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Sítio!

Jurani Clementino. Publicado em 28 de março de 2019 às 12:12

Essa semana o perfil no instagram do jornal El Pais Brasil publicou umas belíssimas imagens acompanhadas de uns textos primorosos sobre a comunidade varzealegrense do Roçado de Dentro. Na verdade o cotidiano dos moradores daquela comunidade, especialmente as famílias Souza e Menezes, era associado à criação de uma escola de samba, a Unidos do Roçado de Dentro. Foi uma professora amiga minha que me marcou na postagem perguntando se era a minha cidade. Passei a olhar os registros assinados pela jornalista e escritora varzealegrense, autora de um livro sobre a referida escola de samba, Beatriz Jucá . Lendo aqueles textos acompanhados por imagens, muitas delas feitas há uma dezena de anos, resolvi escrever uma crônica bem saudosista sobre a vida nos sítios.

Bom, a gente chama de sítio, geralmente, uma pequena comunidade rural. Um lugar onde todo mundo se conhece e possui uma espécie de parentesco. Os sítios são formados por famílias que vão se misturando aos poucos. Trata-se de uma organização social familiar que muitas vezes se fecha para os de fora e vai se reproduzindo entre si. Por isso, desenhar uma árvore genealógica de uma comunidade rural, às vezes, causa espanto para quem é de fora. Aquele emaranhado de gente casando com parentes tem horas que dar um nó. Há situações em que o homem ou a mulher, além de marido ou esposa, é tio ou tia de seu companheiro. Em situações assim seus filhos são, além de filhos, sobrinhos deles mesmos.

O sítio é um lugar pequeno onde a língua dos vizinhos dá conta da vida de todo mundo. Antes da internet a gente ficava sabendo as notícias através das rodas de fofocas. Era a “rádio pião”. Nos sítios sertanejos, ao contrario da cidade, as pessoas costumam cultivar certas obrigações morais para com os outros. Ali as relações parecem mais íntimas, fraternas, orgânicas. É feio encontrar um morador e não cumprimentá-lo. Por isso é normal que o habitante dos sítios estranhe a vida na cidade. Ele logo percebe que nos centros urbanos prevalece a impessoalidade. É como se ninguém conhecesse ninguém.

No sítio há relações de exploração como em praticamente todo lugar do mundo, mas lá não se costuma negar um copo de água ou um prato de comida a ninguém. Tem sempre um menino correndo pelos terreiros atrás de uma bola murcha, uma mulher com uma trouxa de roupa na cabeça passando pelas estradas, um vaqueiro tangendo uma vaca magra pelos corredores, um cachorro valente, de nome exótico, vigiando uma porta e na parede de tijolo sem reboco um alegre passarinho preso na gaiola. Nos sítios sertanejos encontramos sempre uma rede armada no alpendre, uma cadeira desocupada na calçada, um animal amarrado debaixo de uma arvore, uma porta aberta ou encostada. As visitas chegam a qualquer hora, não precisam de convite, entram, sentam, batem papo, tomam café, esperam o tempo passar e seguem o caminho despreocupadas. Antes da escalada da violência pelas zonas rurais, dormia-se com as portas abertas.

Nos sítios sertanejos se compartilha as dores e as alegrias. O vizinho que atrapalha, também pode ajudar o outro, porque lhe conhece, divide com ele o seu cotidiano, vive o seu dia a dia. Ali o tempo demora a passar. Dias e noites parecem uma coisa sem fim. Ali se vive uma vida sem pressa. Lugar para se ouvir as histórias alheias, transformar esses causos em versos e tecer a vida como uma varanda de rede: sentado na calçada, olhando quem passa na estrada e batendo papo com quem por ali se achega para tomar um copo de água ou uma xícara de café.

Jurani Clementino

Campina Grande – Sábado 23 de março de 2019

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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