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Sentimento em Berlim

Ailton Elisiário. Publicado em 7 de novembro de 2017 às 10:44

Por Ailton Elisiário (*)

Chegamos a Berlim à boca da noite, para usar a expressão dos antigos. Primeira vez que ali íamos, com o intuito de conhecermos a cidade da melhor maneira possível em muito pouco tempo. À entrada do hotel estava a imagem de um urso de cor vermelha e outro no saguão de pernas para o ar. Indagamos desde logo o que significava e nos disseram que o urso é o símbolo de Berlim, possivelmente provindo de Albrecht I de Brandemburgo, Duque da Saxônia, chamado de  Albrecht “der Bär” (o urso).

A primeira impressão que tive foi a de uma cidade de clima pesado de sofrimento, impressão noturna que perdurou depois durante o dia, quando saímos para um “tour” e nos deparamos com um resto do famigerado muro de Berlim. O muro que há mais de 20 anos dividia a cidade em duas, uma Berlim oriental sob o domínio socialista e outra Berlim ocidental sob o domínio capitalista, derrubado em novembro de 1989, o que dele sobrou foi utilizado por artistas de vários países para suas pinturas. De fato, apesar de decorridos quase 30 anos de sua derrubada, ainda hoje os habitantes mantêm em mente a fronteira criada pelo muro. Quem mora na parte oriental ao se dirigir para o outro lado diz que vai ao ocidente e vice-versa.

O nome Berlim significa mangue, lamaceiro, local úmido. Talvez isso explique o fato da cidade não transparecer que ali exista felicidade mais perene. Um terreno pantanoso que os Hohenzollern a partir de 1415 transformaram no centro do império alemão, mas que em 1918 tornando-se democrático teve com os nacionais socialistas em 1933 uma hierarquia autoritária, praticando violência e terror, com uma ganância sem limite: “Hoje a Alemanha é nossa e amanhã o mundo inteiro”. Ao final da Segunda Guerra Mundial estava destruída e partilhada pelos países vencedores.

O campo de concentração de Sachsenhausen que visitamos e que serviu de modelo para todos os demais similares, pela sua história de assassinatos e matanças produzidos entre 1936 e 1945 pelos nazistas, invadiu a nossa alma desse sentimento de sofrimento contido naquela impressão sentida desde a nossa chegada. Ali milhares de pessoas inocentes morreram por desnutrição, enfermidades, maus tratos, fuzilamento, enforcamento, tiro na nuca, câmara de gás.

Amenizou a impressão o famoso Portão de Brandemburgo. Construído em 1791 com o propósito de reverenciar a paz, tem sido palco de fatos históricos importantes da nação alemã. Idealizado por Friedrich Wilhelm II, são seis colunas dóricas que dividem o portão em cinco passagens não simétricas, porque retratam hierarquia: pela do meio mais larga passava a família real e os cidadãos só podiam passar pelas passagens mais estreitas das extremidades. Encimado por uma quadriga de cavalos guiados pela deusa romana Vitória, o Portão marcou a divisão entre o leste e o oeste de Berlim, tornando-se hoje o símbolo da reunificação da cidade.

Deixamos Berlim após nos deliciarmos com um enorme joelho de porco movido a chopp e sob a alegria e o canto dos comensais numa cervejaria no centro da cidade. Neste campo gastronômico, a cerveja alemã concorre com a belga, mas os alemães são bons na fabricação de salsichas, que se tornaram o tira gosto por excelência.  Mas, ainda com aquele sentimento que ficou, resolvi ler Minha Luta, de Hitler, para buscar se possível extrair as raízes e compreender o porquê disso.

(*) Professor

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Ailton Elisiário

O autor é economista, advogado, professor da Universidade Estadual da Paraíba e membro da Academia de Letras de Campina Grande.

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