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Sobre a fome no Brasil

Arlindo Pereira de Almeida. Publicado em 15 de janeiro de 2018 às 9:34

Por Arlindo Pereira de Almeida (*)

É inadmissível aceitar que o quarto produtor mundial de alimentos, abaixo de Estados Unidos, China e Índia, o Brasil ainda apresente um degradante panorama de pessoas afligidas pela fome, contrastando com nossa posição de 2º exportador mundial desses bens indispensáveis.

Com efeito, para uma população de aproximadamente 207 milhões de habitantes, mais de sete milhões, segundo estatísticas confiáveis, são afetados pelo problema da fome em nosso país.  A explicação mais simples é que esse estado de coisas tem dois motivos principais: a desigualdade da distribuição da renda e o desperdício.

O desperdício, num sentido amplo, são as perdas no armazenamento,13,3% no transporte rodoviário, 9% nos portos, e 8,8% no ferroviário. Segundo a FAO cerca de 30% do que é plantado no Brasil nunca chega ao consumidor. E isso se cristaliza no perverso processo de encarecimento dos custos, transferido para os preços.

Somente nos supermercados brasileiros estima-se que mais de R$ 7 bilhões o valor dos alimentos jogados no lixo em 2016. Se a isso for acrescentado o que se perde nas feiras livres e nos mais diversos meios de comercialização, não é exagero pensar em algo na faixa dos R$ 20 bilhões/ano.  A quantidade de alimentos jogados fora diariamente seria suficiente para alimentar mais de 75% das pessoas que passam fome.

Só como exemplo: a estimativa é que no Brasil jogamos fora mais do que comemos. Em hortaliças para um consumo de 35 quilos por habitante, desperdiçamos 37 quilos.

Uma eficiente cadeia de movimentação dos alimentos por nós produzidos, é indispensável para a diminuição das perdas, e, consequentemente dos preços. E essa cadeia de movimentação compreende tanto os Governos, responsáveis pela infraestrutura de transportes, como indivíduos e empresas que comercializam os produtos de primeira necessidade.

Mas nunca é ocioso salientar que os nossos sistemas de transportes de bens é dos mais incoerentes do mundo. Privilegiamos o transporte mais caro, o rodoviário, ao tempo que as nossas estradas são o mais completo exemplo do caos e as ferrovias são abandonadas.

Mas não são os governos os únicos responsáveis por essas coisas. As empresas têm sua parcela de culpa, seja por condições inadequadas de armazenamento tanto nos supermercados, lojas menores e feiras livres, como nos restaurantes e lanchonetes que ainda estimulam as pessoas a se servirem mais do que é necessário.  Daí a ironia da riqueza dos alimentos desses estabelecimentos acumulados ao fim do dia ou da noite nos depósitos que enfeiam as ruas pela madrugada, à espera do caminhão do lixo.

Uma boa saída, mas não a única, seria a prática da doação de alimentos, pouco utilizada em nosso país. Mas, sem entrar no mérito nem ser contra,  a legislação brasileira é muito rigorosa quanto a esse tipo de iniciativa humanitária, pois confere ao doador a responsabilidade pelos eventuais danos ocasionados pelo produto.

 Seria necessário, pois,  que políticas públicas coerentes fossem instituídas para: 1º – diminuir as perdas na produção e no transporte até os pontos de consumo; 2º – preparar as pessoas que trabalham nesses segmentos quanto às boas práticas de manuseio e preparação de alimentos; 3º educar os consumidores em geral, a partir de suas casas e das escolas,  quanto à gravidade do desperdício, estimulando a reutilização e o aproveitamento integral dos alimentos, diminuindo as consequências econômicas das perdas.

Finalmente, o mais importante.

Os que passam fome não o fazem por uma recomendação médica quanto aos perigos da obesidade. O problema mesmo é falta de renda, fantasma que assombra grande parte da população e que não tem sido, efetivamente, colocado em primeiro plano. Os que dizem falar em defesa do povo, em tom professoral, são os mesmos nababos que ganham mais no serviço público e que tentam envolver o cidadão na sua luta pessoal pela preservação dos privilégios. A estes se juntam os detentores de alta renda. Esquecem-se todos dos seus deveres de cidadania, pouco preocupados com as consequências da má distribuição de renda num país tão rico em recursos materiais e tão pobre em humanidade.

Segundo dados das Nações Unidas, o Brasil é o décimo país mais desigual do mundo, ficando emparelhado com a Suazilândia, na África.

Na gíria popular:  Dá para nós?

(*) Economista

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Arlindo Pereira de Almeida

Economista.

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