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“Se Zé Limeira Sambasse Maracatu”….

Josemir Camilo. Publicado em 29 de julho de 2018 às 8:28

Orlando Tejo teria assumido sua Cadeira na Academia de Letras de Campina Grande, convidado que fora por Amaury Vasconcelos e demais confrades da época? Não o fez e foi ‘caçado’ pelo ativista cultural João Dantas, com o seu poema “O Imortal Jubilado”. Aqui, e agora, com a partida do homem que (re)inventou “Zé Limeira, o Poeta do Absurdo”, o jornalista poeta e compositor, o campinense Orlando Tejo, caço o poeta em terras áridas.

Quem me instigou à caça foi ‘Mestre Ambrósio’, brincante pernambucano, rabequeiro de primeira, Compositor, Mestre Ambrósio. Em sua gravação de 1996, canta o Mestre, sob o título “Vi Zé limeira descendo do firmamento”: “vi Zé Limeira descendo do firmamento/ um batalhão de jumento/ vinha tocando corneta/ mais de cem anjo perneta, celebrando um casamento;/ vem pra fazer negócio de confiança/ vem pra fazer negócio de confiança/ pra ver pesar na balança/ cinco véi num dá um quilo/ mais de cem grama de grilo/ no bucho de uma criança;/ se Zé Limeira sambasse maracatu/ se Zé Limeira sambasse maracatu/ escuta o que eu digo a tu/ era rato, cobra e jia/, sapo, ticaca, cutia,/ gôgo, puiga, cururu;/ se Zé Limeira sambasse maracatu/ se Zé Limeira sambasse maracatu/ cor de jumento era azul/ tinha juízo macaco/ veneno, cumê de rato/ tinha chifre gabiru;/ é Zé Limeira pra prefeito eu vou votar/ é Zé Limeira pra prefeito eu vou votar/ bota uma lei pra lascar/ nem real e nem cruzeiro/ bota bosta por dinheiro/ para ver povo enricar”.

Depois disto, fui em busca do personagem e encontrei no youtube o depoimento do narrador José de Anchieta, dizendo que nasceu Zé Limeira no sítio Tauá, em Teixeira-PB, em 1886 e faleceu em 1954; andava vestido espalhafatoso e humilde ao mesmo tempo, numa mescla de quebrar qualquer padrão, pois, muitas vezes o paletó roto era dado por vizinhos ou admiradores; usava muitas fitas penduradas na viola e sempre usava um óculos ray-ban.

No seu universo lítero-musical de repentista, pode-se afirmar que usava de um surrealismo, então, atribuído aos loucos, em que misturava Dom Pedro e a Palestina, Jesus assentando praça na polícia, e até a famosa Volta de Zé Leal, em Campina, é citada. E, segundo depoimentos populares, intuí que o povo parece entender Testamento como tempo e não como livro; algo como: velho Testamento é tempo antigo; Novo é de Jesus pra cá.

Já o documentário de Douglas Machado “Na Estrada com Zé Limeira” busca raízes do poeta violeiro, com depoimentos de quem os viu, aí, por volta de 1947/8. Um desses contemporâneos cita versos de uma suposta, porque pernambucana campanha de Agamenon Magalhaes, em Teixeira, em que dois violeiros teriam de cantar loas pelo homem; o primeiro o faz, mas quando chega a vez de Zé Limeira, a coisa sai totalmente do eixo e termina por ofender a mulher do candidato.

Afinal, todos perguntam: Zé Limeira existiu mesmo ou foi criação de Orlando Tejo? Não vejo porque a exclusiva. As duas coisas concorrem. Se não existiu, por que há dados sobre local e data de nascimento (mesmo sem cartório ou registro de paróquia); há a descrição do personagem, suas andanças. Ou seria o caso de múltiplas facetas de cantadores encarnadas num nome-personagem? (Camões, ou Camonge, das anedotas populares, existiu ou é um personagem mítico popular?). Segundo o poeta Marcus Accioly, Orlando Tejo criou o ‘personagem’, pois há termos modernos em sua descritura. O violeiro Furiba também acha que Tejo criou o personagem

O cantor/cantador Vital Farias reforça a existência de Zé Limeira, alegando que foi quem primeiro escreveu sobre o poeta, em 1972. Talvez não proceda esta prioridade, porque parece haver referências de Tejo sobre o poeta, na década de 60. E a estrada é meio longa, nessa lengalenga de autoria e história.

O cineasta Vladimir de Carvalho, no documentário da TV Senado (2013), “O Homem que viu Zé Limeira”, diz que o cantador era ‘psicodélico’, usava um lenço vermelho, e que, como personagem, fora criado por Tejo, porque ele, Vladimir, tinha ouvido os versos do suposto Limeira, já da boca do repentista Otacílio Batista. Ariano Suassuna também dava a autoria dos versos a Otacílio, mas este o negara pessoalmente a Ariano. Tejo, entrevistado, aumenta o mistério e diz que o viu na Manchúria, em Campina. E arremata: que existiu naquele tempo, existiu!

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Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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