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Sobre viver a distância e os sentimentos de ausência a presença

. Publicado em 2 de novembro de 2018 às 12:44

No último domingo, repetindo um gesto que mantenho há alguns anos, me dirigi até uma seção eleitoral, aqui no bairro onde moro, em Campina Grande, para justificar o meu voto. Foi um dia longo, tenso e angustiante. Já passava das três da tarde quando criei coragem para cumprir a minha obrigação como cidadão brasileiro.

Chegando ao local de votação e encaminhado até uma das salas, preenchi o formulário de justificativa do voto, o mesário, percebendo que eu era do Ceará, me perguntou, um tanto curioso, há quanto tempo eu morava em Campina Grande. Quis dizer que já fazia 17 anos, mas achei melhor, diante das circunstâncias daquela tarde de domingo, omitir o dezessete. Falei que morava na Paraíba há 16 anos. Então ele perguntou mais assustado ainda: E você ainda pensa em voltar pra lá?

Nessa hora fui eu quem me assustei e surpreso com a pergunta nem soube responder. Mas depois fiquei matutando comigo mesmo. Ora, estou há quase 20 anos num lugar e ainda não me sinto seguro o suficiente para transferir o título de eleitor. Foi aí que reconheci o migrante que habita em mim e em muitos dos cearenses que saem de sua terra natal.

O desejo do retorno é, de fato, a condição de existência dos migrantes. Por exemplo, quando realizei a minha pesquisa de doutorado com varzeealegrenses em São Paulo, ouvi muitas histórias de gente que havia deixado Várzea Alegre há décadas e alimentavam, ainda, cotidianamente, o desejo de retornar.

Percebi também que muitas vezes essa vontade de retornar se traduz em investimentos materiais, sociais e simbólicos como, a construção de casas, a aquisição de animais: gado, porco, ovelhas, etc… Isso tudo alimenta essa presença do migrante na origem e dão uma expectativa de um possível retorno.

A condição provisória do migrante faz com que ele também adquira pequenos pedaços de terra, geralmente na cidade (zona urbana) para construir uma casa, compre veículos automotores (carros ou motos) e deixe-os aos cuidados da família: pais, irmãos e tios.

Quando eu perguntava e tua casa lá no Ceará, tem alguém morando? Eles respondiam: “meus pais tão olhando”. Para os pais desses migrantes, “olhar” tais construções significa muito mais que olhar – é o mesmo que cuidar, zelar, administrar, já que os filhos estão ausentes. Contudo essa ausência física contrasta com a presença simbólica daquelas residências ali construídas.

Elas transmitem a ideia de que os filhos e seus netos, mais cedo ou mais tarde retornarão. Até mesmo quando os parentes desconfiam dessa volta definitiva, reforçam a ideia de que ela possa acontecer um dia: “Eu sei que ele não vem cuidar dessas coisas que ele tem aqui, mas se um dia vier, quero que encontre tudo bem direitinho”. A casa simboliza essa condição provisória do migrante que vai se prolongando indeterminadamente

Há também aqueles que retornam para seu lugar de origem, mais que não sabem administrar os sentimentos de ausência e presença. No documentário “Peões” (2002-2004), o cineasta Eduardo Coutinho esteve em Várzea Alegre e conversou com alguns desses migrantes que trabalharam nas fábricas e empresas metalúrgicas de São Paulo entre os anos de 1970 e 1980. Veja o que disse um deles sobre esse estranho sentimento de estar entre dois mundos, geograficamente longes, simbolicamente pertos.

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Coutinho: mas o senhor mora aqui e não em São Bernardo…

Joaquim: Não, eu não moro aqui. Eu tô passando uns dias aqui. Porque é como se diz, eu nasci e cresci aqui, mas eu não posso deixar São Bernardo, onde tudo que passou de importante em minha vida foi em São Bernardo. Então eu não troco São Bernardo por nada.

Coutinho: Veio passar uns dias aqui?

Joaquim: Tô passando uns dias aqui.

Coutinho: Chegou quando?

Joaquim: Faz quatro anos.

Coutinho: Como assim, uns dias?

Joaquim: Não, mas uns dias pra mim é assim, enquanto dá certo.

Coutinho: Quatro anos!

Joaquim: Mas em quando em vez a gente pega um aviãozinho… eu cheguei de lá o mês passado.

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Resumindo: a pergunta daquele mesário me fez pensar sobre a maneira como alimentamos a ausência na presença e presença na ausência. Não transferir o título e até fazer o cadastro biométrico em Várzea Alegre, inconscientemente foi uma forma que eu encontrei para dizer pra mim mesmo e talvez pra minha família que eu volto nas eleições para votar. Mesmo sabendo que ao longo dos últimos 17 anos não me recordo de ter retornado duas vezes em Várzea Alegre em períodos eleitorais.

Jurani Clementino

Campina Grande – quarta-feira 31 de outubro de 2018

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