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Campina Grande - PB

SMCG 75 ANOS

05/11/2016 às 11:04

Fonte: Da Redação

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Por Alberto Ramos

Nestes 75 anos de vida, a Sociedade Médica de Campina Grande (SMCG) tem protagonizado alguns momentos na história de Campina Grande que merecem ser registrados nesta comemoração.

Aviso que usarei a sigla SMCG ao invés de Associação Médica de Campina Grande que nos foi imposto pela AMB.

Como exemplo de protagonismo, cito o papel da SMCG nas primeiras décadas de sua existência. Naquele tempo, atualização na profissão médica era extremamente difícil.

Os mais novos, pensem em um mundo sem internet, sem celular, com passagens aéreas extremamente caras. Parece incompatível com a vida, mas era assim.

Apesar da pujança da economia de Campina Grande, a cidade, em termos de cultura médica, ainda estava na periferia da periferia.

Para o médico se atualizar eram necessários sacrifícios extremos. Congressos eram muito raros no Brasil. Periódicos brasileiros, raríssimos; estrangeiros caríssimos.

A SMCG, além de promover reuniões científicas semanais, trazia por sua conta, colegas eminentes de outras cidades com a medicina mais avançada, para aqui atualizar os médicos locais.

A partir da década de 80 quando Luciano Wanderley e nosotros assumimos, o protagonismo mudou.

Melhor dizendo, acrescentou.

Além de continuarmos a educação continuada, passamos a participar também de atividades políticas (no bom sentido). Nunca fomos partidários.

Saliento a atividade de defesa do trabalho médico. Na época, as direções do Sindicato dos Médicos de Campina Grande e do Conselho Regional de Medicina eram exercidas por médicos subalternos (em todos os sentidos) a donos de hospital.

Coube a nós, assumir esta defesa da classe, até que as outras entidades médicas fossem recuperadas pela classe médica.

Entre outras atividades políticas importantes saliento o esforço da Dra Santana para implantar o Teste do Pezinho em nossa cidade e o empenho do Dr. Joaquim Amorim em representar a classe médica junto ao Conselho Municipal de Saúde, dando a este, uma qualificação técnica até então inexistente.

No entanto, em minha opinião, a ATIVIDADE mais importante e mais impactante sobre a cidade de Campina Grande aconteceu na década de 60.

Em 1960, Campina Grande tinha 217.493 habitantes com uma medicina de qualidade discutível.

Em 1963 o então presidente da SMCG Dr. Humberto Almeida e os sócios, preocupados com a situação, conseguiram trazer a Campina Grande dois médicos da Academia Brasileira de Administração Hospitalar. A ideia era fazer o diagnóstico da situação da saúde de nossa cidade e propor soluções.

O relatório elaborado pelos médicos Geraldo J. da Rosa e Silva e Arnê de O. Valente foi entregue oficialmente às principais autoridades municipais, estaduais e federais. O estudo foi publicado em 1965 pelo Ministério da Educação e Cultura como uma monografia intitulada “Estudo da Rêde Médico-Hospitalar de Campina Grande”.

É desta monografia, que me foi presenteada por um paciente, que extraí todos os dados que citarei abaixo.

Começando pelos leitos hospitalares.

Eram 436 sendo que 117 eram da então Maternidade Municipal Elpidio de Almeida (MMEA) apenas com leitos obstétricos e 151 do Hospital Alcides Carneiro (HAC) que na época atendia apenas a funcionários públicos federais e seus dependentes. Segundo os autores, a cidade necessitava de pelo menos 864 leitos hospitalares.

Além disso, os hospitais eram muito ruins.

Constataram que “a maioria, senão a totalidade dos edifícios …deixa muito a desejar do ponto de vista de construção. As falhas encontradas … são tão graves que dificultam o atendimento… as reformas são realizadas sem planejamento … de acordo com a vontade dos que detêm a posição de mando na instituição.”

Sobre o pessoal médico o diagnóstico ainda é mais sombrio. “ausência de seleção vigorando o pistolão … dirigentes completamente despreparados … remuneração inadequada … por conta disso médicos acumulando demasiados vínculos … quantidade e qualidade insuficiente (havia 47 médicos por 100.000 habitantes quando a recomendação da época era 106/100.000).

O diagnóstico fica ainda pior com os outros profissionais de saúde. O HAC tinha 8 enfermeiras e a Maternidade Municipal Elpídio de Almeida tinha uma. Os outros hospitais (Pedro I, Casa de Saúde, Pronto Socorro e João Ribeiro) não tinham enfermeiras (!?). Quanto às auxiliares de enfermagem, o HAC tinha 4. Isso mesmo, 4. Os outros hospitais, nenhuma. Todo o serviço de auxiliares era exercido por atendentes que, na sua maioria tinha começado como serventes (o nome dado na época) e que após algum tempo eram promovidas a atendentes.

Na última parte da monografia são propostas medidas que seriam importantes para que Campina Grande, além de fornecer saúde de boa qualidade aos seu habitantes, também se transformasse, ou melhor, aprimorasse a sua vocação para ser polo de saúde.

Eles iniciaram elogiando a visão dos colegas da SMCG, deplorando a centralização da saúde e reforçando a ideia que a saúde está intimamente ligada às outras áreas do conhecimento, entre elas a priorização da rede básica, o saneamento básico, a segurança, a mobilidade urbana, etc.

Entre outras medidas, foram sugeridas:

  1. A manutenção da continuidade do planejamento – uma vez que mudando os péssimos padrões da época também mudariam as prioridades.

  2. Mudança dos padrões da sociedade – quase uma decorrência do primeiro, eles chamavam a atenção para os indecentes índices de mortalidade infantil que nossa cidade apresentava.

  3. Criação e instalação do “Conselho de Saúde”(aspas deles) – na opinião deles este conselho seria “integrado por elementos de gabarito e representativos do município”. Ficava meio vago quem teria assento neste Conselho. Ao que parece, apenas médicos. Típico da época onde a classe médica achava que só médicos podiam opinar sobre política de saúde. A criação do Conselho Municipal de Saúde só aconteceu 30 anos depois com a redemocratização e a criação do Sistema Único de Saúde.

  4. Criação de um fundo de melhoria dos hospitais – óbvio. Todos eram muito ruins. Preconizava um hospital municipal central e unidades de atendimento hierarquizado além de arquivo central, biblioteca, bancos de sangue, laboratórios, serviços de imagem e até lavanderia e transportes. Também sugeria a criação de uma granja municipal para melhorar a alimentação da população.

  5. Em relação a infraestrutura técnica sugeria a modernização das unidades assistenciais, a unificação de rotinas, a implantação de serviços e a melhor qualificação do pessoal com o incremento dos centros de estudos, principalmente o da SMCG.

  6. Por último, mas não menos importante sugeria a criação de alguns cursos. Entre eles técnicos de RX, de laboratório, de arquivos, de enfermagem superior, auxiliares de enfermagem e medicina.

O relatório foi discutido e aprovado e a SMCG entregou todas estas reinvindicações para prefeito, governador e representantes do poder federal na cidade.

Infelizmente vivíamos a ditadura militar e eles, se arvoravam inclusive o direito de ditar as regras das políticas de saúde.

Nada foi seguido pelos poderes públicos.

Então, os membros da SMCG, ao verem que seus esforços corriam o risco de nada mudarem, fizeram o que muitos consideravam impossível:

  1. Juntamente com as enfermeiras diplomadas do Hospital Alcides Carneiro (gente como D. Eliete, Maria do Carmo Navarro e outras), criaram o curso de Auxiliares de Enfermagem e geraram condições para que o curso de enfermagem superior da então FURNE hoje UEPB pudesse ser criado e mantido como uma das grandezas de Campina Grande.

  2. Criaram a Sociedade Mantenedora da Faculdade de Medicina de Campina Grande que em 1969 iniciou o curso e em 1970 fez o primeiro vestibular. Adaptaram um currículo inovador para um curso de medicina de alta qualidade que usava uma metodologia desenvolvida na Universidade de Brasilia (UNB) e que já formou mais de 3000 médicos.

Assim, pessoas como Bezerra de Carvalho, Raul Dantas, Firmino Brasileiro, Francisco Pinto, Bonald Filho e dezenas de outros (que me perdoem a omissão) protagonizaram uma das mais importantes iniciativas da SMCG, em benefício principalmente dos enfermos de Campina Grande e das cidades por nós assistidas.

Parabéns SMCG.

Obs: Este artigo foi publicado originalmente no Informativo da SMCG.

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