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Campina Grande - PB

Sexo, política e caixa 1

14/03/2017 às 7:47

Fonte: Da Redação

Por Gisa Veiga (*)

Político quer entender de tudo. De sexo aos rumos da economia. Deveria pelo menos se esforçar pra isso. Mas só quer mesmo fazer política. Aquela mais rasa, do toma-lá-dá-cá, do discurso pretensamente progressista, mas impregnado de preconceito e desprezo. Aquela política que sorri para o eleitor num dia e, no outro, rasga-lhe o bolso e despedaça suas esperanças.

Claro que falo de modo generalizado, dos políticos que pouco se importam com avanços sociais ou econômicos. Daqueles que preferem dedicar seu tempo a transações espúrias a assumir compromissos reais com suas comunidades e eleitores. Nem todos são iguais, claro. Há os que ainda preferem fazer a diferença e deixar sua marca positiva em contraponto aos desvarios políticos de alguns que se acham intocáveis e acima do bem e do mal. Ainda bem que esses estão começando a chegar às prisões.

Muitos achados na vala comum, agora eles se unem – caem as cores partidárias e as diferenças ideológicas – para defender o que é seu – ou pensam que sim. A decisão do Supremo de investigar doações suspeitas no caixa 1 das campanhas eleitorais deixou 99% deles em pânico. Surtaram, até. Tentaram desqualificar a decisão dos ministros, dizendo que isso iria criminalizar o Caixa 1. Ora, o STF só vai atuar em contas suspeitas. O desespero de muitos parece mais um recibo de malandragem e só faz aumentar as suspeitas de que a prática de doações ilícitas, mesmo as do caixa 1, seria recorrente nas campanhas pelo Brasil todo.

E quem disse que caixa 1, por si só, é um recibo de probidade? É claro que a ação penal contra o senador Valdir Raupp, do PMDB de Rondônia, terá um efeito cascata – e que assim seja. E só os que se acharem espertos demais para serem descobertos é que têm razão para agir com desespero e chiliques verbais. Atitudes destemperadas são comuns em quem se sente acuado por algum motivo. Mas, nesse caso, quanto maior for a indignação, maior a suspeita que se abate sobre os tais.

Discursos empolados nem sempre surtem o efeito de convencer alguém – ou um tribunal – de que a verdade está ali sendo dita de modo incontestável. Políticos falam demais. E quem fala demais, fala besteira em excesso. Isso sobre qualquer assunto, seja numa simples homenagem às mulheres, seja em reação à Lava-Jato.

Aliás, eu não queria voltar ao assunto, mas não há como não abrir aqui um parêntese. Impressionantes as tolices que políticos e famosos dizem a respeito das mulheres. Querem entender o drama feminino – ou fingem que querem – e o que vemos é um festival de asneiras. Não apenas da parte dos homens políticos. Lamentável o que algumas mulheres dizem e fazem em nome de movimentos feministas – mas sem autorização para tal -, como recomendações de comportamento íntimo e atos públicos de desrespeito a símbolos religiosos, especialmente cristãos, como se Jesus Cristo fosse um machista insensível e Maria uma inútil por ter-lhe dado à luz. Frases e fatos detestáveis, desprezíveis ou simplesmente desnecessários. Melhor continuarem falando de caixa 1, caixa 2 e propinodutos.

Enquanto o presidente Temer acredita que as mulheres contribuem muito para a economia ao comparar preços nos supermercados – e para a sociedade, ao criar filhos -, a senadora petista Gleise Hoffmann conclama as mulheres a aderir a um movimento surreal: a abstenção sexual como forma de protesto. Ela fumou o quê para propor isso? Pensei ter sido uma “pegadinha”, mas ela é “muito séria” para esse tipo de brincadeira. Séria? Será que ainda tem mulher que adere a esse tipo de chamada feminista equivocada, patrulhadora, infantil e manipuladora? Quanto a Temer… já se disse tudo sobre ele a esse respeito.

Voltando ao tema caixa 1 e caixa 2, até mesmo Fernando Henrique Cardoso escorregou feio ao tentar encontrar uma equação que, na sua visão, fosse mais justa. “É preciso separar caixa 2 para se eleger e caixa 2 para enriquecer”. Ou seja, só seria crime o caixa 2 que o candidato utilizasse para enriquecimento próprio. Se fosse apenas para financiar campanha, ainda que isso se traduzisse num jogo desequilibrado, tudo bem. Como assim, FHC? Talvez fosse melhor você falar sobre mulheres. Certamente se sairia melhor que Temer.

Há quem ache hilário tudo isso. Comentários assim de políticos brasileiros dos quais se espera atitudes serenas – se fosse de Tiririca eu ficaria calada, seria uma piada – não me fazem rir. Nem também ranger dentes. Sinto apenas uma profunda desesperança de tempos melhores para as mulheres e para a política, enquanto tipos de representantes do povo como esses estiverem aí, fingindo se importar com as injustiças e – pior – acreditando piamente que seus discursos são progressistas e respeitáveis. E que tudo o que se diga ou faça que os contrarie não passa de armação.

Mania de perseguição. Isso passa na cadeia.

(*) Jornalista

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