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Somos surdos por conveniência

Padre José Assis Pereira. Publicado em 8 de setembro de 2018 às 8:47

Os surdos que ouvem, os mudos que falam, os cegos que recuperam a vista são sinais da chegada do Messias repetidos pelos profetas do Antigo Testamento. Há pouco mais de dois mil anos apareceu neste mundo o Messias e depois de tantos séculos da sua chegada para curar os surdos continuamos com os ouvidos bem fechados ou surdos por conveniência.

No Evangelho de São Marcos (cf. Mc 7,31-37) é descrito, com grande abundância de pormenores, uma das curas de Jesus. Ele em suas andanças, atravessando o território estrangeiro da “Decápole” (grupo das dez cidades, ao oriente do Jordão, na atual Jordania), cura uma pessoa incomunicável e isolada devido a sua surdez. No centro da cena está Jesus e o surdo-mudo. Aparentemente, não é o surdo-mudo que tem a iniciativa de se encontrar com Jesus, “trouxeram-lhe um surdo que gaguejava, e rogaram que impusesse as mãos sobre ele”. (v. 32) O surdo-gago, acomodado, não sente necessidade de se abrir. É preciso que alguém o traga e o apresente a Jesus. É esse o papel da comunidade cristã. Os que já descobriram Jesus, que se deixaram transformar pela sua Palavra, que aceitaram segui-lo devem dar testemunho, anunciar sua fé, sua experiência e desafiar outros para o encontro libertador com Jesus.

Jesus “levando-o a sós para longe da multidão” (v. 33), realiza gestos significativos: mete-lhe os dedos nos ouvidos e com saliva toca-lhe a língua. “Depois, levantando os olhos para o céu, gemeu, e disse «Effatha»” (v. 33-34). Jesus não quer despertar um entusiasmo cego e fomentar o sensacionalismo nas multidões por isso retira o surdo-gago da multidão curiosa. Esta serie de gestos simbólicos dão a todo o processo de cura uma solenidade especial. Por outro lado, são sinais necessários para Jesus comunicar-se com o surdo. A liturgia batismal recolheu estes gestos de Jesus, com os quais reconhece que toda pessoa deve ser aberta por Deus para a escuta da Palavra e ao mistério de Cristo.

Marcos conservou em seu original arameu a palavra de Jesus ao surdo mudo “Effatha” (abre-te). Também esta palavra passou à liturgia do sacramento do Batismo. Tanto Jesus como a Igreja, dirige esta palavra às pessoas, para que se abram à comunicaç​_ão e se disponham a receber o Evangelho. Nem o milagre de Jesus nem o rito sacramental batismal são ações mágicas que atuem em virtude de uns gestos determinados e graças ao poder de uma fórmula. Não são os gestos de Jesus que curam o surdo mudo, e sim sua palavra. Depois que Jesus ordenou ‘Abre-te!’ é que seus ouvidos se abriram e sua língua se soltou, e ele começou a falar sem dificuldade (v. 35). Com isso Marcos desmitiza a ação de Jesus. Ele não é um mágico. Só sua palavra liberta e reintegra, e as pessoas não precisam de rituais ou de magia para abrir os ouvidos e anunciar que ele é o Messias.

Este episódio, narrado por Marcos tem íntima sintonia com a profecia de Isaías (cf. Is 35,4-7a) que é um convite à comunicação da esperança aos israelitas oprimidos no exílio, que estavam como que surdos e mudos porque fecharam os ouvidos àquilo que o Senhor lhe queria transmitir e mesmo quando escutavam, eram incapazes de comunicar aos outros: “Vede, é vosso Deus, é a vingança que vem, é a recompensa de Deus; é ele que vem para vos salvar. Então se abrirão os olhos dos cegos, e se descerrarão os ouvidos dos surdos. O coxo saltará como um cervo, e se desatará a língua dos mudos…” (vv. 4-6a) Estas promessas começaram a cumprir-se com a vinda de Jesus. Assim Marcos faz a seguinte constatação: Jesus é aquele que, anunciado em Isaías, abre agora os ouvidos e a boca do homem, para que possa testemunhá-lo. Jesus é efetivamente o Deus que veio ao encontro das pessoas, a fim de libertá-las da surdez, e de tudo que impede à relação, o diálogo, a comunhão com Deus e com os irmãos.

“Abre-te!” É um convite aos homens e mulheres de hoje, surdos, fechados no seu mundo pessoal. Nossa geração é surda… A surdez, mal físico, torna-se, na mensagem evangélica, mau moral, pecado. A surdez como pecado é a de homens que não ouvem outros homens, seus irmãos. Porque seus ouvidos estão tapados pelos ídolos do poder, da riqueza, do saber. Porque já não sabem senão ouvir a si mesmos e aqueles que não os inquietam. Ou porque aqueles que sofrem injustiça não podem se fazer ouvir; não têm voz.

“Abre-te!” é uma palavra tão simples e na realidade muito perigosa. Como diz o dicionário, abrir é descerrar, é dar acesso, comunicar, criar, expandir, fazer com que o que está fechado não o fique mais. Isto é óbvio, mas igualmente cheio de consequências! Se a linguagem, a palavra é um meio privilegiado de comunicação, o surdo-mudo é um homem que tem dificuldade em estabelecer laços, em dialogar, em se comunicar. O encontro com Jesus transforma radicalmente a vida desse homem, Jesus abre-lhe os ouvidos e lhe solta a língua, tornando-o capaz de se comunicar.

Este surdo curado por Jesus representa toda pessoa que vive fechada aos projetos e aos desafios de Deus, ocupada em construir a sua vida de acordo com esquemas egoístas, de auto-suficiência, que não precisa de Deus nem das suas propostas. Homens e mulheres que já nem gastam tempo em negar a existência de Deus; limita-se a ignorá-lo, surdos aos seus desafios e às suas indicações.

O surdo e que fala com dificuldade representa também toda a pessoa que não se preocupa em se comunicar, em dialogar, em se deixar interpelar pelos outros. Define a atitude de quem não precisa dos outros para nada, de quem vive instalado em suas certezas e nos seus preconceitos, convencido de que é dono da verdade. Define a atitude daquele que não tem tempo nem disponibilidade para o outro; a atitude de quem não é tolerante, de quem não consegue compreender os erros e as falhas dos outros e não sabe perdoar.

Somos surdos quando escutamos os gritos dos injustiçados e fingimos não ouvir; somos surdos quando toleramos e apoiamos pessoas e estruturas que geram injustiça, miséria, sofrimento e morte; somos surdos quando pactuamos com valores que tornam a pessoa mais dependente; somos surdos quando encolhemos os ombros, indiferentes, ante à violência, à fome, à corrupção, à infame desigualdade social; somos surdos quando temos vergonha de testemunhar os valores que acreditamos; somos surdos quando nos demitimos das nossas responsabilidades e deixamos que fossem outros a comprometerem-se e a arriscarem-se; somos surdos de conveniência, quando calamos a nossa revolta ou indignação, não querendo ser molestados; surdos pelo medo, ou covardia, somos surdos quando nos resignamos a vegetar no nosso confortável sofá, sem nos empenharmos na construção de um mundo ou sociedade nova. Uma vida assim comodamente instalada nesta “surdez” não vale a pena ser vivida.

“Abre-te!” Jesus veio abrir-nos ao diálogo, à comunicação e à relação com Deus, ao amor dos irmãos, ao compromisso com o mundo. Quem adere a Cristo e quer segui-lo deve abrir-se, não pode viver fechado a Deus e ao mundo. Tenhamos os ouvidos bem abertos ao que o Senhor nos pede.

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Padre José Assis Pereira

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