planejam gestar nos próximos meses, é recomendada a quantidade de 250 μg/dia para mulheres que estejam planejando a gravidez, gestantes e lactantes.

Os que estudamos fisiologia da tireóide sabemos que quase a totalidade das pessoas apresentam uma resposta orgânica chamada de efeito de Wolff-Chaicoff e algumas delas com resistência ao escape, sendo assim sujeitas ao hipotireoidismo quando da ingesta excessiva de iodo.

Mais um parêntese.

O efeito Wolff–Chaikoff, descoberto pelos Drs. Jan Wolff e Israel Chaikoff, é uma diminuição da produção de hormônios tireoidianos causada pela ingestão de grandes quantidades de iodo. O efeito, na maioria das pessoas dura poucas semanas seguindo-se de um “fenômeno de escape”, que é descrito como uma retomada do funcionamento da tireoide, sendo eventualmente exagerado podendo causar hipertireoidismo.

Algumas pessoas têm sensibilidade maior ao escape, permanecendo hipotireoideas durante todo o tempo em que o excesso de iodo é administrado.

Por conta disto, principalmente na gestante, deve ser evitada a ingesta maior que 500 -1000 μg/dia assim como doses farmacológicas de iodo.

Somente pessoas que habitem locais longe do litoral sem acesso a alimentos ricos em iodo devem fazer reposição do mesmo.

O déficit crônico de iodo provoca uma doença chamada de bócio endêmico. A maioria da população destes locais tem hipotireoidismo, incluindo os recém-nascidos. O resultado para a capacidade cognitiva é catastrófico.

Como é a situação do Brasil?

Um estudo realizado em 2001, mostrou que entre nós não existe deficiência em nenhum local do país. Mesmo estados que antigamente apresentavam índices altos de bócio endêmico (oeste de Minas, Goiás, Rondônia, etc., hoje estão adequadamente providos de iodo.

No mundo ainda existem alguns locais ainda com dieta muito pobre em iodo (algumas regiões da Índia, China e alguns países da África).

Nestes locais, algumas gotas de solução de iodo fazem uma enorme diferença.

O motivo destas mal traçadas é que ultimamente tenho recebido pacientes, principalmente grávidas, com prescrição de suplementação de vitaminas, iodo, uma coisa chamada de hormônios bioidênticos e uma porção de elementos e substâncias das quais não precisamos uma vez que a nossa alimentação, exceto em raros casos, já nos fornece a quantidade necessária. Nunca vi uma dessas prescrições feitas por endocrinologistas. A maioria, vem de outros especialistas e outros profissionais da saúde. Eles se denominam “holísticos” e que têm a mania ou a crença (já que não existem evidências) de repor tudo que não precisamos.

Poderia ser apenas mais um supérfluo, coisa tão comum na modernidade.

Em tese o supérfluo agride apenas o bolso.

No entanto, a maioria dessas prescrições , são potencialmente iatrogênicas.

Um pequeno parêntese para tradução de alguns termos:

Uma evidência científica é o conjunto de elementos utilizados para suportar a confirmação ou a negação de uma determinada teoria ou hipótese científica. Para que haja uma evidência científica é necessário que exista uma pesquisa realizada dentro de preceitos científicos – e essa pesquisa deve ser passível de repetição por outros cientistas em locais diferentes daquele onde foi realizada originalmente (Fonte: Wikipédia).

Iatrogenia refere-se a um estado de doença, efeitos adversos ou complicações causadas por ou resultantes do tratamento médico.

De acordo com o exposto, a primeira pergunta está parcialmente respondida.

Iodo em excesso, pode PIORAR a função tireoideana.

Como já foi falado, no Brasil não precisamos repor iodo.

A recomendação das principais sociedades de cardiologia e da Organização Mundial da Saúde (OMS) é de 2 g de sódio ao dia o que equivale a 5 g de sal de cozinha. De acordo com alguns estudos, o brasileiro ingere em média 12g de sal por dia.

É muito!

E se a pessoa seguir as recomendações e usar apenas 5g de sal, é possível que ela desenvolva deficiência de iodo?

Vejamos.

No Brasil, o teor de iodo no sal de cozinha varia de 15 a 45 mg/Kg de sal.

Vamos supor que esta pessoa só encontre sal com a menor concentração. O cálculo é feito através de uma regra de 3 simples:

X = 5.000 x 15 / 1.000.000 (todos transformados em mg);

X = 0,075 mg

X = 75 μg

Então, uma pessoa que tenha dieta hipossódica, só encontrando no mercado o sal com menor teor de iodo, vai consumir só no sal, 75 μg/dia.

Se analizarmos o teor de iodo dos alimentos comumente usados, veremos que se a mesma se alimentar de um copo de leite (56 μ) + duas fatias de pão (45 μg) + um ovo (12 μg) = 113μg que somado aos 75 μg dá um total de 188 μg. Ou seja, no café da manhã, a quantidade de iodo necessária já foi ingerida.

E se a pessoa estiver gestante ou amamentando?

No almoço a pessoa come duas conchas de feijão (32 μg) + peito de peru (60 μg) de sobremesa uma banana (3 μg).

Até o almoço a nossa gestante já ingeriu 208 μg de iodo.

No jantar ela pode escolher entre uma posta de bacalhau (85g fornece 99 μg de iodo) ou peixe do mar (na maioria duas postas fornecem 35 μg) ou camarão (85 g fornecem 35 μg).

Se a este total somarmos o iodo do comprimido do polivitamínico mais usado pelos obstetras (150 μg) e os outros alimentos, veremos que a quota de 500 μg/dia está muito perto de ser alcançada pela imensa maioria das grávidas.

Desta forma, prescrever gotas de iodo para quaisquer pessoa e principalmente para gestantes hígidas é erro médico.

Pode bloquear a função da tireoide e prejudicar o feto.

Sendo assim, profissionais de saúde, parem de prescrever iodo para quem não precisa. Vocês estão cometendo uma iatrogenia potencialmente grave.

Pessoas. Não embarquem nesse modismo instituído por profissionais incompetentes.

Leituras recomendadas para os que desejarem se aprofundar no assunto:

  1. Sobre a legislação brasileira no que se refere ao teor de iodo no sal de cozinha – http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/anvisa/2013/res0023_23_04_2013.html

  2. Sobre a pesquisa para avaliar se a dieta do brasileiro tem a quantidade de iodo necessária:

    1. Rossi A.C., Tomimori E., Camargo R., Medeiros-Neto G. Searching for Iodine Deficiency Disorders in Schoolchildren from Brazil: The Thyromobil Project. Thyroid, 2001.

  3. Sobre a quantidade de iodo nos alimentos – http://www.mundoboaforma.com.br/22-alimentos-ricos-em-iodo/

  4. Sobre as recomendações da American Thyroid Association:

    1. Stagnaro-Green A et al. Guidelines of the American Thyroid Association for the Diagnosis and management of Thyroid Disease During Pregnancy and Postpartum. Thyroid. 2011.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

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Alberto Ramos

Médico endocrinologista, professor do curso de medicina da UFCG, preceptor da pós-graduação do HUAC/UFCG e chefe da Unidade de Endocrinologia e Diabetes Professor Bezerra de Carvalho do HUAC.

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