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Somos trigo e joio misturados

Padre José Assis Pereira. Publicado em 22 de julho de 2017.

Por Padre José Assis Pereira

Nos evangelhos encontramos várias parábolas, Jesus falava utilizando imagens e situações da vida quotidiana, para fazer-se entender melhor pelas pessoas que o seguiam. A parábola está em forma de história imaginada, cheia de imagens, símbolos e metáforas para levar-nos a ver o mundo e a vida através do olhar de Deus.

Depois da parábola do semeador e da semente (cf. Mt 13,1-23) do último domingo, seguem-se hoje três parábolas (cf. Mt 13,24-43): a do trigo e do joio, a do grão de mostarda e a do fermento na massa.

Particularmente a parábola do joio e do trigo é um ensinamento sobre a existência do mal e sobre sua origem. O homem, em um determinado momento, descobre que no campo da vida está o mal e se pergunta como comportar-se em relação a ele. Mas como saber qual será a atitude justa se não sabemos de onde provém o mal? Já os primeiros capítulos do livro do Gênesis se ocupam deste problema. Então não nos espanta se também Jesus seja confrontado com a questão da origem do mal. Ele a propõe a seu modo, com uma parábola, uma simples imagem.

A cena desenrola-se num campo onde um homem lança a boa semente; mas certa noite, enquanto todos dormiam, veio seu inimigo e semeou o joio, portanto há dois semeadores: O Espírito de Deus e o maligno que semeiam duas sementes; o trigo e o joio, num mesmo campo.

O campo semeado é o mundo, mas também é a vida de cada um de nós, é o coração humano. É a terra sobre a qual pode crescer o bem e o mal. O joio existe, mas eu sou responsável por deixar que ele cresça. Só Jesus é o verdadeiro trigo. Todos nós somos joio e trigo. Ora, o bem e o mal estão muitas vezes estreitamente juntos e misturados. Devemos ser conscientes de que a mistura do trigo e do joio não se realiza somente no interior de cada um de nós, mas também no espaço da sociedade, da comunidade ou da Igreja. Isto tem suas consequências. Na medida em que cada um de nós formos mais críticos e responsáveis consigo mesmos, seremos mais compreensivos com a conduta dos outros.

Um dos pontos principais do ensinamento da parábola é a presença do semeador do mal junto do semeador da boa semente. Onde Deus semeia também o diabo, o inimigo semeia. A origem do mal não é Deus, mas o seu inimigo, “o maligno”. É curioso, o inimigo sai à noite, para semear o joio, na escuridão, enquanto todos dormem; sai pra semear o joio onde não há luz. Esse inimigo é astuto: semeou o mal no meio do bem, de tal forma que para nós, é impossível separá-lo claramente, mas só Deus no final conseguirá fazê-lo!

Todos os autores cristãos estão convencidos de que o homem é essencialmente bom. Se se encontra nele alguma má inclinação, esta chega de fora. Temos de proteger-nos da enganação do maligno, pois suas armas preferidas são precisamente mentiras com aspecto de verdades, tecidas especialmente por nós mesmos, com parte do material mal que temos dentro de nós mesmos. Jesus nos avisa desse perigo e sua proposta é aprender do homem da parábola: “Quando os empregados lhe perguntaram: Queres que vamos arrancar o joio? O dono respondeu: Não! Pode acontecer que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo. Deixai crescer um e outro até a colheita!” (vv. 28-29)

Todos somos trigo e joio misturados. A presença do joio ou do mal em nós mesmos, a presença do outro entre nós, ajuda-nos a exercitar a paciência, a misericórdia e a tolerância de Deus em nós. Isso custa-nos, obriga-nos a ver o outro em sua totalidade. Nossa visão é muito seletiva: ou vemos uma pessoa como muito boa, extraordinária ou vemo-la totalmente má. A sociedade, os meios de comunicação, as redes sociais, a internet quer nos obrigar a focar nosso olhar para o joio, para o que é mal no mundo, parece que só existe maldade neste mundo. Há uma apetência para vermos somente o mal, mas no mundo há muito trigo.

Portanto, o reconhecimento da existência do joio, do mal, não significa nada mais que a constatação de que o mal existe. Como posso querer arrancar o joio dos outros, se está tudo misturado? Além do mais, somos terra fértil para o mal crescer, não podemos apenas culpar os outros.

“Deixai-os crescer juntos, trigo e joio até a colheita”. (v. 30) Há uma oposição entre a impaciência dos empregados e a espera paciente do dono do campo, que representa Deus. Às vezes temos uma grande pressa em julgar, classificar, separar, pondo de um lado os bons e do outro os maus. Mas a seleção entre quem é bom ou mau só terá lugar no momento da “ceifa”, imagem clássica do “juízo final”.

“No tempo da colheita, direi aos que cortam o trigo: arrancai primeiro o joio e amarrai-o em feixes para ser queimado! Recolhei, porém, o trigo no meu celeiro!” (v.30) “Joio e trigo, só o trigo faz o pão” (José Saramago), portanto, a parábola pretende conter o excesso de zelo e intolerância na instauração do Reino de Deus. Para penetrar neste campo de grandeza e miséria, só o Espírito de Deus pode vir em nosso auxílio. Deus sabe esperar, Ele olha para o “campo” da vida de cada pessoa com paciência e misericórdia: vê muito melhor do que nós a sujeira e o mal, mas vê também os germes do bem e espera com confiança que eles deem frutos e amadureçam. “Deus é paciente, sabe esperar. Como isto é bom! O nosso Deus é um Pai paciente que nos espera sempre, que nos aguarda com o coração na mão para nos receber e perdoar. Perdoa-nos sempre se formos ter com Ele”. (Papa Francisco)

Imitemos a paciência de Deus. O plano de Deus não prevê a destruição do pecador, a segregação dos maus, a exclusão dos culpados. Mas atenção: a paciência evangélica não é indiferença diante do mal; não se pode fazer confusão entre o bem e o mal! Perante o joio presente no mundo, o discípulo do Senhor é chamado a imitar a paciência de Deus, alimentar a esperança com o alento de uma confiança inabalável na vitória final do bem, ou seja, de Deus.

 

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Padre José Assis Pereira

* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

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