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Padre Assis: Sejamos bem-aventurados no Céu

Padre José Assis Pereira. Publicado em 2 de novembro de 2019 às 16:22

A solenidade litúrgica de todos os santos e a comemoração de todos os fiéis defuntos, para nós cristãos católicos têm algo em comum, pois na nossa profissão de fé afirmamos: “Creio na comunhão dos santos, na ressurreição da carne e na vida eterna”.

Por isso foram colocadas no calendário litúrgico uma seguindo-se à outra. Este calendário recolhe só um pequeno mostruário daqueles cristãos que, tendo testemunhado claramente sua fé, foram reconhecidos oficialmente pela Igreja.

Mas, hoje recordamos não só aqueles que foram proclamados santos ao longo da história, mas muitos irmãos nossos, em um número muito maior, dos que viveram a sua vida cristã na plenitude da fé e do amor através duma existência simples e reservada, entre eles, muitos de nossos parentes, amigos e conhecidos que escutaram a sentença final do Filho do Homem: “Vinde, benditos de meu Pai, recebei por herança o Reino preparado para vós desde a fundação do mundo.” (Mt 25,34)

Celebramos, pois a festa da santidade. As primeiras comunidades cristãs chamavam de “santos” (cf. Fl 1,1) todos os seus membros e a própria Igreja é chamada “comunhão dos santos”. “Só Deus é bom.” (Mc 10,18) Por ter sua origem em Deus, a santidade é um dom, é a vocação originária de cada cristão batizado.

Cristo, com efeito, que com o Pai e com o Espírito é o único Santo (cf. Ap 15,4), amou a Igreja como sua esposa e entregou-se por ela, com a finalidade de santificá-la (cf. Ef 5,25-26). Por esse motivo, todos os membros do Povo de Deus são chamados a tornarem-se santos: “Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação.” (1Tes 4,3)

Muitas pessoas têm uma ideia falsa dos santos. Estávamos habituados a ver os santos ligados a lendas piedosas, a histórias fantásticas; eram vistos como heróis inatingíveis, pessoas mais dignas de elogio e admiração do que imitação.

No entanto, os santos são pessoas de carne e osso, sujeitos às contingências desta vida e às imperfeições humanas. Como todos os seres humanos lutaram com seus pecados, alguns foram até grandes pecadores, pessoas que assumiram seu lado de sombra, que sofreram crises e dilemas, para ao final ser transformados pela graça de Deus.

A santidade às vezes, não se manifesta em grandes obras nem em sucessos extraordinários, mas é feita de amor a Deus e aos irmãos. Amor fiel até ao esquecimento de si mesmo e à entrega total aos outros.

Os santos distinguiram-se das outras pessoas porque tomaram a sério o Evangelho; quiseram seguir o discipulado de Cristo para se assemelharem a Ele o mais possível, sendo seus imitadores. O extraordinário da sua vida estava no seu interior; tiveram uma vivência intensa da fé, da esperança e do amor e foram verdadeiramente felizes.

Os santos não foram pessoas que viveram fora da realidade, nem seu estilo de vida estava ligado apenas a uma época. Não há santo possível sem valores humanos e sem grande maturidade pessoal; porque não pode haver santo sem amor a Deus e aos irmãos. E o amor não é passivo, mas ativo, e, de certo modo, revolucionário.

Os santos descobriram o segredo da felicidade autêntica, que mora no fundo da alma e tem a sua fonte no amor de Deus, por isso são chamados bem-aventurados. São todos aqueles que percorrem o caminho de santidade indicado pelas Bem-aventuranças (cf. Mt 5, 1-12). “As bem-aventuranças são o caminho de vida que o Senhor nos indica, para podermos seguir os seus passos… As bem-aventuranças são o perfil de Cristo, e, consequentemente do cristão.” (Papa Francisco)

Os santos puseram em prática na sua vida o programa do Reino de Deus contido nas bem-aventuranças onde encontramos a resposta à pergunta: Como ser cristão neste mundo tão conflitivo?

O caminho é a pobreza de espírito, a mansidão, o sofrimento suportado por amor, o caminho da justiça e do perdão, o caminho da paz enfim, o estilo de vida do próprio Jesus: seu amor e obediência filial ao Pai, sua compaixão frente à dor humana, sua proximidade aos pobres e aos pequenos, sua fidelidade à missão, seu amor até à doação de sua vida.

Somos chamados a sermos bem-aventurados, seguidores de Jesus e o caminho de santidade que deve percorrer todo cristão é, primeiramente, a solidariedade para com os “menores dos irmãos”, constitui-se uma exigência intrínseca a todo e qualquer caminho de santidade: “Todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizestes!” (cf. Mt 25,31-46)

“Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus.” (Mt 5, 12a) Como experimentar a mesma alegria que sentia Jesus pela chegada do Reino? Como viver o já, aqui e o ainda não, mais além? Será sempre compatível a verdadeira alegria com a aspiração à santidade. Estar alegres e contentes, porque nossa recompensa será grande nos céus! Temos que viver essa alegria, sem duvida para crer nela.

E é o que a mensagem das bem-aventuranças contém aos olhos do mundo, o paradoxo e a irracionalidade, a aparente contradição com nosso modo habitual de agir ante os graves problemas da pobreza, das relações interesseiras e hipócritas, das injustiças, dos múltiplos rostos da violência etc.

Apesar de tudo, Jesus sublinha e proclama uma e outra vez de forma solene, com força e poder, a profunda alegria de todos quantos acolhem confiadamente a sua nova proposta evangélica; é uma de suas páginas mais reveladoras. As bem-aventuranças são algo mais que um mero projeto de felicidade, algo mais que um roteiro ou itinerário com os passos a dar em vista de sua consecução; São o coração do Evangelho, fonte inesgotável de inspiração e de estímulo na caminhada da vida.

É importante também não perder de vista que neste dia de finados (02 de Novembro), recordamos com saudade os nossos entes queridos que “adormeceram em Cristo”, partiram desta vida marcados com o sinal da fé. Esta recordação deveria ser uma memória agradecida aos cristãos de todas as gerações. A fidelidade de tantas pessoas que viveram o seguimento de Jesus e agora vêm a Deus.

Na tradição cristã a morte é considerada como passagem, “páscoa”. Portanto, Cristo Ressuscitado é a melhor e a única resposta válida à pergunta sobre a morte. Toda a vida do crente tem relação com Cristo e com seu mistério pascal de vida através, paradoxalmente, da morte. Jesus é a razão última do nosso viver, morrer e esperar como cristãos. Posto que Ele se fez igual a nós, também passou pela morte para alcançar a vida eterna. Esse é o itinerário que seu discípulo tem de percorrer.

Crer na ressurreição dos mortos não é apenas uma doutrina a mais na Igreja. Desde os inícios foi o elemento essencial da fé cristã e centro da pregação apostólica. A proclamação da Ressurreição de Jesus tornou-se o primeiro credo da Igreja primitiva e os primeiros cristãos se consideravam testemunhas vivas dele.

Tão convicto foi esse testemunho, que todos deram a sua vida por causa dessa sua convicção. Hoje é o alicerce da nossa esperança. Se Cristo Ressuscitou, também para nós a morte não é o ponto final. Tudo é possível se a morte não é o fim.

A Eucaristia que hoje celebramos na comunhão com os santos e santas ou bem-aventurados que estão na vida eterna reaviva com alegria pascal a nossa esperança cristã e nos faz proclamar: cremos na vida eterna. Cremos na ressurreição!

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