Sob crônica influência de Gonzaga Rodrigues

Vanderley de Brito. Publicado em 19 de fevereiro de 2019 às 12:22

Através da vidraça posso ver, entre os edifícios e casarões, um denso vapor atmosférico ancorado por sobre a Serra de Massaranduba, deve estar chovendo naquela cidadezinha. Entreabro a janela e o vento penetra silvando, como o espectro de uma “cumade flozinha”, mas não chove por aqui, é só lá mesmo. Será que aquela isolada chuva adiante é o atendimento específico de alguma prece fervorosa?

Com minha habitual caneca de café matinal ocupo o sofá e abro o jornal. Vou folheando desinteressadamente até estacionar numa crônica de Gonzaga Rodrigues. Contemplo de novo a cortina de linhas raiadas de sombra que converge somente para a cidade de Massaranduba e depois retomo o olhar para o jornal, encruzo a perna, dou um gole no café fumegante, que embaça meus óculos, e começo a leitura:

Rua da República, Gonzaga arfando enquanto sobe a velha rua. Para ser sincero, nem sei onde fica essa rua, deve ser em João Pessoa. Ah é sim, ele fala aqui do coreto do Pavilhão do Chá, me localizei geograficamente, finalmente, já ia desistir de ler o resto. Agora, Gonzaga menciona que sentou num banco despercebidamente entre duas ou três mulheres profissionais do sexo. Parei a leitura, olhei de novo pela vidraça, está chovendo muito lá em Massaranduba, então pensei comigo: eram duas ou três as meretrizes que estavam com Gonzaga? Não era muita coisa para contar, se fossem duas ou três eu saberia ser específico, agora se fosse dez ou quinze… calma aí, se fossem dez ou quinze ele estaria era num cabaré e não no Pavilhão do Chá.

Acendo um cigarro e fixo o horizonte de Massaranduba, que continua eclipsado por uma nuvem cinza, cenário pictórico. Engraçado, só chove lá, é como se o prefeito a tivesse encomendado para alegrar seus eleitores, pois a infelicidade não vem como a chuva, ela é provocada por aqueles que tiram algum proveito dela, foi Brecht quem escreveu isso. Mas, voltemos ao texto: Gonzaga agora aumentou seu elenco, somou um casal à história, um casal que estava mais adiante e apontava com espanto para a beleza do Pavilhão sem explicação para seu desuso. Apontava com espanto? Não entendi, deve ser sutilezas do gênero crônica, pois Gonzaga escreve com argúcia. Aí vem um conversê danado, um diz uma coisa, outro diz outra e o elenco cresce, aparece um visitante, um defensor (público?), e até as quengas se metem na conversa, tudo por causa do Pavilhão do Chá que, com toda sua eloquência, não era aproveitado para fins turísticos.

Poder-se-ia até supor que Gonzaga, exausto porque subira a ladeira da Rua da República, também se impacientou com aquele palpiteiro de gente desocupada, até que o desconhecido defensor (público?) sugeriu erguer um gradil em volta do Pavilhão para valorizá-lo e protegê-lo contra malfeitores. Então levantei a vista de novo para Massaranduba, onde a nuvem acinzentada insistia em se concentrar, e pensei comigo: será que o prefeito de Massaranduba teria mandado fazer um gradil em volta da cidade para isolar a chuva por lá?

Bobagem minha, a leitura está influenciando meus pensamentos. Mas bem que essa chuva podia vir pra Campina, está um calor de rachar aqui, aliás, de uns três anos para cá minha Rainha da Borborema vem ficando cada vez mais quente, deve ser esse mundo de edifícios novos afugentando a brisa. Mas vamos voltar à crônica de Gonzaga que agora evoca do fundo da mente o saudosismo dos bons tempos em que o Pavilhão do Chá era um local de festas, sorvetes, conversas e chope. Não fala em chá, por que será então que o logradouro se chama Pavilhão do Chá? Bom, isso ele não disse, nem a título de et cetara, mas seria bom ouvir. A propósito, “Foi bom ouvir” intitula e conclui a crônica, frase alusiva a satisfação do cronista pela perspectiva de cercar o Pavilhão do Chá com um gradil para transformá-lo em uma promissora atração turística.

Levanto a vista e percebo que a chuva em Massaranduba dissipou, como mágica. O mundo é um prodígio inesgotável. O horizonte está límpido, é possível ver toda a linha de contorno da serra, o casario longe, com seus telhados, e até a antena de transmissão, delgada pela distância. Curioso. Para onde foi a chuva? Imagino que subiu, deve ter ido para as bandas de Alagoa Nova, que é a terra natal de Gonzaga Rodrigues. Que coisa! Olha aí o casamento de duas perspectivas influenciando meus pensamentos de novo!

Share this page to Telegram

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Mais colunas de Vanderley de Brito
Vanderley de Brito

Historiador, Arqueólogo, Presidente do Instituto Histórico de Campina Grande e membro fundador da Sociedade Paraibana de Arqueologia.

[email protected]

Arquivo da Coluna

Arquivo 2018 Arquivo 2017 Arquivo 2016 Arquivo 2015

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube