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Sexta-feira

Jurani Clementino. Publicado em 15 de dezembro de 2016.

Amanhã é sexta-feira. Sexta é dia de alegria. Hoje todo mundo comemora a chegada do fim de semana na sexta-feira. A sexta é o prenúncio do tempo bom da mesma forma que a segunda é o prólogo do tempo ruim. O tempo do lazer que cede espaço ao tempo do trabalho.

O tempo da ausência de regras que dá espaço para o tempo das horas contadas, do trabalho, das obrigações a cumprir. Sexta é o céu. Segunda é o inferno. Pra mim, sexta-feira tem cheiro de despedida. De saudade. De partidas. De dor e de esperança. Tentarei explicar.

No lugar que nasci a sexta-feira era dia de partir, viajar, migrar… Viagem com destino certo: São Paulo. Ou seja, a sexta era dia de choros e lágrimas. Meus avós (paterno e materno) possuíam uma C10 da Chevrolet, ano 1979.

Uma era cor laranja e outra cor de café com leite. Cabiam poucas pessoas acomodadas desconfortavelmente na carroceria. Mas toda semana, nas sextas-feiras, elas iam à cidade. Abarrotadas de gente. Muitas daquelas pessoas, especialmente os mais jovens, não voltavam. Tomavam o “rumo do sul”.

Embarcavam na empresa de ônibus Itapemirim em direção a São Paulo. Deixavam pais, irmãos, esposas, filhos, namoradas etc.

Inicialmente era uma prática masculina, depois as mulheres também começaram a partir. Muitas atrás dos maridos ou namorados.

O sítio foi ficando triste. Comecei a odiar as sextas-feiras. Elas levavam todos os meus amigos embora. As brincadeiras de cair no poço, roubar bandeira e jogar bola a noite, iam perdendo a graça.

Quase não tinha mais miguem pra brincar. Toda semana, uma nova leva de jovens partia rumo a São Paulo. Geralmente migravam em grupos de três, quatro, cinco. As famílias lamentavam as ausências mas não tinham muito o que fazer.

Restava rezar e torcer para que tudo desse certo no novo destino. Que conseguisse um bom emprego, um lugar para morar, dinheiro pra voltar nas férias etc.

Muitas dessas viagens eram feitas com dinheiro tomado emprestado. Então já se chegava em São Paulo com dívidas no Ceará.

Em homenagens aos que partiam, as namoradas dedicavam musicas (quase sempre melancólicas) na emissora de rádio local. “Essa música vai para FULANO que parte hoje para São Paulo.

De seu grande e inesquecível amor, BELTRANA”. Sexta-feira me traz essas lembranças. Não é um dia bom. Nem pra mim nem praquelas famílias que acompanhavam os parentes até a cidade. Que na rodoviária, em meio a uma multidão, se despediam dos seus.

E que não se conformavam até a tarde do domingo quando (com a graça e Deus) eles desembarcavam na rodoviária do Tietê em São Paulo. Desembarcavam levando tudo o que podiam.

Ah sexta-feira. É, amanhã é fatidicamente sexta-feira e, certamente, vou receber vídeos de gente celebrando a chagada desse dia… E vou rir.

Por: Jurani Clementino

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

falecom@fhc.com.br

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