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Campina Grande - PB

Sejamos “epifania” de Deus

06/01/2018 às 11:30

Fonte: Da Redação

Por Padre José Assis Pereira

Os cristãos católicos celebramos hoje a festa litúrgica da “Epifania”, quer dizer, a festa da manifestação de Deus a todos os povos e nações, representada na figura dos Magos do Oriente. Esta festa quer ressaltar que aquele Menino que nasce escondido no presépio da aldeia perdida de Belém é o Filho de Deus que hoje se mostra à humanidade inteira, por isso, os Magos em sinal de adoração lhe oferecem presentes: ouro, incenso e mirra reconhecendo-o como Rei e Deus Verdadeiro.

A Epifania é uma celebração solene no Oriente cristão, e na Igreja e realidade do Ocidente. Porque a fé cristã é um legado de quase vinte séculos. Uma herança que, na noite de nossa história, soube iluminar e dar cor com a estrela da fé, a cultura, a arte, a pintura, a música, os costumes e a sociedade, e difundiu uma nova forma de entender a existência humana e a própria vida.

Segundo o Evangelho (cf. Mt 2,1-12) os Magos, sábios, que vêm de terras distantes, estudiosos dos astros, perscrutadores do céu, buscadores de luz; seguiram uma estrela e não cessam em seu esforço, perguntam ao seu coração, a uns e a outros, à Jerusalém quando chegaram: “Onde está o Rei dos judeus que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo.” (v. 2) Essa pergunta nós a traduzimos por: “Onde está Jesus?” e por extensão “onde está Deus?”

Tudo parece indicar que hoje, para muita gente esta pergunta não lhes interessa. Um amplo grupo de pessoas se pergunta mais onde está tal jogador de futebol, tal cantor ou cantora, tal ator ou atriz… grandes astros e estrelas, consagrados na fama e muito admirados. Para ir vê-los de perto, as pessoas são capazes dos maiores sacrifícios e, se for possível, tirar uma “self”, se os guarda-costas o permitirem.

Aos seguidores de Jesus, de todos os tempos nos segue interessando a pergunta por Deus. Faz tempo o descobrimos como nossa luz e guia de nossa vida. No entanto há muitas estrelas, há muitos brilhos neste mundo, que chega a nos ofuscar. A imensa maioria das pessoas tem uma estrela em sua vida, que podemos traduzir por “ideal”, o “norte” de sua vida. Pode ser um projeto pessoal, estético, familiar, político, econômico ou outro qualquer. Cada um dirá. Mas, de alguma maneira, é o que guia e impulsiona sua vida.

A nós cristãos segue parecendo chave a pergunta que nos devemos fazer: “Onde está Deus?” Cada ser humano, cada vida humana é um dom a ser encontrado e amado. Quando encontramos e reconhecemos no frágil Menino de Belém o verdadeiro Deus feito Homem, nele e por Ele encontramos também os irmãos que vivem e necessitam da nossa proximidade, da nossa alegria, da nossa partilha e dos nossos caminhos construídos com base na verdade, na justiça e no amor.

Os Magos representam os homens e mulheres que procuram a verdadeira luz, seguindo uma luz, procuram a Deus nas diversas religiões e filosofias do mundo inteiro, uma busca que jamais terá fim. Homens e mulheres à procura: “Onde está?” Eles nos indicam o caminho por onde seguir nossa vida.

Porque experimentamos que Deus é a estrela que ilumina e guia nossa vida. Que não se vive igual com Deus ou sem Deus. Que nossa vida está marcada pela proximidade que Deus nos tem oferecido. Nosso passado, nosso presente, nosso futuro está matizado por Deus. Nossas alegrias ou dores, nossos dias de sol ou nublados estão coloridos por Deus. Nossos fracassos, triunfos, desilusões, esperanças, estão pintadas por Deus. Sem Deus seriam outros, seriam diferentes, os viveríamos de uma outra maneira.

A procura levou os Magos a bater numa porta equivocada: “O rei Herodes ficou perturbado, assim como toda a cidade de Jerusalém… Ide e procurai obter informações exatas sobre o menino. E, quando o encontrardes, avisai-me, para que também eu vá adorá-lo.” (vv. 3-8)

Jesus, os cristãos hoje como ontem tropeçam com muitos “herodes”, aos quais lhes incomoda sua presença. Querem um reino a seu capricho, sem mais a ética que o bem-estar particular ou a simples estética; com pensamento único e sem mais referência que o puro e duro niilismo, pragmatismo ou humanismo.

Jesus Cristo, hoje como ontem, segue escondido aos olhos de muitos poderosos, e segue sendo desconhecido por milhões de homens e mulheres que, alheios ao acontecimento de seu nascimento, esperam que alguém lhes leve uma palavra, uma referência sobre Ele. Seremos nós “epifania de Deus no mundo?”

A estrela de Jesus, a luz de Deus, quer iluminar a toda pessoa que vem a este mundo. Jesus não foi só do seu povo Israel. A luz do Evangelho é uma luz universal, católica; é o sol de Jesus que brilha a cada manhã sobre bons e maus, indistintamente. A Epifania é a festa da universalidade da Igreja de Cristo, sua manifestação ao mundo inteiro. Somos cada um de nós os que temos que decidir em cada momento se queremos ou não, deixar-nos iluminar pela luz de Cristo. Sem distinção de língua, raça, sexo, ou economia.

Assim pregou o apóstolo Paulo: “Os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo por meio do evangelho.” (Ef 3,6) Bastantes desgostos e perseguições lhe custaram esta defesa da universalidade da Igreja de Cristo. Alarguemos nosso coração cristão, para que possam caber nele todas as pessoas de boa vontade. Todos somos potencialmente conhecedores de Cristo. Não recortemos, com atitudes exclusivistas, ou xenófobas a catolicidade da Igreja de Cristo.

Por isso mesmo, a Epifania tem total atualidade e vigor no meio de nós. Sobretudo frente aqueles “herodes” que não admitem nenhum tipo de manifestação religiosa, nós os cristãos, devemos dar razão de nossa fé; pôr-nos a caminho; seguirmos a estrela da fé e não aos curtos-circuitos ideológicos.

Temos que ser epifania no meio onde nos movemos e vivemos. Há muitos de nós que esqueceram o Amor que Deus lhes tem. Convivemos com familiares aos quais, os novos “herodes” do consumismo, do laicismo, do materialismo ou a cultura da superficialidade, puderam com o Menino que levavam em seu coração e o esconderam.

Seremos capazes de encontrar essa estrela que nos conduza junto com os que amamos, às portas de Belém? Seremos nós epifania ou negação de Deus? Seremos manifestação ou obstáculo a sua presença? Dar-lhe-emos vida ou o aniquilaremos com nossa timidez e apatia apostólica? São questionamentos que neste dia nos exigem uma resposta.

Gosto particularmente da Epifania porque, entre tantas coisas, os Magos não ficaram paralisados às portas do castelo de Herodes, ante este equivoco. Mas continuaram procurando e porque encontraram Deus no Menino e o adoraram seguiram outro caminho, quer dizer, converteram-se e não retornaram ao equivoco Herodes porque souberam distinguir entre o bem e o mal; entre a traição e a bondade; entre a estrela e o brilho dos olhos excessivamente iluminados pelo mal, em Herodes. Preferiram fiar-se e seguir a luz da fé, a luz de Deus mesmo com risco de ser tomados por ingênuos. E, quando regressaram a seus reinos puseram Deus acima de tudo.

A esta altura de nossa vida, com profundo  agradecimento a Jesus pela luz e amor derramado em nossos corações, também alegres queremos adorá-lo. Esse é nosso presente para Ele e não mais ouro, incenso ou mirra. Queremos reconhecê-lo como o único Deus e Senhor de nossa vida. Porque adorar, adorar… só a Deus.

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