...

Campina Grande - PB

Semear estrelas

13/08/2016 às 7:50

Fonte: Da Redação

ribamildo-556x417-556x417

Tropeçavas nos astros desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada
São livros e o luar contra a cultura.

Livros
Caetano Veloso

* Ribamildo Bezerra

A arte é para poucos. Semear estrelas uma exclusividade. Tinha acordado com essa enigmática sentença na cabeça. Até às 18h pensava no absurdo de carregar uma poética interrogação sem absoluto nexo.

Na cidade bicolor já tinha de cor quantos semáforos teria de vencer para que pudesse chegar em casa, e voltar a ser desnudo sem a “plastificação” tão necessária para seu ganha-pão.

Foi entre os semáforos dos garotos pirofágicos e lavadores de para-brisas que tudo pareceu se resolver tal qual o esmaecer de um nevoeiro em fim de intensidade.

Certo que foram apenas trinta segundos mas que traduzidos em palavras demorariam uma existência.

A moça que segurava a bandeira de um daqueles candidatos a prefeito, sem muito glamour, carregava um brilho intenso nos lábios e um olhar incômodo de estranha profundidade. Ao contrário das demais garotas que em fim de tarde como aquele escoravam-se onde podiam contando desesperadamente os minutos para o fim de mais uma etapa, ela posava com glamour próprio mostrando firmeza e dedicação na missão que assumia.

Estranhamente, o trânsito que já era lento parecia aos seus olhos andar em ‘slow motion’, onde um confuso ballet passava a ser descerrado a sua frente diante daquela involuntária estrela principal. Pela primeira vez, em anos de rotina, tudo parecia fazer sentido, encaixar-se numa harmônica policromia, onde a massificação de cores dos rebanhos políticos ali, naquele instante, não parecia ser tão humilhante.

Muito além do seu cockpit, via a jovem de cabelos negros balbuciar palavras de entusiasmo com os seus companheiros de publicidade política, com alma e fé, numa alegria tão espontânea que ousou abrir poucos centímetros do vidro para tentar decodificar alguma coisa, ainda que corresse o risco de ser interpretado como mais um patrocinador dos shows dos cospe-fogo dos sinais.

Lembrou o poeta que certa vez descreveu a fêmea que falava como Camões e gemia como pantera. No meio do caos, diante da noite que chegava, acabou compreendendo a grande missão daquela moça. Deveria ser no mínimo uma anarquista, a distribuir alegria, comungando utopias, interpretando apenas um dos seus vários papéis, nessa tal sociedade dita ‘tão plural’, onde a imprensa coorporativa se traveste de imparcial lustrando-se de uma ética confusa e caquética. Onde eleitores fingem ser as maiores vítimas de um sistema que eles mesmos ajudam a corromper, vendendo barato a sua dignidade moral num país tão cheio de ‘políticos profissionais’, e a Justiça se mostrando cada vez mais cega.

O alerta de que suas difusas divagações teriam que ser encerradas, foi diretamente enviado pelo carro atrás, que nas tentativas infrutíferas de buzinadas, agora cortava luz para que o nosso absorto observador se tocasse de que era hora de seguir em frente.

Afroxou a gravata para engolir em seco o mundo de pedra e concreto que se mostrava a sua frente, e numa arrancada brusca inconformava-se pela perda visual daquele sorriso absolutamente espontâneo. A arte era para poucos. Semear estrelas uma exclusividade. Carregava a certeza de que cruzaria inúmeras vezes com a semeadora de astros, talvez assumindo outros papéis. Uma advogada, uma roqueira, uma bióloga… Mas com certeza com um dom incomum de modificar por puro e merecido talento tudo o que de inerte encontrava-se a sua volta.

* Jornalista

Veja também

Comentários

Simple Share Buttons