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Seguir Jesus Cristo

Padre José Assis Pereira. Publicado em 2 de setembro de 2017.

Por Padre José Assis Pereira

O evangelho de São Mateus narra dois acontecimentos estreitamente ligados entre si: Jesus que pergunta aos discípulos o que as pessoas pensam sobre Ele e o que eles mesmos pensam sobre sua identidade pessoal; Pedro responde e recebe a plena aprovação por parte de Jesus (cf. Mt 16,13-20), e imediatamente depois, Ele “começou a mostrar a seus discípulos que devia ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos mestres da lei e que devia ser morto e ressuscitar no terceiro dia”. Pedro tem um projeto completamente diferente de Jesus, reage opondo-se a tudo isso, e recebe uma forte reprovação de Jesus: “Vai para longe, satanás! Tu és para mim uma pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas sim, as coisas dos homens!”(cf. Mt 16, 21-27)

Como entender esta mudança tão surpreendente? Antes Jesus havia elogiado Pedro chamando-o de “pedra” de sua Igreja, confiando-lhe o poder das chaves e o poder de atar e desatar. Agora o chama de “satanás” (em grego satanás, em hebraico satã, significa empecilho, obstáculo, que se opõe), Jesus em outras palavras ordena a Pedro: “vai para trás de mim, pois estás sendo um obstáculo em meu caminho, na realização do projeto do Pai. Põe-te no teu lugar, como discípulo, atrás de mim”, isto é, ocupe o lugar que corresponde ao discípulo.

Não compete ao discípulo pôr-se diante do mestre e dar-lhe instruções. O lugar do discípulo é estar com o mestre, sintonizado com a sua vontade, seguindo-o. “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga. Pois quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim vai encontra-la”. (vv.24-25)

Seguir Jesus é desafio para os cristãos de todos os tempos, saber lidar com a cruz e o sofrimento de Jesus e com a cruz de cada dia. Jesus diz que a sua morte não é desejada ou querida por Deus. Ele afirma que é preciso morrer, “é necessário que eu sofra”. Portanto, Jesus quer dizer que se Ele não sofrer e morrer tudo continua no mesmo, isto é, não se manifesta o Amor infinito de Deus para com a humanidade de cujo amor Jesus deu a manifestação suprema indo até a cruz, sofrendo e morrendo: “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim”. (Jo 13,1) Ele, então propõe o Amor para os que querem segui-lo. Jesus viveu para os outros e agora morre para os outros. Viver e morrer pelos outros. Segui-lo, tomar a sua cruz, significa aprender o seu projeto de vida por amor, viver pelos outros e com os outros e isso exige sacrifícios.

Com as facilidades que a técnica nos oferece, a cultura moderna criou uma civilização sem sacrifícios. A tentação é fugir de tudo aquilo que nos custa e justificamos nosso procedimento pensando: “Deus não quer sacrifícios!” Começamos assim a eliminar a cruz e todo sacrifício. Mas não faremos nada de essencial na vida, enquanto não formos exigentes conosco mesmos, perdendo o medo ao sacrifício.

Evidentemente a cruz não deve ser procurada, nem tampouco eu devo ser uma cruz para os outros. A minha cruz está em mim mesmo. O cristão segue o Senhor quando aceita com amor a própria cruz, que aos olhos do mundo parece derrota, fracasso e um “perder a vida”. Este tremendo contraste repete-se também hoje: o sofrimento repugna-nos naturalmente e nos mete medo. Jesus no horto das oliveiras quis revelar-nos a sua fraqueza neste ponto. Também Ele pediu ao Pai que o livrasse da Paixão. Mas sobrepôs a esta repugnância a vontade do Pai e foi procurar força na oração.

É obvio que renunciar a si mesmo para seguir Jesus não significa abstermo-nos de tudo o que gostamos. O primeiro passo desta renuncia é colocar a vontade de Deus acima da nossa, nas pequenas coisas de cada dia. Muitas vezes ficamos numa via satisfazendo todos os desejos, vontades e caprichos do corpo, etc. Quando, depois vier a tentação, não estaremos preparados para enfrentá-la. É nos exercícios repetidos que o atleta se prepara para as grandes provas. Aceitamos a cruz da vida: no trabalho profissional bem feito, na dedicação aos filhos, na atenção, ajuda e cuidado aos outros, na oração fiel de cada dia, etc.

Renunciar quer dizer descentrar-se, isto é um projeto para toda a vida. Todos nós estamos muito centrados em nossos projetos pessoais, em nossas coisas; motivados por razões “narcisistas”, o sucesso, a glória, o “pódio”, o poder e quando isso não acontece vem logo a raiva, a frustração, a ruptura, como Pedro com seu projeto pessoal.

Ainda não estamos suficientemente aptos para este processo de sintonizar com o projeto de Jesus, a auto avaliação é fundamental para o seguimento de Jesus, faz muito mal à Igreja esse narcisismo camuflado com coisas piedosas, que no fundo esconde a vontade de afirmação pessoal.

Jesus não promete aos seus discípulos uma vida fácil e tranquila, livre de sofrimentos e necessidades, na qual se vejam cumpridos todos os desejos humanos. Sua própria vida não foi assim, e Ele não garante isso nem sequer aos seus discípulos.

Que nenhum de nós tenha dúvidas: ser cristão é bem mais do que ser batizado, ser cristão é bem mais que falar ou pregar sobre Cristo e continuar pensando em si mesmo! Não se chega a ser discípulo de Jesus se não se passa pelo mesmo caminho que Ele passou. Mas Jesus sabe que é difícil para os seus discípulos aceitar sua cruz e a própria.

Cristo sabe que seu caminho o leva à rejeição, ao sofrimento e à morte, e acolhe este caminho das mãos do Pai. Ele perderá sua vida terrena com uma morte cruel. Mas esta morte não é o final. A ela se seguirá a ressurreição. O Deus vivo não manifesta seu poder preservando do sofrimento e da morte, senão dando, através da morte, a vida imortal e indestrutível, fazendo participes da própria vida divina. Jesus conhece esse fim e nos mostra o caminho. Quem confia nele chega com Ele à plenitude da vida na comunhão com Deus.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Padre José Assis Pereira

* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

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