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Sessenta e quatro

Benedito Antonio Luciano. Publicado em 31 de janeiro de 2019 às 10:01

Dentre as canções que compõem o álbum “Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band” (Banda do Clube dos Corações Solitários do Sargento Pimenta), lançado pelos Beatles em junho de 1967, há uma que está particularmente relacionada com o título deste texto. Trata-se de “When I’m sixty-four” (Quando eu tiver sessenta e quatro).

Ao compor a letra de “When I’m sixty-four” é provável que o autor, ao imaginar como ele e a sua esposa estariam ao envelhecer, exercitou uma nostálgica saudade do futuro: “When I get older/Losing my hair/many years from now/ Will you still be sending me a Valentine/Birthday greetings, bottle of wine? ” (Quando eu ficar mais velho/Perder meus cabelos/Muitos anos adiante/Você ainda me mandará presentes no Dia dos Namorados/Saudações de aniversário, garrafa de vinho?).

Em 1964, três anos antes do lançamento do referido álbum dos Beatles, eu tinha dez anos de idade e nem imaginava como eu estaria aos sessenta e quatro anos. Aos dez anos, não temos esse tipo de preocupação.

Naquele ano, fatos políticos acontecerem no Brasil, dos quais só tomei conhecimento bem depois. Como por exemplo, o início do movimento militar contra o governo de João Goulart, que deixou a presidência da república, assumida temporariamente pelo presidente da Câmara dos Deputados, até o cargo ser efetivamente assumido pelo Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, em 15 de abril de 1964, dando início ao que se convencionou chamar de período militar.

Atualmente, tenho sessenta e quatro anos e não me ocupo em imaginar como estarei amanhã. Simplesmente, procuro viver o presente em sua plenitude. E como “dia de muito é véspera de nada”, a vasta cabeleira estilo “black power”, mantida na juventude, deu lugar a poucos cabelos e a uma brilhante carequinha.

Aos sessenta e quatro, muitos eventos ocorreram comigo e com as pessoas que eu amei e continuo amando, como os meus pais, entes queridos não vivem mais ao meu lado. Com o tempo, compreendi que perdas fazem parte da entropia da vida. Eles se foram e um dia, também, irei.

O envelhecer traz consigo limitações e compensações. A sabedoria é uma dessas compensações. Com sabedoria, alguns compreendem que as limitações, assim como as perdas, fazem parte da vida, mesmo que a pessoa cuide bem da alimentação, faça exercícios físicos e leve uma vida regrada, haverá perda de força física, velocidade e capacidade aeróbica.

Envelhecer é se preparar para substituir várias companhias pela companhia de quem aceitou envelhecer ao teu lado. E se essa companhia partir antes de você, é se preparar para conviver com a solidão e com a saudade.

Aos sessenta e quatro, vendo a vida por traz das lentes dos óculos, procuro viver o dia-a-dia. Pois, viver preocupado com o futuro é esquecer de viver o presente e a vida é feita de escolhas, guiadas pelo livre arbítrio. Desta forma, podemos viver o presente focados no passado, numa nostalgia inconsequente, ou viver o presente focados no futuro, desperdiçando o tempo com outro tipo de nostalgia igualmente inútil.

Assim, aos sessenta e quatro, compreendi que não temos controle sobre o que aconteceu, tampouco sobre o que virá. Então, não vale a pena sofrer por antecipação diante das incertezas que o futuro nos impõem. Pois, certeza mesmo só temos uma e todos sabem muito bem qual é.

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Benedito Antonio Luciano

Professor doutor, titular do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).

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